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O que era para ser apenas mais um lance polêmico de arbitragem na Copa do Mundo de 2026 transformou-se, em poucas horas, em uma das maiores crises institucionais da história do futebol mundial. A Federação Internacional de Futebol (FIFA) anunciou, no último domingo (5), a suspensão da punição automática aplicada ao atacante norte-americano Folarin Balogun, expulso na vitória dos Estados Unidos sobre a Bósnia e Herzegovina por 2 a 0, na última quarta-feira (1). A decisão, que libera o jogador para enfrentar a Bélgica nesta segunda-feira (6), pelas oitavas de final, foi tomada após uma ligação telefônica do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao presidente da FIFA, Gianni Infantino.
O caso expõe, de forma escancarada, a promiscuidade entre o poder político e a entidade máxima do futebol, levantando suspeitas sobre a isenção e a credibilidade do órgão que deveria zelar pela igualdade de condições em campo. A medida, classificada por Trump como a reversão de "uma grande injustiça", foi recebida com indignação pela seleção belga e por federações de todo o mundo, que enxergam na manobra um precedente perigoso para o esporte.
O lance e a expulsão
Folarin Balogun, de 25 anos e artilheiro da seleção americana na competição com três gols, recebeu cartão vermelho direto do árbitro brasileiro Raphael Claus aos 18 minutos do segundo tempo da partida contra a Bósnia, válida pela segunda fase. A expulsão ocorreu após revisão do VAR, que flagrou o atacante cravar as chuteiras no tornozelo do zagueiro bósnio Tarik Muharemovic em uma disputa de bola. Pelo regulamento da FIFA, o cartão vermelho direto acarreta suspensão automática de uma partida, o que tiraria Balogun do confronto eliminatório contra a Bélgica.
O técnico dos Estados Unidos, Mauricio Pochettino, classificou a decisão como "completamente injusta" e afirmou que "99,9% das pessoas concordam que aquele cartão vermelho foi injusto". O governo americano, no entanto, não se limitou a protestar em coletivas.
A ligação de Trump e a mobilização da Casa Branca
Segundo reportagens da Associated Press, do The New York Times e do The Athletic, Donald Trump telefonou pessoalmente para Gianni Infantino no mesmo dia da expulsão, pedindo que a FIFA revisasse a punição. O presidente americano confirmou a ligação nesta segunda-feira (6), afirmando que "não achou que foi uma falta" e que apenas solicitou uma revisão. "Tudo o que eu fiz foi pedir uma revisão, porque não achei que foi uma falta. Eu vi o lance. Aquilo não foi falta. Aquilo nem sequer foi uma infração. Eram dois jogadores correndo em alta velocidade que acabaram se chocando", declarou Trump, que também classificou a arbitragem de Raphael Claus como "horrível".
A atuação da Casa Branca, porém, não se resumiu ao telefonema presidencial. De acordo com investigação do The Athletic, advogados ligados ao governo americano atuaram em conjunto com a Federação de Futebol dos Estados Unidos (US Soccer) para construir uma estratégia jurídica. Entre os envolvidos estavam o secretário de Comércio, Howard Lutnick, o diretor da força-tarefa da Casa Branca para a Copa, Andrew Giuliani, e o investidor Scott Goodwin, um dos doadores da federação. O argumento central era de que o VAR teria sido utilizado de maneira inadequada, com excesso de imagens congeladas e câmera lenta, o que teria influenciado a decisão do árbitro.
A decisão da FIFA e o artigo 27
Diante da pressão, o Comitê Disciplinar da FIFA recorreu ao artigo 27 de seu Código Disciplinar, que permite ao órgão "suspender total ou parcialmente a aplicação de uma medida disciplinar". Na prática, a FIFA manteve o cartão vermelho, mas converteu a suspensão automática de um jogo em um período probatório de um ano. Caso Balogun cometa outra infração de natureza e gravidade semelhantes durante esse período, a punição será reativada.
A decisão, no entanto, é inédita na história moderna da Copa do Mundo. Segundo o The New York Times, é a primeira vez desde 1962 que a FIFA permite que um jogador expulso atue na partida seguinte, para a qual estaria automaticamente suspenso.
Reações: indignação na Bélgica e críticas da Uefa
Enquanto Trump comemorava nas redes sociais — "Obrigado à FIFA por fazer o que era certo e reverter uma grande injustiça!" — a reação do outro lado do campo foi de incredulidade. A Federação Real Belga de Futebol (RBFA) afirmou estar "surpresa" e "atordoada" com a decisão, que classificou como uma "contradição direta" com o regulamento da Copa do Mundo. O técnico da Bélgica, Rudi Garcia, ironizou: "Eu não sabia que, na Copa do Mundo, o dia 5 de julho é agora o 1º de abril. É o Dia da Mentira". A federação belga anunciou que investigará "todas as opções potenciais" para "salvaguardar os direitos legítimos de todas as equipes participantes e proteger os princípios fundamentais do fair play em nosso esporte".
A indignação também veio da Uefa, a entidade que rege o futebol europeu. Em nota, a organização afirmou que a FIFA "cruzou uma linha vermelha" ao permitir que um chefe de Estado interviesse pessoalmente para anular uma punição disciplinar. A crítica expõe o desconforto generalizado com o que muitos analistas já chamam de "sequestro político" da Copa do Mundo.
Relação promíscua entre Trump e Infantino
O episódio não ocorre no vácuo. A relação entre Donald Trump e Gianni Infantino é alvo de suspeitas há meses. A FIFA inaugurou um escritório na Trump Tower, em Nova York, e alterou o planejamento do sorteio da Copa para atender a pedidos do presidente americano. Durante o evento, Infantino entregou a Trump uma réplica do troféu da Copa e um certificado simbólico ligado ao Prêmio Nobel da Paz. O The New York Times relatou que Infantino "passou anos tentando ganhar o favor de Trump".
Essa proximidade torna a decisão da FIFA ainda mais questionável. Não se trata de um recurso jurídico comum, mas de uma intervenção direta de um chefe de Estado em nome de um jogador de seu país, em plena vigência de uma competição que se pretende universal e imparcial.
O que está em jogo
Balogun é a principal referência ofensiva dos Estados Unidos na competição, e sua ausência contra a Bélgica seria um golpe duro para as aspirações do país-sede. Mas o que está em jogo vai muito além de uma vaga nas quartas de final. A decisão da FIFA estabelece um precedente perigoso: a partir de agora, qualquer nação com poder político e econômico suficiente poderá questionar decisões de arbitragem e pressionar a entidade por meio de seus líderes máximos.
O regulamento da FIFA já não prevê recurso para cartões vermelhos. Ao criar uma exceção para os Estados Unidos, a entidade não apenas violou seu próprio código, mas também abriu espaço para que outros países exijam tratamento semelhante. A pergunta que fica é: se a ligação de Trump foi suficiente para reverter uma suspensão, o que impedirá outros chefes de Estado de fazerem o mesmo?
Conclusão
A Copa do Mundo de 2026, que deveria ser um espetáculo de futebol e fair play, transformou-se em um palco de articulações políticas e submissão institucional. A FIFA, sob o comando de Gianni Infantino, demonstrou que sua suposta independência é frágil diante do poder de um presidente americano. A decisão de liberar Balogun pode ter agradado à Casa Branca, mas manchou a credibilidade da entidade e gerou uma crise que ecoará muito além do apito final.
A Bélgica entra em campo nesta segunda-feira não apenas contra os Estados Unidos, mas contra um sistema que, aos olhos do mundo, parece ter vergado às pressões políticas. Resta saber se o futebol, como esporte, conseguirá se recuperar desse golpe em sua própria essência.
Com informações de G1, ge.globo, CNN Brasil, CartaCapital, Agência Brasil, Extra, O Globo, The Athletic, The New York Times, Associated Press, Reuters, Poynter, Straits Times, People's Daily, ABC News, BBC, e Uefa ■