Siga nossas redes sociais | ![]() | Siga nossos canais |
AVISO: este artigo não é relativo à afrodescendência de GH Rell, mas à relação de poderes envolvendo o Estado e, principalmente, a imprensa, contra um jovem de periferia.
Em 1830, o Império do Brasil promulgou seu Código Criminal. O artigo 179 da Constituição de 1824, em tese, garantia a extinção das punições físicas. Mas o Código de 1835 tratou de corrigir o "deslize" liberal: determinou "as penas com que devem ser punidos os escravos, que matarem, ferirem ou commetterem outra qualquer offensa physica contra seus senhores" – e a pena de açoites permaneceu vigente por décadas. Na prática, o direito penal brasileiro se manteve "assentado na escravidão", e a Justiça imperial, longe de ser um espaço neutro, serviu para "favorecer o direito à propriedade dos senhores de escravos".
Quase duzentos anos depois, o mecanismo permanece o mesmo. Apenas mudaram os personagens e os instrumentos de punição: o açoite virou banimento, a senzala virou plataforma digital, o senhor de engenho virou ator da Globo – e o escravo virou streamer de periferia. O caso de GH Rell RJ, o jovem negro de 19 anos, morador de Duque de Caxias, que ridicularizou a calça vermelha do ator João Victor Gonçalves na entrada do Rock in Rio, é a prova viva de que a assimetria de tratamento entre "senhores" e "escravos" – ou, na linguagem contemporânea, entre quem tem voz midiática e quem não tem – continua sendo a regra não escrita da justiça brasileira.
O erro de GH: o que as imagens realmente mostram
Na noite de sexta-feira (4), GH Rell RJ transmitia ao vivo pela plataforma Kick quando abordou João Victor Gonçalves, ator da novela "Quem Ama Cuida" da TV Globo. O grupo riu, fez comentários depreciativos sobre a roupa do ator – "Cara horroroso, meteu um tomate", disse um deles, em referência à calça vermelha – e um dos amigos ergueu um saco preto que quase atingiu a cabeça do artista. João Victor não reagiu e acelerou o passo.
Horas depois, o ator publicou um vídeo emocionado nas redes sociais, classificou o ocorrido como homofobia e afirmou que, no momento, seu medo maior era ser roubado. "Homofobia não é entretenimento", declarou. A frase viralizou. O que as imagens mostram, porém, é um constrangimento ilegal motivado por estranhamento estético – não há xingamento homofóbico direto, não há ameaça de roubo verbalizada. Há, sim, um ato de ridicularização pública que, por mais infeliz que seja, não se confunde com o crime de homofobia tipificado pela legislação brasileira.
A reação do poder: polícia, Ministério Público, banimento e ameaças reais
A resposta ao erro de GH foi imediata e devastadora. A Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) abriu investigação. A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) acionou o Ministério Público contra o streamer e contra a própria plataforma Kick. O perfil de GH na Kick foi banido. Ele e sua família passaram a receber ataques racistas e ameaças reais nas redes sociais.
O streamer, identificado como Jean Almeida Hilário, pediu desculpas publicamente, chorou em vídeo, mas negou homofobia e, em contrapartida, acusou João Victor de racismo – questionando por que o ator disse ter medo de ser roubado: "Por causa da minha cor? É porque eu sou preto?" A defesa de João Victor rebateu a acusação, afirmando que não há relação entre o medo de roubo e a cor de GH. A Polícia Civil informou que analisará as manifestações de ambos separadamente.
Enquanto isso, João Victor retornou ao Rock in Rio no domingo (6) e foi recebido com abraços e apoio. Sua fala virou bordão nacional. GH, por sua vez, perdeu sua conta na Kick – onde acumulava mais de 100 mil seguidores e dependia da plataforma para sobreviver –, foi intimado pela polícia, e viu sua família exposta a ataques racistas.
A assimetria em números: o peso do poder midiático
Para entender a desproporção, basta olhar os números. De um lado, João Victor Gonçalves: ator da novela das nove da TV Globo – a emissora de maior audiência do país –, com o apoio de toda a estrutura da emissora, de colegas de elenco, do autor Walcyr Carrasco e de milhões de fãs. Do outro, GH Rell RJ: um streamer de 19 anos, morador de Duque de Caxias, que construiu uma audiência de 100 mil seguidores na Kick e dependia da plataforma para sua renda – que, segundo o UOL, tinha 20 mil seguidores no TikTok e vivia de transmissões ao vivo pelas ruas do Rio.
A plataforma Kick baniu o perfil de GH sem divulgar publicamente os critérios adotados. A perda da conta representa, para um jovem da periferia, um prejuízo financeiro imediato e concreto. O que para um ator da Globo seria um episódio de constrangimento superado em um fim de semana, para GH tornou-se a destruição de sua fonte de renda e a exposição de sua família a ameaças reais.
A senzala digital: quando o "senhor" dita as regras da justiça
No Brasil Império, o direito penal era "assentado na escravidão" e a Justiça servia para "favorecer o direito à propriedade dos senhores de escravos". O Estado protegia "a propriedade privada dos senhores e a coisificação dos escravos". Quando um senhor castigava seu escravo, a Justiça raramente intervinha – e, quando intervinha, era para legitimar o poder senhorial. Quando um escravo ousava reagir, o Código de 1835 determinava as penas com que deveria ser punido.
Substitua "senhor" por "ator da Globo" e "escravo" por "streamer de periferia", e o retrato é o mesmo. O erro do ator – se é que houve erro – é tratado como suspeita a ser investigada, com direito a defesa e à presunção de inocência. O erro do streamer – que é incontestável – é tratado como crime consumado, com investigação policial, acionamento do Ministério Público, banimento sumário da plataforma e exposição pública de sua família a ataques racistas. A assimetria não é apenas de poder – é de tratamento jurídico e midiático.
O historiador Luiz Felipe de Alencastro chamou a conivência do Estado brasileiro com a ilegalidade do tráfico de escravos no século XIX de "pecado original da sociedade e da ordem jurídica brasileira". O caso GH Rell revela que esse pecado original não foi expiado – ele apenas se reconfigurou. A ordem jurídica e midiática brasileira continua operando com dois pesos e duas medidas: um para quem tem voz, contrato com a Globo e capital político; outro para quem é jovem, negro, periférico e depende de uma plataforma digital para sobreviver.
A fritura midiática: do delegado Edélcio Lemos à deputada Erika Hilton
O caso GH Rell também repete, em escala reduzida, a lógica da "fritura" midiática que já vitimou a família Shimada no caso da Escola Base, em 1994. Naquela ocasião, o delegado Edélcio Lemos convocou a imprensa e condenou publicamente os acusados de abuso sexual – que foram inocentados anos depois. O "fascínio midiático" e o "ego extremo" do delegado destruíram vidas inocentes em nome da audiência.
No caso GH Rell, o papel de "delegado" é desempenhado por múltiplos atores: a deputada Erika Hilton, que acionou o Ministério Público antes mesmo da conclusão das investigações; a plataforma Kick, que baniu o perfil do streamer sem transparência; e a própria máquina midiática da Globo, que amplificou o discurso de seu ator. Todos agiram com a melhor das intenções – combater a homofobia é justo e necessário. Mas a pressa em julgar e punir publicamente, sem distinguir entre o crime e o constrangimento, entre a violência estrutural e a piada infeliz, produz o mesmo efeito da "fritura" da Escola Base: a destruição de uma vida antes que os fatos sejam devidamente apurados.
O que o caso GH Rell revela sobre o Brasil de 2026
O episódio envolvendo GH Rell RJ e João Victor Gonçalves não é um caso isolado de linchamento digital. É um espelho da sociedade brasileira, que ainda carrega as marcas de três séculos de escravidão e de um Estado que sempre tratou de forma desigual os corpos negros e periféricos. A assimetria entre o tratamento dado ao ator da Globo e ao streamer de Duque de Caxias é a mesma assimetria que, no século XIX, protegia o senhor e punia o escravo.
GH errou ao ridicularizar João Victor. Isso é incontestável. Mas o preço que ele está pagando – a perda de sua fonte de renda, a exposição de sua família a ataques racistas, a investigação criminal – é proporcional ao erro cometido? Para quem observa com isenção, a resposta é não. E essa desproporção não é acidental – ela é estrutural, histórica e profundamente enraizada na forma como o Brasil sempre tratou seus "escravos" e seus "senhores".
Paralelos históricos e contemporâneos:
O que fica:
Com informações de G1, UOL, CNN Brasil, Revista Fórum, Band, Metrópoles, Jornal de Brasília, Diário do Centro do Mundo, O Tempo, Extra, Veja, Capricho, CARAS Brasil, Portal Bandeirantes, Diário do Pará, CBN, O Dia, Terra, Revista Quem, Midiamax, Nsctotal, Dust2 e Brasil 247 ■