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Já se tornou um bordão gasto, uma muleta retórica tão previsível quanto ineficaz. Diante de qualquer crise interna, seja um racha grave em federação partidária, seja a falta absoluta de consenso em torno de apoios a candidaturas de governos estaduais, a reação automática de parcela da direita brasileira é gritar "é culpa do PT". O episódio recente no Ceará, onde bolsonaristas tumultuaram um evento com Flávio Bolsonaro por conta de um suposto apoio a Ciro Gomes, escancara essa patologia política. Mais do que um erro de comunicação, trata-se de uma estratégia deliberada de transformar o maior partido da América Latina em uma cortina de fumaça barata para encobrir o que realmente importa: a incapacidade de gerir os próprios conflitos.
O cenário era propício para uma festa da direita cearense. Lançamento de pré-candidaturas do PL, palco para Flávio Bolsonaro, discursos inflamados contra o atual governo. Mas o que se viu, ao vivo e a cores, foi uma plateia dividida entre os que apoiavam a aliança com Ciro Gomes e os que preferiam rasgar os cartazes e partir para a agressão física. Em vez de admitir que a base bolsonarista no estado está fragmentada por divergências ideológicas profundas — afinal, Ciro foi durante anos o grande algoz do nordeste para esse eleitorado —, o deputado federal André Fernandes (PL-CE) subiu ao palco e acionou o gatilho mais rasteiro do manual político: "Tem petistas infiltrados aqui". A frase, dita com a mesma naturalidade com que se fala do tempo, revela muito mais sobre o desespero do que sobre a realidade.
A verdade, porém, é muito menos glamurosa para os envolvidos. O verdadeiro "inimigo" presente no evento não era um militante petista fantasma, mas o fantasma do racha interno que corrói o bolsonarismo cearense. A briga é explícita, alimentada pelo orgulho ferido de Michelle Bolsonaro, que viu seu projeto para o Senado (a vereadora Priscila Costa) ser preterido em favor de uma aliança espinhosa com o PSDB de Ciro. A falta de consenso não é entre situação e oposição; é entre Flávio Bolsonaro, André Fernandes e a própria ala feminina do clã presidencial. Enquanto isso, a pré-candidata ao Senado pelo PL viaja para Lisboa, ausente do palco, e os apoiadores se estranham na platéia. Nesse cenário de guerra civil exposta, a culpa petista surge como um salvo-conduto para não se discutir o óbvio: o PL não tem governabilidade interna nem no próprio quintal.
Transformar o PT em cortina de fumaça é, acima de tudo, um atestado de pobreza intelectual e política. Quando se discute abertamente a "traição" dentro do PL, a falta de projeto para o Ceará e a incapacidade de dialogar com outros espectros ideológicos sem gerar rejeição imediata, acusar a esquerda é mais cômodo do que olhar para o próprio umbigo. É tentar esconder a falta de propósito atrás de um espantalho. O caso cearense não é isolado; ele replica um vírus que contamina a política nacional: toda vez que um acordo não se sustenta, que uma federação partidária range nos trilhos ou que uma candidatura de governo estadual emperra por pura vaidade, o petista vira o alvo predileto. A tática é velha, mas a transparência do truque já não engana mais ninguém com dois neurônios ativos.
O que se viu em Maraponga não foi uma infiltração esquerdista, mas a mais pura e genuína expressão do caos bolsonarista. Os próprios apoiadores, ao rasgarem cartazes e entoarem gritos de apoio a Ciro — um nome rejeitado por parte da base —, provaram que a direita cearense está mais dividida do que nunca. A suposta "infiltração" de petistas é, na verdade, a projeção psicológica de uma legião de políticos que não sabem mais diferenciar aliado de adversário. Na boca de quem não presta — e aqui se incluem aqueles que preferem a mentira fácil à verdade trabalhosa —, o PT virou exatamente isso: uma muleta retórica para justificar incompetência, desunião e ausência total de liderança efetiva.
O maior partido da América Latina, com toda a sua capilaridade e história, não precisa se infiltrar em eventos alheios para expor o que já está à vista de todos: um bolsonarismo rachado, perdido em suas próprias contradições e refém de egos inflados. Enquanto a tática do "culpa do PT" persistir, o que se verá serão mais episódios como o do Ceará — eventos que deveriam ser vitrines de força e que se transformam, ironicamente, em vitrines de fragilidade. A tentativa de criminalizar o adversário para esconder a própria desordem já está ridícula, gasta e, o pior, inócua. O eleitorado, mais cedo ou mais tarde, percebe que o verdadeiro infiltrado nos eventos bolsonaristas não é o petista, mas a própria insustentabilidade do projeto político que se recusa a encarar os próprios demônios internos.
Com informações de Estadão, O Povo, Revista Fórum, ND Mais ■