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Presidente do PL comandava destino de emendas parlamentares mesmo sem mandato
Investigação da Polícia Federal aponta que Valdemar Costa Neto utilizou servidores da Câmara e deputados “laranjas” para desviar recursos de emendas de comissão, em um esquema que durou de junho de 2024 a março de 2026; STF bloqueia R$ 119 milhões em bens do dirigente
Politica
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■   Bernardo Cahue, 11/07/2026

O presidente nacional do Partido Liberal (PL), Valdemar Costa Neto, tornou-se o centro de um escândalo que expõe as raízes da corrupção no sistema de emendas parlamentares brasileiro. Segundo investigação da Polícia Federal (PF), o dirigente partidário — que não exerce mandato eletivo há mais de uma década — atuou como o verdadeiro comandante da destinação de pelo menos 21 emendas parlamentares, totalizando R$ 119,2 milhões em recursos públicos, entre junho de 2024 e março de 2026.

Com base nos indícios reunidos pela PF, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino determinou, nesta sexta-feira (10), a suspensão imediata da execução das emendas sob suspeita e o bloqueio de bens de Valdemar Costa Neto até o limite de R$ 119,2 milhões — valor equivalente ao montante desviado[reference:2][reference:3]. Do total, cerca de R$ 104 milhões já haviam sido efetivamente pagos pelo governo federal a municípios indicados pelo dirigente.

“Os espaços constitucionalmente permitidos às emendas parlamentares não degradam o Erário à condição de patrimônio privado, passível de aquisição, transação ou quotização entre as agremiações partidárias e seus dirigentes”, escreveu o ministro Flávio Dino em sua decisão, na qual classificou como “espantosa” a ascendência de Valdemar sobre servidores da Câmara dos Deputados.

O esquema

De acordo com o relatório da Polícia Federal, Valdemar Costa Neto montou um “arranjo decisório paralelo” dentro da Câmara dos Deputados para direcionar verbas de emendas de comissão conforme seus interesses políticos e particulares. O esquema contava com a participação de ao menos três servidores da Câmara, que operacionalizavam as indicações do presidente do PL:

  • Mariângela Fialek (Tuca) — ex-assessora do ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL), lotada na liderança do PP;
  • Garigham Amarante Pinto — homem de confiança de Valdemar, ex-diretor do FNDE no governo Bolsonaro, já alvo de outras investigações por superfaturamento e intermediação de verbas[reference:9];
  • Nara Brum — servidora da Câmara que enviava planilhas com as alterações das emendas.

Mensagens interceptadas pela PF revelam o funcionamento do esquema. Em 25 de agosto de 2025, Garigham Amarante escreveu para Mariângela: “Marquei com o Valdemar amanhã dez e meia. Acho que ele vai jogar no turismo os vinte e quatro. Pode ser?”. No dia seguinte, ele cobrou: “Fechou o valor do Presidente Valdemar?”, e ela respondeu: “Se puder trocar tudo turismo, ótimo”. Garigham então liquidou: “Vinte e quatro milhões tá bom”.

Dois dias depois, a servidora Nara Brum enviou uma planilha intitulada “Alteração em Turismo - VCN” — sigla que, segundo a PF, refere-se a Valdemar Costa Neto[reference:12]. Em outro diálogo, registra-se: “Pode colocar o máximo que der. Ele tá querendo Turismo”.

Deputados “laranjas”

Para conferir aparência de legalidade às operações, o esquema utilizava deputados federais do PL como “solicitantes” fictícios das emendas, que na realidade eram comandadas por Valdemar. Segundo a PF, os parlamentares apareciam formalmente como autores das indicações, embora as decisões partissem do presidente do partido[reference:16].

Os deputados apontados pela investigação como “laranjas” são:

  • Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) — líder do PL na Câmara;
  • Luiz Carlos Motta (PL-SP) — relator do Orçamento de 2024;
  • Capitão Alden (PL-BA).

Procurados pela reportagem, Luiz Carlos Motta afirmou que seu nome aparece porque foi relator do Orçamento em 2024. Capitão Alden alegou que a indicação foi regular e resultado do “procedimento institucional adotado”. Sóstenes Cavalcante não comentou.

Municípios beneficiados

O foco das indicações ilegais era, em sua maioria, municípios do estado de São Paulo. No entanto, cidades da Bahia, Rio de Janeiro, Paraná e Pará também aparecem na lista. Entre as emendas identificadas pela PF está, por exemplo, R$ 2,3 milhões para a construção de praças de eventos no município de Itaguaçu da Bahia (BA).

A defesa de Valdemar

Em nota oficial, a defesa de Valdemar Costa Neto — representada pelos advogados Marcelo Ávila de Bessa e Thiago Fleury — negou qualquer irregularidade e criticou a decisão do ministro Flávio Dino. Segundo os advogados, a decisão se baseia em “premissas frágeis” e “inferências subjetivas”, além de representar uma “indevida criminalização da atividade político-partidária”.

“É natural e legítimo, no sistema democrático, que um presidente partidário dialogue com parlamentares, defenda prioridades programáticas, articule interesses nacionais e regionais e influencie politicamente sua bancada. Nada há de criminoso nisso”, argumentaram os advogados. Eles afirmaram ainda que Valdemar não teve qualquer vantagem pessoal e que “é preocupante” que o bloqueio de recursos recaia sobre o patrimônio pessoal dele.

O presidente do PL também se manifestou publicamente: “Não [indiquei]. Quando temos cidades pequenas que não têm representação em Brasília, o Líder do Partido é quem faz”.

Reações políticas

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, saiu em defesa do presidente de seu partido. Em publicação nas redes sociais, criticou a investigação da PF e disse que o órgão atua “de forma seletiva para constranger um adversário político do atual governo”[reference:29]. “Como presidente do maior partido do Brasil, é natural que ele atue politicamente junto a deputados federais, em especial os do próprio PL. Tenho certeza que o presidente Valdemar saberá dar todas as respostas aos pontos levantados”, escreveu.

Antecedentes

Valdemar Costa Neto não é um novato em escândalos de corrupção. O dirigente do PL já foi condenado no escândalo do mensalão, em 2013, a sete anos e dez meses de prisão por corrupção. Também foi investigado na Operação Lava Jato, preso por porte de arma e indiciado em investigação sobre a tentativa de golpe.

Desdobramentos

Além do bloqueio de bens e da suspensão das emendas, o ministro Flávio Dino determinou que o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), apresente em até dez dias todos os documentos sobre as emendas parlamentares ligadas a Valdemar Costa Neto.

A ordem de Dino foi dada apesar da posição contrária da Procuradoria-Geral da República (PGR) pelo congelamento do patrimônio. Na decisão, o ministro cita a avaliação da PF de que a conduta dos investigados poderia ser enquadrada como crime de peculato — o desvio de recursos públicos.

A investigação é um desdobramento da chamada “Operação Transparência”, deflagrada em dezembro de 2025 para apurar possíveis fraudes na destinação de emendas e o descumprimento das regras de transparência e rastreabilidade fixadas pelo STF.

Com informações de BBC News Brasil, G1, O Globo, CNN Brasil, Estadão, UOL/Folha de S.Paulo, CBN, BandNews TV, Congresso em Foco, Brasil de Fato, O Liberal e Tribuna do Norte ■

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