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A cena já se tornou familiar nas arquibancadas dos estádios e nos perfis das redes sociais: o torcedor que troca a camisa canarinho pela azul, o que esconde a bandeira do Brasil sob o assento, o que hesita em cantar o hino por medo de ser associado a um espectro político. O episódio recente – em que internautas ironizaram uma derrota da Seleção como “Noruega 2 x 1 Bolsonaristas” – não é uma piada isolada. É o sintoma de uma enfermidade que vem sendo cultivada há anos: a transformação do que é comum e sagrado em trincheira partidária. Este editorial não se presta a falsas isenções; presta-se, sim, a denunciar o veneno que corrói o que deveria nos unir.
O placar que circula entre torcedores e analistas – e que serve de base para esta reflexão – acerta em um diagnóstico brutal: a política conseguiu, de fato, destruir um símbolo nacional na cabeça do brasileiro. A amarelinha, outrora vestimenta de alegria e orgulho, independente de governo ou crise, agora é lida como adesivo de um lado só. E isso não ocorreu por acaso. Houve um esforço deliberado, de certas correntes ideológicas, para sequestrar a identidade nacional e transformá-la em propriedade privada de um projeto de poder. O bolsonarismo, como movimento, não foi o único responsável – mas foi o mais eficiente nessa empreitada, a ponto de cidadãos comuns preferirem o azul neutro a vestir o amarelo que lhes pertence por direito de nascença.
Mas engana-se quem pensa que esse fenômeno é restrito ao Brasil. A Colômbia e os Estados Unidos vivem processos similares – a politização de datas, cores e rituais esportivos. E traz um exemplo estarrecedor: a interferência de Donald Trump na liberação de um jogador expulso, por pedido na FIFA, para jogar contra a Bélgica. O que se desenha é um cenário em que nem o futebol escapa à lógica geopolítica e eleitoral. O gramado vira extensão do plenário; a arbitragem, reflexo de alianças espúrias; e a Copa, vitrine de narrativas fabricadas.
Nesse caldo de cultura, a direita brasileira insiste em cravar que a esquerda não é nacionalista – como se o amor ao país fosse medido por bandeiras de partido empunhadas ou por hinos entoados em comícios. Balela! O Brasil nunca foi socialista nem comunista, mesmo após 17 anos de governos de centro-esquerda. O que houve, no máximo, foram políticas de contenção da miséria, combate à fome e enfrentamento ao trabalho análogo à escravidão – medidas que, por mais imperfeitas que tenham sido, jamais descaracterizaram o caráter capitalista e ocidental do país. Nacionalismo não é exclusividade de quem defende abertamente as forças armadas ou o agronegócio; nacionalismo também é garantir que a criança da periferia tenha o que comer antes de vestir a camisa da Seleção.
Aqui vale o cansaço de um cidadão que vê sua paixão sendo transformada em cálculo eleitoral, sua bandeira em estandarte de facção, seu grito de gol em vaia política. Quando as bets e as pesquisas de intenção de voto dominam as conversas de bar, o resultado do jogo perde a espontaneidade; torna-se previsível, manipulável, cinzento. E é exatamente essa previsibilidade que os arautos da polarização desejam: um roteiro onde cada um já sabe qual time torcer, qual ídolo cultuar, qual inimigo vaiar.
Mas há uma teimosia: o brasileiro não é apolítico. Tem time de futebol, time de candidato, veste a camisa partidária, declara voto, participa de campanha, canta na arquibancada, pula no gol e na vitória eleitoral, empunha bandeira, escala seleção virtual, compra álbum de figurinhas e, em cada ato, reafirma sua brasilidade. Essa complexidade não cabe na equação simplista de “direita nacional” versus “esquerda antinacional”. Trata-se de um engodo – herança de um truque de marketing político histórico da ditadura militar que explora a fragilidade de nossa democracia e, na forma contemporânea, de narrativas que se repetem, principalmente, desde o impeachment de Collor em 1992.
O editorial que ora se escreve não pede que todos deixem de lado suas convicções. Pede, isso sim, que a camisa amarela volte a ser apenas amarela – e não um QR code de posicionamento ideológico. Pede que o gol de bicicleta seja celebrado sem que se pergunte o voto do atleta. Pede que a bandeira nacional não seja rasgada por um lado nem incendiada pelo outro, mas hasteada como lembrança de que somos, antes de tudo, uma nação de 230 milhões de pessoas com fome de pão e de espetáculo – não de ódio.
Não se trata de apagar diferenças – seria ingênuo –, mas de reconhecer que o campo de jogo da vida não se reduz ao campo de batalha das urnas. A política é nobre quando feita com propósito coletivo; é vil quando transforma o outro em adversário a ser aniquilado. O futebol, por sua natureza, sempre foi uma metáfora da democracia: onze contra onze, regras claras, arbitragem falha, mas passível de correção. O que estamos vendo, infelizmente, é a tentativa de transformar a Copa do Mundo em uma extensão do calendário eleitoral – e isso, meus caros, é um crime contra a alma lúdica do povo brasileiro e, no caso da Copa, mundial.
Portanto, que essa discussão se encerre por aqui – não no silêncio, mas no reconhecimento de que o Brasil é maior que qualquer governo, que qualquer partido, que qualquer polarização fabricada em estúdio. Que o próximo gol da Seleção seja comemorado por todos, sem que ninguém precise olhar para o lado para saber se o vizinho está do “lado certo”. E que a camisa amarela, finalmente, seja devolvida ao seu legítimo dono: o povo brasileiro – inteiro, diverso, contraditório e, acima de tudo, apaixonado.
Chega de apropriação. Chega de tutela. O Brasil não é de direita nem de esquerda – é de quem trabalha, de quem sonha, de quem chora e de quem vibra. E isso, caro leitor, é a única verdade que não cabe em pesquisa de opinião.
O normal de hoje não é o normal de ontem. O normal é a camisa azul, o medo de se manifestar, a piada irônica que esconde mágoa. O normal é a FIFA cedendo a pressões de chefes de Estado. O normal é a política invadindo o único espaço que ainda nos restava para esquecê-la. Pois bem – se esse é o normal, que venha uma anormalidade urgente: a da redescoberta do afeto comum, a do grito de gol sem legenda, a da bandeira que não é de ninguém além de todos nós.
Que a próxima Copa nos encontre mais unidos – não na mesmice das opiniões, mas na certeza de que o Brasil, apesar de tudo, vale muito mais que qualquer placar político.
Com informações de Folha de S.Paulo, O Globo, UOL Esporte, ESPN Brasil, The Intercept Brasil, Poder360, e ge.globo – veículos que, entre análises políticas e crônicas esportivas, ajudaram a compor o mosaico de interpretações sobre o fenômeno da politização do futebol no Brasil e no mundo ■