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Europeus mantêm boicote à Fifa e discutem ausência no Mundial de Clubes de 2029
Crise política entre Uefa e Fifa se aprofunda após recuo de Infantino em projeto de venda de ativos; reunião em Salzburgo pode definir futuro da competição
Europa
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■   Bernardo Cahue, 11/08/2026

A relação entre a Uefa e a Fifa atravessa um de seus momentos mais tensos da história recente. O que começou como uma reação ao plano da entidade máxima do futebol de vender parte de seus ativos comerciais a investidores privados evoluiu para uma crise institucional que agora ameaça diretamente a realização do Mundial de Clubes de 2029. Os europeus mantêm o boicote às competições da Fifa e discutem a possibilidade de os clubes do continente simplesmente não comparecerem à próxima edição do torneio.

O estopim da crise foi o projeto Fifa Forward Enterprise (FFE), anunciado oficialmente em 28 de julho de 2026. A proposta previa a criação de uma subsidiária avaliada em 20 bilhões de dólares (cerca de R$ 102,3 bilhões) para administrar as operações comerciais das principais competições da Fifa, com a venda de até 20% de suas ações a investidores privados — entre eles a Thrive Capital, comandada por Josh Kushner, irmão de Jared Kushner, genro do presidente dos Estados Unidos. A medida gerou reação imediata e generalizada entre federações e confederações de todo o mundo, que acusaram a Fifa de tentar transformar a Copa do Mundo e outros torneios em produtos controlados parcialmente por investidores.

Em 30 de julho, as 55 federações filiadas à Uefa aprovaram por unanimidade o boicote a todas as competições organizadas pela Fifa enquanto a proposta de venda dos ativos comerciais permanecesse em vigor. No comunicado oficial, a entidade europeia afirmou que a Copa do Mundo "não pode ser tratada como um produto de investimento" e que "nenhuma parte dela jamais deveria ser entregue a investidores privados". A declaração foi contundente: "A Copa do Mundo da Fifa pertence ao futebol. Sempre pertencerá. E, enquanto a Europa tiver voz, ela jamais estará à venda".

Diante da pressão, Gianni Infantino recuou no dia seguinte, 31 de julho, e anunciou oficialmente a desistência do projeto. A Fifa, em nota, negou estar "vendendo futebol" e atribuiu parte da reação a "reportagens incorretas da mídia". No entanto, a confederação europeia deixou claro que o recuo não foi suficiente para restaurar a confiança na administração de Infantino.

A Uefa, então, elevou o tom da pressão. O presidente da entidade, Aleksander Ceferin, passou a articular um novo movimento: um boicote específico ao Mundial de Clubes de 2029, com o objetivo de forçar a saída de Infantino da presidência da Fifa. A eleição da Fifa está marcada para 18 de março de 2027, com prazo de inscrição de candidaturas até 18 de novembro de 2026. Infantino busca o quarto mandato, mas já vê ruir um apoio que antes parecia garantido.

O próximo capítulo dessa novela será escrito em Salzburgo, na Áustria, no dia 12 de agosto. Ceferin deve viajar para acompanhar a partida da Supercopa da Uefa entre PSG e Aston Villa e aproveitará a agenda para se reunir com Nasser Al-Khelaifi, presidente do clube francês e também presidente da Associação de Clubes Europeus (ECA). O encontro, segundo informações da rádio britânica talkSPORT, pode tratar de um boicote ao torneio de 2029 caso Infantino siga no cargo.

Para que o boicote avance, Ceferin precisará convencer a ECA — que reúne mais de 850 clubes europeus — a aderir ao movimento. Não é uma tarefa simples. Conforme destacou o jornal espanhol AS, ainda não existe qualquer acordo firmado entre a Fifa e a Associação Europeia de Clubes para a realização do Mundial de Clubes de 2029. Por essa razão, alguns veículos ponderam que, tecnicamente, nem se pode falar em boicote a um torneio que sequer tem contrato assinado.

As dificuldades logísticas e financeiras também são significativas. O Mundial de Clubes de 2029 ainda não tem sede definida, data confirmada, patrocinadores ou modelo financeiro estabelecido. Infantino já admitiu publicamente o desejo de ampliar o torneio de 32 para 48 equipes e também lançar uma edição feminina. Paralelamente, clubes europeus que participaram da edição de 2025 reclamam que ainda não receberam os pagamentos de solidariedade prometidos pela Fifa, o que aumenta a insatisfação e fortalece o discurso de boicote.

O cenário político também se complica para Infantino. Pelo menos cinco federações nacionais filiadas à Uefa — País de Gales, Escócia, Finlândia, Suíça e Sérvia — já retiraram oficialmente o apoio à sua reeleição. A Federação Inglesa, segundo a imprensa britânica, deve seguir o mesmo caminho. A Fifa, por sua vez, reagiu às críticas em nota, afirmando que há um "esforço coordenado e contínuo de alguns setores para enfraquecer a Fifa e seu presidente".

Mesmo com o recuo de Infantino no projeto Fifa Forward Enterprise, a crise não se encerrou. A Uefa mantém a posição de boicote às competições da Fifa e avalia até mesmo a possibilidade de processar a entidade pelo plano fracassado. A Confederação Africana de Futebol, por outro lado, declarou apoio a Infantino, enquanto as federações da Ásia e da América do Norte também rejeitaram a proposta original de venda de ativos.

Os valores envolvidos na primeira edição do novo formato do Mundial de Clubes, em 2025, foram expressivos. Os clubes europeus receberam entre US$ 12,8 milhões e US$ 38,1 milhões apenas pela participação, enquanto os sul-americanos ficaram com US$ 15,2 milhões. O Chelsea, campeão do torneio, embolsou US$ 125 milhões em premiação total. Apesar disso, a resistência europeia cresceu, alimentada pela percepção de que a Fifa trata as competições como produtos financeiros e não como patrimônio esportivo.

Os principais pontos do impasse entre Uefa e Fifa podem ser resumidos da seguinte forma:

  • Projeto Fifa Forward Enterprise: plano de vender até 20% das ações de uma subsidiária da Fifa a investidores privados, avaliada em US$ 20 bilhões;
  • Boicote da Uefa: aprovado por unanimidade pelas 55 federações europeias em 30 de julho de 2026;
  • Recuo de Infantino: anunciado em 31 de julho, mas sem efeito sobre a crise institucional;
  • Reunião em Salzburgo: Ceferin e Al-Khelaifi se encontram em 12 de agosto para discutir boicote ao Mundial de Clubes de 2029;
  • Mundial de Clubes de 2029: sem sede, data, patrocinadores ou acordo com a ECA;
  • Apoio a Infantino: pelo menos cinco federações europeias já retiraram o apoio à reeleição.

O que está em jogo vai além de um torneio. A disputa entre Uefa e Fifa revela um embate mais profundo sobre o modelo de governança do futebol mundial. De um lado, a Fifa, sob a liderança de Infantino, busca alternativas para aumentar suas receitas e modernizar a gestão de suas competições. De outro, a Uefa e os clubes europeus resistem ao que consideram uma tentativa de privatização do patrimônio esportivo mais valioso do planeta.

O desfecho dessa crise terá impacto direto não apenas no Mundial de Clubes de 2029, mas também na Copa do Mundo de 2030 — que, segundo a Uefa, pode acontecer sem potências como Inglaterra, França, Espanha e Alemanha. Por enquanto, a palavra de ordem na Europa é pressão. E a reunião de Salzburgo promete ser o próximo capítulo decisivo dessa guerra de narrativas e interesses.

Com informações de Diário do Centro do Mundo, OLE, 365Scores, Bahia Notícias, UOL Esporte, CBN Esportes, Globo Esporte, Nogomania ■

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