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Negócios de Willer Tomaz passam pelo projeto do amigo Flávio Bolsonaro
Enquanto a PF investiga o advogado como "hub financeiro" de esquema bilionário contra aposentados, o candidato do PL defende a aceleração de licenças ambientais exatamente na região onde seu amigo possui três propriedades e já planeja explorar o turismo
Analise
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■   Bernardo Cahue, 08/09/2026

O entrelaçamento entre política, negócios imobiliários e investigações criminais ganhou um novo capítulo com a revelação de que o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) defende, em sua plataforma de campanha, a facilitação de licenças ambientais para resorts e grandes empreendimentos turísticos em Angra dos Reis (RJ) — exatamente a região onde seu amigo pessoal, o advogado Willer Tomaz, é dono de três propriedades.

Tomaz, preso preventivamente em agosto de 2026 por decisão do ministro André Mendonça, do STF, é apontado pela Polícia Federal como uma peça central no esquema de fraudes bilionárias contra aposentados e pensionistas do INSS. Descrito pela corporação como um "hub financeiro, patrimonial e logístico", ele teria colocado à disposição do senador Weverton Rocha (PDT-MA) uma intrincada rede de empresas, imóveis, aeronaves, pilotos, funcionários e operadores financeiros. As investigações apontam que a esposa de Rocha, Samya, recebeu mais de R$ 11 milhões de empresas ligadas a Tomaz, e que o advogado comprou uma mansão de R$ 6 milhões no Lago Sul, em Brasília, onde o senador reside.

O que torna a sobreposição de interesses ainda mais flagrante é a localização geográfica dos ativos de Tomaz e da proposta legislativa de Flávio. Segundo a coluna da jornalista Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo, as três propriedades do advogado em Angra dos Reis estão registradas em nome de duas de suas empresas: a Friponor e a WT Administração de Imóveis. Duas ficam na Ilha Comprida e uma terceira na Ilha do José André.

Em 2025, Tomaz procurou o Instituto Estadual do Ambiente (Inea) para consultar qual percentual de um dos terrenos poderia ser utilizado em uma operação turística. Imagens obtidas pela reportagem mostram que uma das casas — a mesma que foi centro de uma disputa judicial com o jogador Richarlison — está em obras, com a construção de um segundo andar e quartos separados da edificação principal, características típicas de empreendimentos turísticos.

Em ato de campanha realizado em Angra dos Reis em 29 de agosto, Flávio Bolsonaro defendeu a revisão dos planos diretores municipais em conjunto com as prefeituras para permitir que obras de "condomínios, grandes empreendimentos e resorts" avancem "de maneira rápida". O candidato afirmou que questões ambientais estariam "impedindo o desenvolvimento da região" e comparou seu potencial turístico a destinos como Cancún e Indonésia.

O entrelaçamento entre os dois — político e empresário — não é novo. A relação de Tomaz com Flávio é antiga e pública. Em maio de 2025, o senador e sua família viajaram à Flórida, nos Estados Unidos, acompanhados do advogado e da mulher dele. Em 2021, durante a CPI da Covid, Flávio referiu-se a Tomaz publicamente como "meu amigo". O antigo proprietário da mansão que hoje é disputada com Richarlison afirmou à Folha que Flávio e Tomaz se trataram como sócios durante uma visita à propriedade.

A assessoria do candidato nega que tenha existido sociedade, participação empresarial ou qualquer negócio comum entre eles. Tomaz, por sua vez, rejeita de forma "categórica e inequívoca" qualquer associação entre a proposta de Flávio e seus projetos empresariais.

Mas os fatos são mais eloquentes do que as negativas. A soma das evidências desenha um quadro no mínimo preocupante:

  • Flávio Bolsonaro propõe flexibilizar licenças ambientais para resorts em Angra dos Reis.
  • Willer Tomaz, seu amigo pessoal e investigado pela PF, é dono de três propriedades na mesma região.
  • Tomaz já consultou o órgão ambiental sobre a viabilidade turística de um de seus terrenos.
  • Uma de suas casas está em obras com características de empreendimento turístico.
  • O antigo proprietário de uma das propriedades afirma que Flávio e Tomaz se portavam como sócios.
  • Tomaz é apontado pela PF como operador de um esquema que desviou até R$ 6,3 bilhões de aposentados.

Além das propriedades em Angra, Tomaz mantém em Planaltina (DF), a cerca de 80 quilômetros de Brasília, o Rancho Tomaz, uma propriedade de luxo com piscina aquecida, academia, quadras de tênis, minigolfe e píer com acesso à Lagoa Formosa. O local foi palco de encontros políticos que incluíram figuras como o ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP), o deputado Alexandre Ramagem (PL), o senador Weverton Rocha e outros parlamentares, registrados em uma foto que estava no celular de Rocha em uma pasta chamada "Grupo Seleto".

O relatório da PF também registrou movimentações financeiras atípicas de R$ 45,5 milhões atribuídas a Tomaz entre maio e novembro de 2021, além de um pagamento de R$ 120 mil a Milton Salvador de Almeida Júnior, posteriormente ligado a empresas do chamado "Careca do INSS".

A defesa de Tomaz sustenta que ele "não integra o núcleo investigado pelas fraudes" e que a busca e apreensão em sua residência decorre "exclusivamente do fato de ser proprietário de uma aeronave utilizada" pelo senador Weverton Rocha. No entanto, a PF já deixou claro que o advogado funcionava como uma espécie de "hub financeiro", oferecendo suporte por meio de um intrincado arranjo de empresas, imóveis, aeronaves, pilotos e operadores financeiros.

O cenário que se desenha é de uma promiscuidade entre interesses privados e propostas legislativas que desafia qualquer noção de decoro e transparência. Enquanto Flávio Bolsonaro defende mudanças na legislação ambiental que beneficiariam diretamente o setor de resorts e grandes empreendimentos, seu amigo pessoal — que está preso preventivamente sob suspeita de lavagem de dinheiro — já tem a infraestrutura montada para explorar exatamente esse mercado na região-alvo da proposta.

A pergunta que fica, e que a assessoria do candidato insiste em não responder, é: como separar o que é política pública do que é interesse privado quando o proponente e o beneficiário compartilham voos, viagens, amizade pública e negócios na mesma geografia? O silêncio da campanha de Flávio Bolsonaro sobre esse entrelaçamento de interesses fala mais alto do que qualquer nota de esclarecimento.

Com informações de Diário do Centro do Mundo, Folha de S.Paulo, UOL, Poder360, R7, Gazeta do Povo, Extra, Correio da Amazônia, O Globo e Valor Econômico.

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