Siga nossas redes sociais
Logo     
Siga nossos canais
   
Colapso nas entranhas do bolsonarismo
Investigação da Polícia Federal aponta esquema de vazamentos seletivos contra ministros do STF com participação de perito e colunista do Globo; irmãos levam 'esporro' na Casa Branca; Jair e Michelle têm discussão ouvida por vizinhos; e senador Flávio Bolsonaro teme revelação de vídeos comprometedores
Analise
Foto: https://ichef.bbci.co.uk/ace/ws/640/cpsprodpb/b1f0/live/487bda00-4f6a-11f1-a19d-b3cbcec9450b.jpg.webp
Compartilhar:
■   Bernardo Cahue, 08/07/2026

O bolsonarismo, movimento político que durante anos se sustentou na imagem de uma família unida em torno do patriarca Jair Bolsonaro, atravessa sua mais aguda crise interna desde que o ex-presidente perdeu o foro privilegiado e foi colocado em prisão domiciliar. O que antes eram rumores de bastidor agora se tornaram escândalos públicos, vazamentos seletivos de investigações e uma guerra declarada entre os herdeiros do clã — com direito a vídeos, acusações de humilhação e promessas de revelações bombásticas.

A crise se desdobra em pelo menos quatro frentes simultâneas, todas interligadas: a investigação do Banco Master e seus vazamentos suspeitos; a briga aberta entre Michele Bolsonaro e o enteado Flávio; a atuação do ministro André Mendonça no STF como peça-chave do embate; e o racha interno no PL, com a ala comandada pelo deputado Nicolas Ferreira e por Michele ameaçando deixar a legenda.

1. O Caso Banco Master e os vazamentos seletivos

O epicentro da crise está na investigação sobre o Banco Master, do empresário Daniel Vorcaro. Em março de 2026, a Polícia Federal abriu um inquérito para apurar vazamentos de informações sigilosas da investigação. O caso, inicialmente sob relatoria do ministro Dias Toffoli, foi transferido para André Mendonça — uma mudança que, segundo analistas, teria sido articulada para beneficiar aliados de Bolsonaro.

A suspeita central é de que o perito criminal federal João Cláudio Nabas, lotado na PF há 20 anos, teria produzido dois arquivos intitulados "Moraes.pdf" e "Toffoli e esposa.pdf" a partir de dados extraídos do celular de Vorcaro. Nabas teria repassado essas informações à colunista do Globo Malu Gaspar, que publicou mais de 50 matérias contra Alexandre de Moraes e Dias Toffoli em menos de dois meses. Em maio de 2026, a PF realizou busca e apreensão contra Nabas, que foi afastado da corporação.

O que torna o caso especialmente grave é a cronologia: a PF só conseguiu quebrar integralmente o sigilo do celular de Vorcaro em 9 de fevereiro, mas Malu Gaspar já havia publicado matérias com dados do aparelho em dezembro do ano anterior — dois meses antes. Isso sugere que Nabas, ou alguém com acesso privilegiado, forneceu informações à jornalista antes mesmo da conclusão da perícia oficial.

2. O papel de Malu Gaspar e da Globo nos vazamentos seletivos

Malu Gaspar, colunista do jornal O Globo, tornou-se figura central no escândalo dos vazamentos seletivos. Além de ter publicado o contrato de R$ 130 milhões do escritório de Viviane Barci de Moraes — esposa de Alexandre de Moraes — com o Banco Master, a jornalista protagonizou uma série de reportagens que expuseram supostas relações promíscuas entre ministros do STF e o banqueiro Daniel Vorcaro.

Em fevereiro de 2026, a Polícia Federal deflagrou uma operação para investigar o "possível vazamento indevido de dados sigilosos de Ministros do Supremo Tribunal Federal, do procurador-geral da República e de seus familiares". A operação, determinada por Alexandre de Moraes, mirou servidores da Receita Federal e do Serpro. Segundo a própria coluna de Malu Gaspar, a operação apresentou "estranhezas e pontos obscuros", incluindo o fato de que não se sabia ao certo qual vazamento estava sendo investigado e que Moraes, ao mesmo tempo, era vítima, investigador e juiz do caso.

O jornal O Globo, veículo onde Malu Gaspar atua, foi duramente criticado por sua atuação no caso. A colunista é acusada de integrar um esquema que utilizava dados obtidos ilegalmente para produzir reportagens contra Moraes e Toffoli. Mensagens reveladas mostram que o perito Nabas ofereceu a uma delegada da PF que fosse "fonte da Malu Gaspar há muito tempo", como se fosse um privilégio cometendo crimes sem receber nada em troca. A própria Globo News, emissora do mesmo grupo, foi acusada de "quase se descabelar" quando a PF começou a investigar os vazamentos, numa postura que sugeria que jornalistas teriam "direito de cometer crimes para fazer matérias".

3. O "esporro" de seguranças da Casa Branca a Eduardo e Flávio

Em 26 de maio de 2026, Flávio Bolsonaro, acompanhado do irmão Eduardo e do blogueiro Paulo Figueiredo, reuniu-se com o presidente Donald Trump no Salão Oval da Casa Branca. A viagem foi articulada por Eduardo Bolsonaro junto à ala ideológica do governo Trump. O encontro, cercado de mistério, teve como pauta segurança pública, economia e minerais críticos.

No entanto, o que deveria ser um fato positivo para a campanha de Flávio transformou-se em mais um constrangimento público. Antes do início da audiência, seguranças da Casa Branca teriam dado um "esporro" nos irmãos Bolsonaro e em seus assessores. A advertência foi clara: não seria permitido gravar vídeos nem tirar fotos antes do início da audiência. Os seguranças teriam dito que "aqui não é casa da mãe Joana" e que aquele era um ambiente de "audiência séria", não um palco para "showzinho".

Flávio, mesmo após a bronca, tentou gravar um vídeo no local, o que teria gerado uma segunda advertência dos seguranças. O primeiro post do senador se limitou a divulgação de modelos semelhantes a souvenir da White House Gift Shop, o que teria gerado especulações nas redes sociais sobre se tratar "encontro falso", até a divulgação de uma foto da assessoria de Trump três dias depois na Truth Social comprovando o encontro. O episódio expôs a falta de noção e o despreparo da comitiva bolsonarista em um ambiente diplomático de alto nível, reforçando a imagem de amadorismo que já persegue a família.

4. A mega discussão entre Jair Bolsonaro e Michele

Nos bastidores da crise, Jair Bolsonaro e sua esposa, Michele, protagonizaram uma discussão de grandes proporções. Segundo relatos, o ex-presidente, que cumpre prisão domiciliar, teria ficado furioso com a decisão de Michele de gravar e publicar vídeos acusando Flávio de humilhação. A briga teria sido tão intensa que vizinhos e policiais que fazem a escolta da residência ouviram os gritos.

De acordo com aliados de Michele, no entanto, Bolsonaro "soube com antecedência" que ela gravaria os vídeos e "não se opôs". A versão difundida por seu entorno é a de que o ex-presidente "lavou as mãos" e evitou se meter na disputa entre a mulher e os filhos. A negativa de que tenha havido briga é contestada por fontes ligadas a Flávio, que afirmam o oposto.

O Financial Times, em reportagem, destacou que a briga pública "revela uma longa desarmonia entre Michelle e os quatro filhos do ex-presidente". A agência Bloomberg acrescentou que o episódio tem "potenciais danosos a uma candidatura que precisa consolidar sua presença entre o eleitorado feminino e religioso" — justamente duas fatias em que Michele exerce importante influência.

Em meio à crise, Michele deixou a presidência do PL Mulher, mas sinalizou que pode lançar candidatura ao Senado pelo Distrito Federal. Aliados de Flávio veem esse movimento como um "fator de desagregação ainda maior".

5. O vazamento de vídeos de Flávio com prostitutas

O capítulo mais explosivo da crise familiar envolve a existência de vídeos do senador Flávio Bolsonaro com prostitutas. Segundo fontes ouvidas pela imprensa, Michele teria em seu poder pelo menos um desses vídeos, gravado há cerca de quatro anos, que quase teria acabado com o casamento de Flávio à época.

O próprio Flávio, ao ser questionado sobre o assunto, teria dito que "tem um videozinho que vai aparecer" e que, se isso ocorresse, sua esposa saberia que ele é um "homem transformado" e "muito melhor" do que era antes — uma declaração que, na prática, confirma a existência do material. A revelação causou pânico na campanha de Flávio, que teme que o vídeo seja divulgado a qualquer momento, especialmente por aliados de Michele.

O banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, frequentemente promovia festas em sua mansão em Trancoso, na Bahia, com prostitutas europeias e políticos. Flávio, que esteve várias vezes na Bahia, nunca negou ter participado de tais eventos, limitando-se a dizer que não estava na festa específica das "astronautas" em Nova York. O temor no entorno do senador é de que o vídeo, se divulgado, enterre de vez suas chances na eleição presidencial.

6. O racha no PL e a guerra com Nicolas Ferreira

O deputado Nicolas Ferreira (PL-MG), um dos maiores fenômenos de voto da direita, está no centro de um novo racha. Segundo matéria do Globo, membros da equipe de Nicolas teriam ajudado Michele a produzir seu vídeo contra Flávio — o que Nicolas nega, mas ameaçou renunciar ao mandato se for provado que participou ou coordenou a produção.

Nos bastidores, especula-se que Nicolas planeja deixar o PL após a eleição, na janela partidária de 2027, e levar consigo uma bancada de 10 a 15 deputados para o Partido Novo ou para uma legenda própria. A briga expõe a disputa pelo espólio político de Jair Bolsonaro e a dificuldade do clã em manter a coesão.

O bolsonarismo enfrenta um momento de fragmentação inédito. A combinação de investigações criminais, vazamentos seletivos, brigas familiares e disputas internas no PL coloca em xeque a sobrevivência do movimento como força política unificada. Enquanto Flávio Bolsonaro tenta, nos Estados Unidos, construir uma narrativa de defesa da soberania nacional, seus próprios aliados e familiares trabalham nos bastidores para enterrar sua candidatura. O que resta é uma guerra de versões, onde a verdade parece ser a primeira vítima — e o único consenso é que o clã Bolsonaro, antes visto como monolítico, está em frangalhos.

Com informações de Folha de S.Paulo, G1, BBC News Brasil, Estadão, O Globo, Revista Fórum, Gazeta do Povo, Congresso em Foco, CartaCapital, Intercept Brasil, CNN Brasil, UOL, Metrópoles, Poder360, Valor Econômico, Correio Braziliense, O Imparcial e SBT News ■

Mais Notícias