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A cobertura do Jornal Nacional sobre as comemorações do 7 de Setembro de 2026 escancarou um desequilíbrio editorial que transcende o mero critério de noticiabilidade e adentra o território do julgamento político disfarçado de reportagem. Ao tratar como “celebração” um ato convocado pelo candidato Flávio Bolsonaro (PL) na Avenida Paulista que, na prática, reuniu 28,5 mil pessoas — número considerado “flopado” por analistas e que ficou abaixo das edições anteriores do feriado —, o principal telejornal do país optou por uma narrativa que amplifica a pauta contra o ministro Alexandre de Moraes enquanto minimiza o caráter eleitoral e golpista do evento.
O levantamento feito pelo NaTelinha expõe a dimensão do desequilíbrio: no dia 1º de setembro, o JN dedicou doze vezes mais tempo à cobertura de denúncias contra Alexandre de Moraes do que à cobertura sobre Flávio Bolsonaro no mesmo Caso Master. Foram seis reportagens com acusações contra o ministro, somando mais de 30 minutos de exposição, contra uma única matéria de 2 minutos e meio sobre o filho do ex-presidente. Onde está o critério de isonomia que deveria pautar um jornalismo comprometido com a verdade?
Os dados de audiência e repercussão também colocam em xeque a estratégia editorial da Globo. A edição do JN que colocou Moraes no centro das revelações do caso Banco Master foi aberta com uma escalada histórica, nas palavras de César Tralli e Renata Vasconcellos, e dedicou “dezenas de minutos de cobertura” ao episódio. Nas redes sociais, a reação foi imediata: expressões como “não dá mais para passar pano” viralizaram, sugerindo que o telejornal estaria, enfim, rompendo com uma suposta blindagem ao ministro. Mas essa leitura ignora um ponto fundamental: a cobertura do JN não equivale a uma condenação — e, mais do que isso, revela uma seletividade que beneficia claramente o campo político de oposição.
O tratamento dado ao ato de Flávio Bolsonaro na Paulista é emblemático. O JN informou a estimativa de 28,5 mil participantes, calculada pela USP e pela organização More in Common. Em contrapartida, ao tratar do desfile oficial em Brasília, onde o governo Lula estimou a presença de 70 mil pessoas, o telejornal mencionou apenas “milhares de pessoas”, sem citar o número oficial. A escolha de palavras também é reveladora: a manifestação de Flávio foi chamada de “comemoração do 7 de setembro”, enquanto os protestos contra Moraes em outras capitais, que não chegavam cada ao público de duas centenas de pessoas, foram noticiados como “atos de oposição”. O enquadramento não é inocente — é político.
O contexto mais amplo da crise no STF agrava a percepção de parcialidade. O ministro André Mendonça derrubou o sigilo de um relatório da Polícia Federal que reúne mensagens entre Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. O procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu a anulação do documento. O próprio Moraes declarou-se impedido de votar em recursos relacionados a Jair Bolsonaro. Em meio a esse turbilhão, o JN não atua como observador imparcial, mas como ator político que escolhe um lado — e dedica tempo de antena para construí-lo.
Não se trata de defender Moraes ou qualquer outra figura pública. Trata-se de cobrar coerência jornalística. Se o JN dedica 12 vezes mais tempo a denúncias contra um ministro do STF do que a denúncias contra um candidato à Presidência da República no mesmo escândalo, o que está em jogo não é a apuração dos fatos, mas a construção de uma narrativa. E quando essa narrativa é montada sobre um evento que a própria imprensa alternativa classifica como “flopado”, o risco de descrédito recai não sobre os alvos da cobertura, mas sobre o veículo que a produz.
Ao tratar como “celebração” um ato que tinha como centro o pedido de saída de Alexandre de Moraes e a defesa da nomeação de ministros alinhados à pauta conservadora, o JN não apenas legitimou uma pauta golpista — como também escancarou suas próprias contradições. O mesmo telejornal que, em março de 2026, desmentiu o ministro ao vivo em uma longa reportagem, agora parece ter se transformado em porta-voz de uma oposição que busca usar o Judiciário como trampolim eleitoral.
O Jornal Nacional continua sendo o telejornal de maior audiência do Brasil. Com esse poder, vem uma responsabilidade que não pode ser driblada por escolhas editoriais que privilegiam um lado em detrimento de outro. A pauta contra Alexandre de Moraes pode até render minutos de televisão — mas, quando montada sobre um evento que “flopou”, o que sobra é o esvaziamento da credibilidade de quem a produziu.
Com informações de Diário do Centro do Mundo, NaTelinha UOL, Estadão Verifica, Gaz, Jornal da Direita Online, Jair Sampaio■