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Galvão Bueno se despede das Copas pela terceira vez
Em 2018, foi "provavelmente" a última. Em 2022, a Globo fez homenagens de "adeus". Em 2026, pelo SBT, Galvão afirma que desta vez é para valer. Será?
Analise
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■   Bernardo Cahue, 07/07/2026

Não, caro leitor, você não está tendo um déjà-vu. A notícia de que Galvão Bueno está se despedindo das transmissões de Copas do Mundo não é reprise — é a terceira edição consecutiva do mesmo roteiro. Em 2018, na Rússia, o narrador já ensaiava o adeus. Em 2022, no Catar, a Globo transformou a final em um grande tributo de despedida. Agora, em 2026, pelo SBT, Galvão anuncia que esta é sua última Copa. A pergunta que fica é: desta vez, o público deve acreditar?

A história recente do principal narrador esportivo do Brasil é marcada por finais que nunca se concretizam. Em 2018, após a final entre França e Croácia, Galvão se emocionou ao lado de Walter Casagrande e Arnaldo Cezar Coelho e disse: "Quero muito continuar. Isso aqui é minha vida. (...) Provavelmente seja, não sei. Mas se tiver sido, foi tão especial como se tivesse sido a primeira". Na ocasião, o tom de despedida já pairou no ar, mas ficou no "provavelmente".

Quatro anos depois, no Catar, a despedida foi mais solene. Galvão deixou a Globo após 41 anos de casa, e a emissora preparou homenagens à altura. O narrador do tetra e do penta se emocionou: "Meu maior agradecimento vai para vocês, brasileiros. Só estou hoje aqui emocionado porque acho que alguma coisa boa eu fiz, senão aqui não estaria". Parecia o ponto final de uma era. Mas não foi.

A oportunidade de voltar ao microfone surgiu com um movimento empresarial: Galvão tornou-se sócio da N Sports, que adquiriu os direitos do torneio em parceria com o SBT. "Na verdade, deveria ter sido em 2022. Foi um momento muito bacana de encerramento. (...) Aí surgiu essa possibilidade de comprar os direitos da Copa do Mundo através da N Sports, da qual entrei como sócio, em parceria com o SBT. Não poderia ser melhor", justificou. O adeus à Globo, afinal, não significava o adeus às Copas.

Agora, em 2026, a história se repete pela terceira vez. Após a eliminação do Brasil para a Noruega nas oitavas de final, Galvão encerrou a transmissão do SBT em tom de despedida definitiva. Aos 76 anos (completa a idade ainda em julho), ele afirma que não se vê narrando a Copa de 2030, quando terá 80. "Não é para se pensar em narrar outra Copa do Mundo com 80 anos de idade. Não sei se estarei aqui, se estarei bem", declarou. Em outras entrevistas, foi mais enfático: "Na próxima, a idade já não vai permitir. Não vai dar, né? Eu vou assistir à Copa do Mundo. Se eu trabalhar vai ser apresentando um programa, gravando um comentário diário, alguma coisa assim".

A narrativa do "adeus" ganhou ainda mais dramaticidade com a eliminação precoce da Seleção. "Nesse momento, para mim, é uma dor muito grande. Eu já disse que essa seria a última Copa do Mundo que eu iria narrar", disse Galvão, visivelmente emocionado. "Obrigado a todos, o coração está sofrido, doído, as lágrimas nos olhos são quase inevitáveis".

Do ponto de vista contratual, porém, o futuro ainda é incerto. Galvão tem contrato com o SBT até dezembro de 2026, e deve conversar com a emissora para definir os próximos passos. Enquanto isso, após a eliminação do Brasil, a tendência é que ele narre apenas a grande final da Copa, no dia 19 de julho — deixando as partidas de quartas e semifinal para Tiago Leifert.

A trajetória de Galvão Bueno em Copas é, sem dúvida, impressionante. Ele narrou todas as edições desde 1978, acumulando 14 Mundiais e mais de 150 jogos transmitidos — número que lhe rendeu um lugar no Guinness World Records. "Eu realmente não sabia do número. Fiquei impressionado porque já fiz 57 jogos da seleção em Copas. Para chegar em 148 é muita coisa. Mas foi emocionante. Afinal de contas, agora eu estou no Guinness!", comemorou.

Contudo, a sucessão de "despedidas" em 2018, 2022 e agora 2026 levanta uma questão incômoda: o público pode confiar que esta é realmente a última? O episódio revela um traço curioso da indústria do entretenimento esportivo brasileiro, onde a figura do narrador se torna tão central que a própria aposentadoria vira um evento recorrente, um capítulo que se reescreve a cada quatro anos.

Há também um aspecto crítico a ser considerado: a migração de Galvão da Globo para o SBT, motivada por interesses comerciais e pela parceria com a N Sports, escancarou que a "despedida" de 2022 era, na verdade, uma despedida de uma emissora, não da função. O narrador trocou de casa, mas levou consigo o mesmo estilo, as mesmas bordões e, agora, o mesmo discurso de encerramento de ciclo. O espetáculo do adeus, ironicamente, se tornou um dos bordões mais duradouros de sua carreira.

Para além do mérito esportivo e da inegável contribuição de Galvão à narrativa do futebol brasileiro, o que se vê é um exercício de gestão de imagem e de expectativa do público. A cada quatro anos, o país é convidado a se despedir de seu narrador mais famoso — e, a cada quatro anos, ele volta. A pergunta que fica é se, em 2030, estaremos novamente diante do mesmo anúncio, talvez com um novo capítulo empresarial ou uma nova emissora.

O que se pode afirmar, com certeza, é que Galvão Bueno construiu uma carreira única. Mas também construiu, sem querer, uma novela em capítulos que se repetem. A despedida de 2026 pode ser a definitiva — ou pode ser apenas mais um intervalo entre um Mundial e outro. O tempo, como sempre, dirá.

O que se sabe até agora:

  • 2018 (Rússia): Galvão se emociona na final e diz que "provavelmente" foi sua última Copa.
  • 2022 (Catar): Despedida oficial da Globo após 41 anos, com homenagens e lágrimas.
  • 2026 (EUA/Canadá/México): Pelo SBT, Galvão afirma que esta é sua última Copa; eliminação do Brasil nas oitavas antecipa o tom de adeus.
  • Aos 76 anos, diz não se ver narrando aos 80.
  • Detém o recorde de mais jogos narrados em Copas (Guinness).
  • Contrato com o SBT vai até dezembro de 2026.

Com informações de F5/Folha de S.Paulo, UOL Esporte, CNN Brasil, ge/Globo, Gazeta do Povo, O TEMPO, Extra/Globo ■

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