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Uma onda de indignação tomou conta das redes sociais e de entidades ligadas ao combate ao racismo no futebol após o supervisor do árbitro de vídeo (VAR) australiano Shaun Evans fazer um gesto associado ao movimento de supremacia branca durante a transmissão da partida entre Alemanha e Curaçao, válida pela primeira rodada do Grupo E da Copa do Mundo de 2026. O incidente, ocorrido antes do apito inicial e captado ao vivo pelas câmeras que mostravam a cabine de arbitragem em Dallas, rapidamente se transformou em um novo teste para a política de tolerância zero da Fifa contra qualquer forma de discriminação. O gesto, classificado por especialistas como um símbolo de ódio de caráter inequivocamente nazista, expôs as entranhas de uma ideologia extremista no maior evento do futebol mundial, gerando pedidos imediatos pelo seu afastamento do torneio.
O gesto e sua simbologia nazista
Nas imagens que se tornaram virais, Shaun Evans aparece em pé com o braço direito ao lado do corpo, unindo as pontas do polegar e do indicador enquanto mantém os outros três dedos esticados, formando o tradicional sinal de "OK". No entanto, a organização Fare Network, parceira de longa data da Fifa e da Uefa no monitoramento de racismo e discriminação, foi enfática ao afirmar: "O parecer dos nossos especialistas é que o gesto utilizado se assemelha claramente a um símbolo de mão de ‘OK’ invertido usado como símbolo de ‘poder branco’ em círculos globais da extrema direita". A rede Fare foi ainda mais contundente ao descrever o ato como "neonazista", uma caracterização que ecoa o entendimento de órgãos de vigilância do extremismo em todo o mundo. A interpretação do símbolo é direta: os três dedos esticados representariam a letra "W" de "white" (branco), enquanto o círculo formado pelos dedos polegar e indicador, junto ao restante da mão, formaria a letra "P" de "power" (poder), compondo, assim, a expressão "White Power". Em 2019, a Liga Antidifamação (ADL), sediada em Nova York, já havia classificado este gesto como um símbolo de ódio, tornando ainda mais grave a sua exibição neste contexto.
Reações e a exigência de punição
Diante da gravidade da situação, as reações não poderiam ter sido mais severas. O monitor de discriminação da Fifa na Copa do Mundo, por meio da Fare Network, fez um pedido público e categórico para que Shaun Evans seja imediatamente afastado do restante do torneio. "Está claro que este oficial não deveria ter qualquer papel adicional nesta Copa do Mundo", declarou a entidade em um comunicado que ressoou como um ultimato à entidade máxima do futebol. A organização que atua em conjunto com a Fifa também direcionou uma pergunta crucial que aprofunda a suspeita de intencionalidade: "Por que um supervisor do VAR está usando esse símbolo em um evento global de futebol justamente no momento em que sabe que as câmeras estão focadas nele?", questionou a Fare, sugerindo que a única explicação plausível seria a transmissão deliberada de um ideário neonazista.
O silêncio ensurdecedor e as mudanças na transmissão
Até o momento, tanto a Fifa quanto Shaun Evans não se pronunciaram oficialmente sobre o caso, um silêncio que apenas aumenta a controvérsia. A ausência de uma resposta rápida e enérgica é, por si só, um sinal preocupante. No entanto, uma alteração significativa no formato da transmissão após a partida parece revelar que o incidente não passou despercebido pela produção do evento. Nas partidas subsequentes, a cabine do VAR não foi mais mostrada com os árbitros posando para a câmera. Em vez disso, o público passou a ver os profissionais já em suas posições, de costas ou concentrados nos monitores, uma clara tentativa de evitar novas exposições ao que poderia ser uma manifestação extremista. A rede Fare celebrou a medida, mas foi incisiva ao afirmar: "Um público televisivo global não deve ser submetido a indivíduos de extrema-direita usando símbolos neonazistas enquanto se preparam para assistir a uma partida".
Um retrocesso histórico e a omissão da Fifa
A utilização deste símbolo por um profissional ligado ao evento acontece em um momento em que a Alemanha, país com um passado profundamente marcado pelo horror nazista, entra em campo. A escalada da extrema-direita em diversas partes do mundo, incluindo os Estados Unidos (país-sede do torneio), tem normalizado e banalizado símbolos que antes estavam restritos às sombras. Ao não se manifestar com a urgência que o caso exige, a Fifa corre o risco de ser conivente com a circulação de mensagens de ódio em seu principal produto. O argumento de que o gesto poderia ser uma brincadeira inofensiva, conhecida como "circle game", é frágil e perigoso, especialmente vindo de um árbitro profissional e experiente. A escolha de fazer o "OK" abaixo da cintura, exatamente a posição em que o símbolo foi apropriado por supremacistas, e o fato de ele ter segurado o gesto por cerca de 8 segundos para a câmera, indicam um grau de premeditação que invalida qualquer tentativa de justificativa como um simples ato fortuito. A própria ADL, em sua base de símbolos de ódio, faz a ressalva de que é necessário avaliar o contexto antes de concluir a intenção de quem o utiliza, e o contexto aqui é de extremo mau gosto e possível provocação.
Onde está o limite do aceitável?
O episódio envolvendo Shaun Evans lança uma sombra sobre a competição e força uma reflexão dolorosa. O futebol, que se vende como um esporte de união e celebração da diversidade, vê-se manchado por um ato que ecoa o discurso de ódio e exclusão. A Fifa, que tanto se gaba de suas campanhas antidiscriminação, tem agora a obrigação moral e institucional de agir com o máximo rigor. Permitir que um oficial acusado de demonstrar um símbolo nazista permaneça no evento seria um tiro no pé de sua própria credibilidade e um aceno perigoso para grupos extremistas que buscam, cada vez mais, espaços de visibilidade para propagar seu ódio. A história do futebol já assistiu a capítulos sombrios onde o preconceito foi tolerado em nome de uma falsa neutralidade; repetir esse erro não é uma opção. A partir de agora, todas as atenções estão voltadas para a sede da Fifa, aguardando uma atitude que esteja à altura da gravidade do que foi exibido ao vivo para o mundo.
Com informações de BBC, Sky Sports, Folha de S.Paulo, Valor Econômico, Poder360, Newsweek, Sporting News, Times of India, CartaCapital, Brasil de Fato, SIC Notícias, India Today, News18, Tribuna, Mirror, Daily Mail ■