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O óbvio e o óbito de uma campanha sem propostas
Sem plano de governo, sem números, sem metas e sem diagnóstico real do país, a direita que se autointitula "oposição" enterra de vez qualquer pretensão de ser alternativa – e revela que o ódio ao rival é o único combustível de uma máquina política que já não sabe girar por si mesma
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■   Bernardo Cahue, 11/07/2026

A previsibilidade já não é mais um defeito – é um atestado de óbito intelectual. Basta ligar o microfone de qualquer líder bolsonarista, em qualquer estado da federação, para ouvir a mesma cantilena repetida à exaustão: "vamos tirar o PT do poder". É um mantra que substitui teses, que ocupa o lugar de dados, que se disfarça de proposta. No Ceará, no lançamento das pré-candidaturas do PL, Flávio Bolsonaro discursou por mais de vinte minutos e não apresentou uma única política pública concreta para o estado. Não disse qual o projeto para a seca, para o IDH baixo, para a violência ou para o subdesenvolvimento industrial. Disse, isso sim, que era preciso "arrancar" o PT do poder. E a plateia, dividida e aos gritos, aplaudiu o vazio como se fosse um cardápio completo.

Essa pobreza programática não é um acaso – é uma escolha deliberada. Quando se reduz toda a disputa eleitoral a um plebiscito contra o Partido dos Trabalhadores, escapa-se da obrigação elementar de responder ao eleitor o que se fará com o salário mínimo, com o preço dos combustíveis, com a educação básica ou com o déficit habitacional. O bolsonarismo, nos quatro anos em que esteve no Planalto, já demonstrou que sua capacidade de gestão se esgotou na narrativa da guerra cultural. Agora, fora do governo, a repetição do bordão revela não apenas uma estratégia de marketing, mas a constatação melancólica de que não há mais o que oferecer além do rancor.

Analisemos friamente o que se viu no evento de Maraponga, em Fortaleza. Além do tumulto provocado pelo racha interno entre apoiadores de Michelle Bolsonaro e de André Fernandes, o que se ouviu no palco foi um amontoado de frases feitas: "Deus, pátria e família", "contra o comunismo", "defesa da liberdade". Palavras que, embora ressoem no ouvido de parcela do eleitorado, não se traduzem em nenhum projeto de lei, em nenhuma emenda constitucional ou em nenhum plano plurianual. A ausência de propostas é tão escandalosa que os próprios aliados já não sabem o que defender – por isso se agarram à única coisa que unifica a tropa: o ódio comum ao PT.

O que essa previsibilidade revela, em verdade, é um diagnóstico severo de incompetência política:

  • Falta de diagnóstico nacional: O bolsonarismo não produz estudos, não encomenda pesquisas, não ouve especialistas. Seu diagnóstico do Brasil se resume a "o PT destruiu tudo", sem apresentar um indicador sequer que compare a gestão petista com a sua própria gestão anterior – afinal, os dados de desmatamento, inflação e desemprego no governo Bolsonaro são de conhecimento público e não favorecem a narrativa.
  • Inexistência de agenda propositiva: Enquanto partidos de centro e de esquerda discutem reforma tributária, transição energética, novo ensino médio e financiamento da saúde, o PL e suas alas radicais se limitam a vetar, a negar e a antagonizar. Não há uma proposta original de segurança pública, de previdência ou de política externa que venha das fileiras bolsonaristas.
  • Substituição da gestão pelo símbolo: A figura de Jair Bolsonaro é tratada como um totem que dispensa explicações. Não se pergunta "o que ele faria"; pergunta-se apenas "quem é contra ele". Essa lógica transforma a política em religião e o voto em ato de fé, não em escolha racional entre projetos antagônicos.

A crítica não é nova, mas ganha contornos dramáticos quando confrontada com a realidade dos estados. No Ceará, por exemplo, o IDH é de 0,754 (abaixo da média nacional), a taxa de homicídios é uma das mais altas do Nordeste e o acesso à água potável ainda é um desafio crônico. O que os pré-candidatos do PL apresentaram como solução? Nada. Nem um programa de dessalinização, nem um pacto pela segurança, nem um plano de geração de emprego. Apenas o eco vazio de "tirar o PT do poder", como se a retirada de um partido do governo, por si só, fizesse chover no sertão ou reduzisse a violência nas periferias de Fortaleza.

Essa estratégia, contudo, tem um prazo de validade. O eleitorado brasileiro, especialmente o mais jovem, já não se contenta com a guerra cultural como único cardápio. As pesquisas de intenção de voto mostram que, embora a rejeição ao PT ainda seja alta, a rejeição ao bolsonarismo também cresce na mesma proporção – justamente porque as pessoas percebem que, sob a liderança da direita radical, não houve avanço concreto em suas vidas. O cheque em branco que foi dado em 2018 já foi devolvido sem fundos em 2022.

Ao insistir na mesma tecla, o bolsonarismo confirma sua própria exaustão. Uma campanha sem propostas é uma campanha que pede permissão para governar sem compromisso. É a tentativa de conquistar o poder sem precisar prestar contas do que se fará com ele. E, ironicamente, é exatamente esse vazio programático que abre espaço para que o PT, mesmo com seus próprios defeitos e contradições, possa apresentar números, metas e programas – ainda que contestáveis –, enquanto a direita se apega a uma única e desgastada sentença: "o outro é pior".

O episódio do Ceará é sintomático. Enquanto os bolsonaristas se degladiavam nos bastidores sobre apoios e alianças, e enquanto André Fernandes acusava petistas infiltrados para disfarçar a própria desorganização, o que ficou de pé foi a imagem de um movimento que não sabe para onde vai, mas insiste em dizer que quer chegar lá "contra o PT". Sem rota, sem bússola e sem combustível programático, a viagem tende a terminar no primeiro tropeço – ou, como se viu em Maraponga, no primeiro cartaz rasgado por um aliado contra outro aliado.

A previsibilidade, nesse caso, não é apenas enfadonha – é suicida. Pois, ao reduzir toda a política a um antagonismo infantil, o bolsonarismo entrega ao eleitor a prova mais cabal de que não tem futuro: o passado já o condena pela falta de feitos, e o presente o revela refém de um bordão que já não emociona nem os mais fiéis. Resta o grito – cada vez mais abafado – de quem não tem mais o que dizer.

Com informações de Estadão, O Povo, Revista Fórum, ND Mais ■

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