Siga nossas redes sociais | ![]() | Siga nossos canais |
A estratégia midiática deflagrada pelo Jornal Nacional (JN) da TV Globo no dia 1º de setembro — com cerca de 30 minutos de exposição negativa contra o ministro Alexandre de Moraes, contra apenas 2 minutos e meio sobre o envolvimento de Flávio Bolsonaro no caso Master — produziu um efeito que a própria emissora parece não ter antecipado: a opinião pública se dividiu de forma aguda, e o que era para ser um linchamento narrativo se transformou em um campo de batalha onde a desconfiança sobre a própria imprensa passou a massacrar as acusações contra o magistrado.
Os números do monitoramento digital são eloqüentes. Entre 31 de agosto e 8 de setembro, o caso Master acumulou 1,46 bilhão de visualizações e 111 milhões de interações no Facebook e Instagram. Alexandre de Moraes aparece em 40.956 publicações, com 807,5 milhões de visualizações, enquanto André Mendonça soma 28.102 publicações e 602,3 milhões de visualizações. A exposição de Moraes está associada principalmente às mensagens, contatos e contratos relacionados ao caso e à pressão por investigação e afastamento. Já em torno de Mendonça, a retirada do sigilo dos autos divide espaço com a repercussão de seu encontro com Vorcaro e as pressões sobre sua atuação como relator.
O que os números de visualização não revelam, porém, é a virada de humor que ocorreu nas redes após a decisão de Mendonça de afastar o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues. Segundo monitoramento da Ativaweb DataLab, o ministro passou a receber, pela primeira vez, mais críticas do que elogios nas redes sociais: foram 52,8% de menções negativas contra 33,5% de apoio. A mudança ocorreu justamente depois que Mendonça ocupou posição central nos acontecimentos envolvendo a PF. Para a Ativaweb, esse foi o “dado mais relevante do dia” por mostrar uma inédita “mudança de comportamento” em relação ao magistrado.
O ambiente digital, no entanto, “não substituiu um alvo por outro”: o ministro Alexandre de Moraes segue aparecendo como o campeão da rejeição, com 88,4% de postagens críticas em plataformas como Facebook, Instagram, X, TikTok e YouTube. O grupo formado por Moraes, Vorcaro e Banco Master permanece em patamar muito superior de rejeição. É nesse hiato entre a massificação do linchamento e o ceticismo sobre sua credibilidade que a opinião pública se debate.
O fenômeno tem contornos complexos. De um lado, parcela significativa da população abraçou a narrativa da Globo e saiu às ruas: atos realizados na Avenida Paulista, na Esplanada dos Ministérios e em outras 14 cidades brasileiras no 7 de Setembro pediram o afastamento de Moraes. O candidato Flávio Bolsonaro (PL) liderou a repercussão entre os presidenciáveis, com 7.766 publicações, 11,4 milhões de interações e 136,7 milhões de visualizações. Lula aparece logo atrás, com 6.251 publicações e 117,8 milhões de visualizações. A direita, especialmente Flávio Bolsonaro, foi beneficiada com o escândalo.
De outro lado, cresce um ceticismo crítico que enxerga no tratamento da Globo um padrão seletivo já documentado. A colunista Malu Gaspar, apontada como a principal receptora de vazamentos contra Moraes, foi descrita pela Associação Brasileira dos Jornalistas como alguém que “foi escolhida pelos vazadores, porque se habilitou a atacar Alexandre de Moraes e o Supremo”. O padrão “Vaza-Malu” expôs uma engrenagem de vazamentos direcionados que privilegiou ataques a Moraes enquanto silenciava sobre as revelações que ligam Mendonça a Vorcaro.
O “massacre” digital que Moraes promove contra Mendonça nas redes — com uma enxurrada de postagens, relatórios e acusações — é largamente ignorado pela cobertura da Globo, que insiste em tratar o embate como uma disputa entre iguais, quando os dados mostram uma assimetria brutal: Moraes tem 807,5 milhões de visualizações contra 602,3 milhões de Mendonça, mas a rejeição a Mendonça cresceu 52,8% em um único dia, enquanto a rejeição a Moraes se mantém em patamar estratosférico de 88,4%. A Globo, no entanto, trata o fenômeno como se fosse uma disputa equilibrada, quando na verdade é um massacre de um lado e uma resistência do outro.
Paradoxalmente, parte da população, após os vazamentos, passou a cobrar transparência onde ela não cabe: em investigações criminais em curso. O relatório da PF usado por Moraes contra Mendonça, por exemplo, é descrito pela própria PF como um documento de inteligência “sem valor probatório”. Ainda assim, cresce nas redes a demanda por “transparência total” — um conceito que, no mundo jurídico, colide com o sigilo necessário à preservação de provas e à garantia do contraditório. O cientista político João Paulo Charleaux observou que a intenção de Mendonça ao levar o caso ao plenário era justamente discutir o tema “no calor da opinião pública” — um movimento que instrumentaliza a pressão popular em detrimento do rito processual.
O resultado é uma opinião pública fragmentada e ansiosa, que oscila entre:
Nesse cenário, a Globo tenta, desesperadamente, dar a entender o que acontece pisando em ovos. A emissora que dedicou meia hora a esmiuçar cada mensagem de Vorcaro contra Moraes agora se vê obrigada a cobrir um ministro (Mendonça) que ajudou a erigir como “bastião moral”, mas que passa a concentrar maioria crítica nas redes. O JN, que tratou como “celebração” o ato golpista na Paulista, agora não sabe como navegar entre a defesa de sua própria pauta e a realidade dos fatos que desmontam sua narrativa inicial.
O linchamento a Moraes durou meia hora no JN; a reabilitação de sua imagem, se vier, dependerá menos da Globo e mais da própria dinâmica das redes, onde o “massacre” contra Mendonça já começou — e a emissora, acuada, prefere não ver.
Com informações de O Globo, Folha de S.Paulo, UOL, Veja, BBC News Brasil, Revista Fórum, Diário do Centro do Mundo, Brasil 247, NaTelinha, Itatiaia, ND+ ■