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O futebol brasileiro como vitrine e subterfúgio para a lavagem de dinheiro
Enquanto o Instituto Léo Moura é investigado por desvios de recursos públicos, uma constelação de ex-craques e empresários do futebol já responde ou foi condenada por esquemas de lavagem de dinheiro, evasão fiscal e negócios ilícitos com contraventores — um retrato sombrio do esporte mais popular do país
Analise
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■   Bernardo Cahue, 11/07/2026

O futebol brasileiro sempre foi celeiro de talentos e palco de glórias. Mas, nos bastidores, a imagem de atletas milionários e ídolos nacionais tem sido utilizada como escudo para a circulação de recursos de origem criminosa. A recente investigação sobre o Instituto Léo Moura, alvo de auditoria da CGU por suspeitas de superfaturamento e uso de empresas fantasmas, é apenas a ponta de um iceberg que envolve jogadores de todas as gerações em esquemas de lavagem de dinheiro, negócios com bicheiros e fraudes milionárias. A seguir, uma análise dos casos mais emblemáticos que mancham a história do esporte.

Emerson Sheik e o bicho: a permuta que escondia R$ 473 mil

O ex-atacante Emerson Sheik, ídolo de Corinthians, Flamengo e Fluminense, é um dos casos mais explícitos de ligação entre um jogador em atividade e a contravenção. Em março de 2023, Sheik foi denunciado pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público do Rio de Janeiro por integrar uma organização criminosa liderada pelo bicheiro Bernardo Bello, então presidente da Escola de Samba Vila Isabel.

Segundo a denúncia, Sheik participou de uma permuta de imóveis com Bello — uma cobertura na Barra da Tijuca por uma casa do contraventor — que oficialmente foi registrada como "zero a zero". No entanto, a quebra de sigilos bancários revelou que o ex-jogador recebeu R$ 473,5 mil em quatro depósitos bancários em espécie, valores que não constaram na escritura pública nem foram declarados à Receita Federal. O MP afirma que Sheik "permitiu que os depósitos apontados fossem realizados em sua conta bancária, sem constar da escritura pública, sem os declarar à Receita Federal, camuflando a origem, natureza e os valores ilícitos".

Não é a primeira vez que Sheik aparece em negócios suspeitos com contraventores. Em 2010, ele foi apontado como comprador de um BMW X6 do bicheiro Haylton Scafura, importado ilegalmente. Na ocasião, declarou na nota fiscal ter pago apenas US$ 5 mil por um veículo que valia cerca de US$ 57 mil. Com a nova denúncia, a Justiça determinou o bloqueio de seus bens e o ex-jogador tornou-se réu, obrigado a cumprir medidas cautelares como proibição de sair do país por mais de 15 dias sem autorização judicial e comparecimento bimestral em juízo.

Assis, o irmão empresário: condenação, Paraguai e R$ 591 mil sob suspeita

Se Emerson Sheik representa a faceta do jogador que se associa ao jogo do bicho, o caso de Roberto de Assis Moreira, irmão e empresário de Ronaldinho Gaúcho, expõe o uso do futebol como plataforma para lavagem de dinheiro em âmbito internacional. Assis já foi condenado pela Justiça Federal de Porto Alegre a cinco anos e cinco meses de prisão por sonegação fiscal e lavagem de dinheiro, em uma sentença que ainda cabe recurso.

O episódio mais notório, porém, ocorreu em 2020, quando Ronaldinho e Assis foram presos no Paraguai por uso de passaportes falsos. As investigações da Subsecretaria de Estado de Tributação do Paraguai apontaram que a falsificação documental era apenas a ponta de um iceberg que envolvia evasão cambial e lavagem de dinheiro. Segundo a apuração, os irmãos teriam ido ao país com o intuito de ingressar em um esquema que movimentaria US$ 400 milhões (cerca de R$ 1,8 bilhão) por meio de uma empresa de bolsas, que repatriava dólares de forma clandestina através da fronteira com cigarros.

Mais recentemente, o nome de Assis voltou a aparecer em investigações oficiais. O relatório final da CPMI do INSS, que apurou irregularidades em recursos de aposentados e pensionistas, cita uma transferência de R$ 591 mil recebida por Roberto de Assis Moreira em 13 de junho de 2023, oriunda de empresa investigada por movimentações financeiras atípicas. Embora o relatório não atribua irregularidades de forma direta ao irmão de Ronaldinho, a citação no contexto de rastreamento de fluxos financeiros suspeitos reforça o histórico de envolvimento do empresário com operações de alto risco.

Neymar: de testemunha a alvo de investigações na Espanha e no Brasil

O principal nome do futebol brasileiro na atualidade, Neymar, também não está imune a suspeitas. Em fevereiro de 2023, o jogador prestou depoimento como testemunha à Polícia Civil do Distrito Federal em uma operação que investigava agiotagem, lavagem de dinheiro e receptação de joias. Segundo a investigação, Neymar recebeu duas joias de um dos alvos da operação, mas não foi considerado investigado. O grupo criminoso, dono de um cassino de pôquer em Águas Claras, movimentou R$ 16 milhões entre 2019 e 2021.

No âmbito internacional, Neymar enfrenta um processo mais grave. A Audiência Nacional da Espanha aceitou processá-lo por suspeita de fraude e corrupção na transferência do Santos para o Barcelona, em 2013. A Justiça espanhola investiga se houve ocultação do real valor da transação, o que configuraria crime contra a fazenda pública. Embora o jogador negue as acusações, o caso segue em tramitação e pode render condenações bilionárias.

Daniel Alves ficou de fora das acusações

Embora o nome de Daniel Alves tenha sido citado em investigações envolvendo "ONGs de prateleira" ao lado de Emerson Sheik, o ex-lateral não responde diretamente por crimes de lavagem de dinheiro. Seu envolvimento mais grave é de outra natureza: condenado por estupro na Espanha, ele cumpriu 14 meses de prisão e responde a um processo criminal de alta repercussão. A ausência de acusações formais por lavagem de dinheiro em seu desfavor não o exclui do rol de atletas com passagem pela Justiça, mas o coloca em uma categoria distinta dentro do universo de escândalos do futebol.

Outros casos: manipulação de apostas, fraude trabalhista e crime organizado

Para além dos nomes mais midiáticos, o futebol brasileiro tem sido palco de uma enxurrada de investigações por lavagem de dinheiro em diferentes frentes:

  • Manipulação de resultados e apostas esportivas: Em 2026, a Justiça do Rio Grande do Sul aceitou denúncia contra um ex-jogador do Juventude por manipulação de resultados para apostas e lavagem de dinheiro, no âmbito da Operação Totonero. O atacante Ênio, emprestado à Chapecoense, virou réu por ocultar valores superiores a R$ 1 milhão.
  • Fraudes contra clubes: O ex-atacante Christian Correa Dionisio, que atuou pelo Internacional, foi condenado por estelionato, lavagem de dinheiro e embaraço à investigação. Ele aceitou a inclusão de uma cláusula fraudulenta de R$ 70 mil em sua ação trabalhista, em um esquema que desviou mais de R$ 260 mil do clube.
  • Infiltração do crime organizado: Investigações recentes apontam que empresários ligados ao PCC agenciaram jogadores do São Paulo, com suspeitas de lavagem de dinheiro e saques de R$ 11 milhões.
  • Léo Moura e o Instituto: O próprio Léo Moura, ex-lateral do Flamengo, além da investigação da CGU por superfaturamento e empresas fantasmas na gestão de R$ 45 milhões em recursos públicos, também é alvo de apuração por suposto envolvimento com uma empresa acusada de lavagem de dinheiro e exploração de apostas online.

Um padrão que se repete

O que une todos esses casos é um padrão preocupante: a utilização da imagem e do patrimônio de jogadores de futebol — muitas vezes em conluio com empresários e familiares — para dar aparência de legalidade a recursos de origem criminosa. Seja por meio de negócios imobiliários com bicheiros (Sheik), de empresas de fachada e evasão fiscal (Assis), de contratos de transferência fraudulentos (Neymar) ou de desvios de recursos públicos via institutos e ONGs (Léo Moura), o futebol brasileiro se tornou um terreno fértil para a lavagem de capitais.

A falta de transparência na gestão de entidades esportivas, a fragilidade dos mecanismos de controle e a leniência de patrocinadores e dirigentes criam o ambiente propício para que crimes financeiros floresçam às margens dos gramados. Enquanto isso, torcedores assistem, perplexos, a seus ídolos serem conduzidos de vestiários a varas criminais — uma derrota que nenhum título pode apagar.

Com informações de O Globo, G1, UOL, CNN Brasil, Metrópoles, Extra, Lance!, ESPN, Correio do Povo, GaúchaZH, Jusbrasil, ConJur, Migalhas, Carta Capital, Poder360, DW Brasil, Band.com.br ■

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