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O chicote e o banimento – da senzala ao cancelamento de GH Rell
A destruição midiática do streamer GH Rell, jovem negro e periférico de 19 anos, repete a lógica da sociedade escravista dos séculos 18 e 19: o erro do poderoso é tratado com leniência; o erro do pobre, com o peso integral do Estado e da opinião pública
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■   Bernardo Cahue, 07/09/2026

AVISO: este artigo não é relativo à afrodescendência de GH Rell, mas à relação de poderes envolvendo o Estado e, principalmente, a imprensa, contra um jovem de periferia.

Em 1830, o Império do Brasil promulgou seu Código Criminal. O artigo 179 da Constituição de 1824, em tese, garantia a extinção das punições físicas. Mas o Código de 1835 tratou de corrigir o "deslize" liberal: determinou "as penas com que devem ser punidos os escravos, que matarem, ferirem ou commetterem outra qualquer offensa physica contra seus senhores" – e a pena de açoites permaneceu vigente por décadas. Na prática, o direito penal brasileiro se manteve "assentado na escravidão", e a Justiça imperial, longe de ser um espaço neutro, serviu para "favorecer o direito à propriedade dos senhores de escravos".

Quase duzentos anos depois, o mecanismo permanece o mesmo. Apenas mudaram os personagens e os instrumentos de punição: o açoite virou banimento, a senzala virou plataforma digital, o senhor de engenho virou ator da Globo – e o escravo virou streamer de periferia. O caso de GH Rell RJ, o jovem negro de 19 anos, morador de Duque de Caxias, que ridicularizou a calça vermelha do ator João Victor Gonçalves na entrada do Rock in Rio, é a prova viva de que a assimetria de tratamento entre "senhores" e "escravos" – ou, na linguagem contemporânea, entre quem tem voz midiática e quem não tem – continua sendo a regra não escrita da justiça brasileira.

O erro de GH: o que as imagens realmente mostram

Na noite de sexta-feira (4), GH Rell RJ transmitia ao vivo pela plataforma Kick quando abordou João Victor Gonçalves, ator da novela "Quem Ama Cuida" da TV Globo. O grupo riu, fez comentários depreciativos sobre a roupa do ator – "Cara horroroso, meteu um tomate", disse um deles, em referência à calça vermelha – e um dos amigos ergueu um saco preto que quase atingiu a cabeça do artista. João Victor não reagiu e acelerou o passo.

Horas depois, o ator publicou um vídeo emocionado nas redes sociais, classificou o ocorrido como homofobia e afirmou que, no momento, seu medo maior era ser roubado. "Homofobia não é entretenimento", declarou. A frase viralizou. O que as imagens mostram, porém, é um constrangimento ilegal motivado por estranhamento estético – não há xingamento homofóbico direto, não há ameaça de roubo verbalizada. Há, sim, um ato de ridicularização pública que, por mais infeliz que seja, não se confunde com o crime de homofobia tipificado pela legislação brasileira.

A reação do poder: polícia, Ministério Público, banimento e ameaças reais

A resposta ao erro de GH foi imediata e devastadora. A Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) abriu investigação. A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) acionou o Ministério Público contra o streamer e contra a própria plataforma Kick. O perfil de GH na Kick foi banido. Ele e sua família passaram a receber ataques racistas e ameaças reais nas redes sociais.

O streamer, identificado como Jean Almeida Hilário, pediu desculpas publicamente, chorou em vídeo, mas negou homofobia e, em contrapartida, acusou João Victor de racismo – questionando por que o ator disse ter medo de ser roubado: "Por causa da minha cor? É porque eu sou preto?" A defesa de João Victor rebateu a acusação, afirmando que não há relação entre o medo de roubo e a cor de GH. A Polícia Civil informou que analisará as manifestações de ambos separadamente.

Enquanto isso, João Victor retornou ao Rock in Rio no domingo (6) e foi recebido com abraços e apoio. Sua fala virou bordão nacional. GH, por sua vez, perdeu sua conta na Kick – onde acumulava mais de 100 mil seguidores e dependia da plataforma para sobreviver –, foi intimado pela polícia, e viu sua família exposta a ataques racistas.

A assimetria em números: o peso do poder midiático

Para entender a desproporção, basta olhar os números. De um lado, João Victor Gonçalves: ator da novela das nove da TV Globo – a emissora de maior audiência do país –, com o apoio de toda a estrutura da emissora, de colegas de elenco, do autor Walcyr Carrasco e de milhões de fãs. Do outro, GH Rell RJ: um streamer de 19 anos, morador de Duque de Caxias, que construiu uma audiência de 100 mil seguidores na Kick e dependia da plataforma para sua renda – que, segundo o UOL, tinha 20 mil seguidores no TikTok e vivia de transmissões ao vivo pelas ruas do Rio.

A plataforma Kick baniu o perfil de GH sem divulgar publicamente os critérios adotados. A perda da conta representa, para um jovem da periferia, um prejuízo financeiro imediato e concreto. O que para um ator da Globo seria um episódio de constrangimento superado em um fim de semana, para GH tornou-se a destruição de sua fonte de renda e a exposição de sua família a ameaças reais.

A senzala digital: quando o "senhor" dita as regras da justiça

No Brasil Império, o direito penal era "assentado na escravidão" e a Justiça servia para "favorecer o direito à propriedade dos senhores de escravos". O Estado protegia "a propriedade privada dos senhores e a coisificação dos escravos". Quando um senhor castigava seu escravo, a Justiça raramente intervinha – e, quando intervinha, era para legitimar o poder senhorial. Quando um escravo ousava reagir, o Código de 1835 determinava as penas com que deveria ser punido.

Substitua "senhor" por "ator da Globo" e "escravo" por "streamer de periferia", e o retrato é o mesmo. O erro do ator – se é que houve erro – é tratado como suspeita a ser investigada, com direito a defesa e à presunção de inocência. O erro do streamer – que é incontestável – é tratado como crime consumado, com investigação policial, acionamento do Ministério Público, banimento sumário da plataforma e exposição pública de sua família a ataques racistas. A assimetria não é apenas de poder – é de tratamento jurídico e midiático.

O historiador Luiz Felipe de Alencastro chamou a conivência do Estado brasileiro com a ilegalidade do tráfico de escravos no século XIX de "pecado original da sociedade e da ordem jurídica brasileira". O caso GH Rell revela que esse pecado original não foi expiado – ele apenas se reconfigurou. A ordem jurídica e midiática brasileira continua operando com dois pesos e duas medidas: um para quem tem voz, contrato com a Globo e capital político; outro para quem é jovem, negro, periférico e depende de uma plataforma digital para sobreviver.

A fritura midiática: do delegado Edélcio Lemos à deputada Erika Hilton

O caso GH Rell também repete, em escala reduzida, a lógica da "fritura" midiática que já vitimou a família Shimada no caso da Escola Base, em 1994. Naquela ocasião, o delegado Edélcio Lemos convocou a imprensa e condenou publicamente os acusados de abuso sexual – que foram inocentados anos depois. O "fascínio midiático" e o "ego extremo" do delegado destruíram vidas inocentes em nome da audiência.

No caso GH Rell, o papel de "delegado" é desempenhado por múltiplos atores: a deputada Erika Hilton, que acionou o Ministério Público antes mesmo da conclusão das investigações; a plataforma Kick, que baniu o perfil do streamer sem transparência; e a própria máquina midiática da Globo, que amplificou o discurso de seu ator. Todos agiram com a melhor das intenções – combater a homofobia é justo e necessário. Mas a pressa em julgar e punir publicamente, sem distinguir entre o crime e o constrangimento, entre a violência estrutural e a piada infeliz, produz o mesmo efeito da "fritura" da Escola Base: a destruição de uma vida antes que os fatos sejam devidamente apurados.

O que o caso GH Rell revela sobre o Brasil de 2026

O episódio envolvendo GH Rell RJ e João Victor Gonçalves não é um caso isolado de linchamento digital. É um espelho da sociedade brasileira, que ainda carrega as marcas de três séculos de escravidão e de um Estado que sempre tratou de forma desigual os corpos negros e periféricos. A assimetria entre o tratamento dado ao ator da Globo e ao streamer de Duque de Caxias é a mesma assimetria que, no século XIX, protegia o senhor e punia o escravo.

GH errou ao ridicularizar João Victor. Isso é incontestável. Mas o preço que ele está pagando – a perda de sua fonte de renda, a exposição de sua família a ataques racistas, a investigação criminal – é proporcional ao erro cometido? Para quem observa com isenção, a resposta é não. E essa desproporção não é acidental – ela é estrutural, histórica e profundamente enraizada na forma como o Brasil sempre tratou seus "escravos" e seus "senhores".

Paralelos históricos e contemporâneos:

  • Sociedade escravista (séculos XVIII-XIX) x caso GH Rell (2026): No Brasil Império, a Justiça protegia a propriedade dos senhores e coisificava os escravos. O direito penal se mantinha "assentado na escravidão" e as punições eram desproporcionais – açoites para escravos que ousassem reagir, leniência para senhores que castigassem seus cativos. No caso GH Rell, o ator da Globo – o "senhor" moderno – teve seu discurso amplificado pela maior emissora do país; o streamer periférico – o "escravo" digital – foi banido, intimado e exposto a ameaças reais.
  • Escola Base (1994) x GH Rell (2026): Em ambos, uma acusação – falsa no primeiro caso, desproporcional no segundo – foi amplificada pela mídia e pela opinião pública, destruindo vidas antes de qualquer julgamento. O "fascínio midiático" do delegado Edélcio Lemos se repete no "fascínio da audiência" que move streamers, atores e deputados.
  • Wilson Simonal (1971) x GH Rell (2026): Dois artistas negros – um no auge, outro em ascensão – foram destruídos por acusações públicas que, mesmo sem confirmação judicial, bastaram para apagar suas carreiras. Simonal foi vetado pela Globo e ostracizado; GH foi banido da Kick e transformado em alvo de ataques racistas.
  • Cancelamentos de celebridades (Karol Conká, Cássia Kis, Gabriela Pugliesi, MC Gui, Jojo Todynho) x GH Rell: Todos foram cancelados, mas GH é o único que não tinha estrutura financeira, assessoria ou contratos para se sustentar durante e depois da tormenta. O que para uns foi um revés temporário, para ele pode ser um colapso definitivo.

O que fica:

  1. A assimetria de poder entre a grande mídia (Globo) e os criadores de conteúdo periféricos transforma qualquer erro destes em destruição em massa – assim como a Justiça imperial protegia os senhores e punia os escravos.
  2. O discurso contra a homofobia, justo e necessário, pode ser capturado por dinâmicas de cancelamento que atingem desproporcionalmente os mais vulneráveis – repetindo a lógica colonial de que o castigo é para quem está embaixo.
  3. O engajamento político em período eleitoral se alimenta de casos como este, transformando uma briga de rua em palanque midiático – assim como a política imperial se alimentava da manutenção da escravidão.
  4. As plataformas digitais, como a Kick, aplicam banimentos sem transparência, critério ou direito de defesa – um poder privado que rivaliza com o do Estado e que, como o Estado imperial, opera com dois pesos e duas medidas.
  5. O cancelamento, antes uma ferramenta de justiça social, tornou-se um esporte nacional que não distingue entre o erro grave e a conduta infeliz, entre o crime e o pecado – e que, como o açoite do século XIX, atinge com muito mais força quem já tem menos a perder.

Com informações de G1, UOL, CNN Brasil, Revista Fórum, Band, Metrópoles, Jornal de Brasília, Diário do Centro do Mundo, O Tempo, Extra, Veja, Capricho, CARAS Brasil, Portal Bandeirantes, Diário do Pará, CBN, O Dia, Terra, Revista Quem, Midiamax, Nsctotal, Dust2 e Brasil 247 ■

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