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O poder midiático esmaga quem está embaixo: da Escola Base a GH Rell
O episódio envolvendo o streamer GH Rell RJ e o ator João Victor Gonçalves não é um caso isolado de linchamento digital – ele repete, em escala reduzida, a lógica de destruição midiática que já vitimou tantos outros
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Foto: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/pt/d/d9/Escola-base.jpg
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■   Bernardo Cahue, 07/09/2026

Há uma cena, no documentário sobre o caso Escola Base, que deveria ser obrigatória em todas as faculdades de jornalismo: Icushiro Shimada, diante das câmeras do SBT, tenta explicar que não molestou crianças – e ninguém acredita. A escola foi depredada, sua família ameaçada de morte, sua vida destruída. Anos depois, a Justiça inocentou todos os acusados. As fissuras anais que motivaram a denúncia eram, na verdade, causadas por diarreia. Mas o estrago já estava feito.

Trinta e dois anos depois, o mecanismo é o mesmo – mudaram os palcos, os personagens e as plataformas, mas a lógica permanece intacta: um erro, uma conduta infeliz ou uma acusação mal interpretada ganham proporções nacionais, e a vida de alguém é triturada em nome da audiência. O caso de GH Rell RJ, o streamer de 19 anos de Duque de Caxias que ridicularizou a calça do ator João Victor Gonçalves na entrada do Rock in Rio, é um capítulo atualíssimo dessa mesma história – com um agravante: o poder de cancelamento, antes concentrado em poucas redações, agora se multiplica em milhões de telas, mas continua sendo exercido de forma brutalmente assimétrica.

O caso GH Rell: o que as imagens mostram e o que a reação esconde

Na noite de sexta-feira (4), o streamer GH Rell RJ – identificado como Jean Almeida Hilário, de 19 anos – transmitia ao vivo pela plataforma Kick quando abordou o ator João Victor Gonçalves, que seguia para o Rock in Rio. O grupo riu, fez comentários depreciativos sobre sua roupa – uma calça vermelha – e um dos amigos ergueu um saco preto que quase atingiu a cabeça do ator. Não há, nas imagens, xingamento homofóbico direto ou ameaça de roubo. O que há é um constrangimento ilegal motivado por estranhamento estético.

João Victor, que interpreta o personagem Mau Mau na novela “Quem Ama Cuida” da TV Globo – a emissora de maior audiência do país –, desabafou emocionado nas redes sociais, classificou a abordagem como homofóbica e afirmou que “homofobia não é entretenimento”. O ator também disse que, no momento, seu principal medo era ser roubado. A partir daí, a engrenagem do cancelamento foi acionada.

GH foi intimado pela Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi), teve seu perfil na Kick banido, e viu sua família ser alvo de ataques racistas nas redes sociais. A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) acionou o Ministério Público. O streamer pediu desculpas, chorou em vídeo, mas negou homofobia e acusou João Victor de racismo – uma acusação que, segundo a defesa do ator, não encontra respaldo objetivo nas falas dele.

O desfecho, até agora, é brutalmente desproporcional: um jovem negro e pobre, morador da Baixada Fluminense, perdeu sua fonte de renda e passou a ser alvo de ameaças reais por um ato de deboche que, por mais infeliz que tenha sido, não se confunde com o crime de homofobia. Enquanto isso, o ator da Globo recebeu abraços no Rock in Rio e o apoio de toda a máquina midiática da emissora.

Wilson Simonal: o primeiro cancelamento do Brasil

Em 1971, Wilson Simonal era o maior artista popular do Brasil – o primeiro negro a ter programa de TV próprio e contratos milionários. Acusado pelo Pasquim de ser informante da ditadura militar, ele foi imediatamente ostracizado. A Rede Globo o vetou de toda a sua programação. Colegas de profissão o evitaram. Sua carreira foi apagada por décadas. Simonal virou um pária social, e só seria reabilitado muito depois de morto.

O que uniu Simonal e GH Rell, além da cor da pele, é a vulnerabilidade diante de um poder midiático que não admite defesa. No caso de Simonal, a acusação veio de um jornal alternativo e foi amplificada pela grande imprensa. No caso de GH, a acusação veio de um ator da Globo e foi amplificada pela própria emissora e por uma legião de seguidores. Em ambos, o julgamento ocorreu antes da apuração dos fatos, e a pena – o cancelamento – foi executada em prazo recorde.

Karol Conká, Cássia Kis, Gabriela Pugliesi, MC Gui e Jojo Todynho: o cancelamento como esporte nacional

Nos últimos anos, o Brasil se tornou uma máquina de cancelar celebridades. Karol Conká foi eliminada do BBB 21 com 99,17% de rejeição – a maior da história do programa – e saiu do confinamento para um país que a odiava. Cássia Kis, atriz da Globo, foi cancelada após declarações homofóbicas e por seu apoio a Jair Bolsonaro, tornando-se ré em processo por homofobia. Gabriela Pugliesi perdeu oito contratos publicitários e desativou as redes sociais após dar uma festa durante a quarentena da Covid-19. MC Gui foi acusado de bullying após rir e filmar uma menina na Disney, perdendo shows e patrocinadores. Jojo Todynho, por sua vez, enfrentou críticas após se declarar de direita e retirar do ar uma música que celebrava a comunidade LGBTQI+.

Todos esses casos, no entanto, têm uma diferença fundamental em relação ao de GH Rell: os cancelados são, em sua maioria, pessoas que já tinham estrutura financeira, assessoria de imprensa e capital social para suportar o golpe. Karol Conká se reergueu. Cássia Kis teve contrato com a Globo até 2025. Gabriela Pugliesi voltou às redes. MC Gui e Jojo Todynho seguem ativos. GH Rell, por outro lado, é um jovem de 19 anos da periferia de Duque de Caxias, sem empresário, sem contrato com emissora, sem rede de proteção – e sua fonte de renda foi exterminada em horas.

A Escola Base: quando a imprensa destruiu inocentes

O caso da Escola Base, em 1994, é o marco zero do cancelamento midiático no Brasil. Donos e funcionários da escola de educação infantil foram acusados de abusar sexualmente de crianças. O delegado Edélcio Lemos convocou a imprensa e condenou os envolvidos publicamente, sem qualquer julgamento. O Jornal Nacional iniciou a cobertura, e a imprensa inteira embarcou – exceto a TV Cultura e o Diário Popular. A escola foi depredada, as casas dos acusados foram saqueadas, eles receberam ameaças de morte. Quando a investigação foi concluída, nunca houve abuso sexual. Icushiro Shimada morreu pobre, vítima de infarto; sua mulher morreu de câncer em 2007. A imprensa, anos depois, pediu desculpas. Mas os mortos não voltam.

O que o caso da Escola Base e o caso de GH Rell compartilham é a fritura – a destruição de uma vida em nome da audiência. No primeiro caso, o protagonista foi o delegado Edélcio Lemos, movido pelo “fascínio midiático” e pelo “ego extremo”. No segundo, o protagonista é a própria dinâmica das redes sociais: um vídeo, uma acusação de homofobia, uma enxurrada de ataques, e a vida de um jovem é liquidada. Em ambos, a verdade factual – o que realmente aconteceu – foi soterrada pelo que a audiência queria acreditar.

A assimetria do poder: Globo, deputada e o jovem da Baixada

O que torna o caso de GH Rell particularmente emblemático é a assimetria de poder entre os envolvidos. De um lado, João Victor Gonçalves: ator da novela das nove da TV Globo, com o apoio de toda a estrutura da emissora, de colegas de elenco, do autor Walcyr Carrasco e de milhões de fãs. Do outro, GH Rell: um streamer de 19 anos, morador de Duque de Caxias, que construiu uma audiência de 100 mil seguidores na Kick e dependia da plataforma para sobreviver.

Quando o ator disse que “homofobia não é entretenimento”, a frase se tornou um bordão nacional. Quando GH disse que “não gostou da calça” do ator, ele foi banido, intimado e transformado em alvo de ataques racistas contra sua família. A deputada Erika Hilton, em plena campanha eleitoral, surfou na onda de indignação e acionou o Ministério Público – uma ação legítima, mas que também rende visibilidade política e ocorre antes mesmo de qualquer conclusão investigativa.

Não se trata de defender o que GH fez – ele errou, e errou feio. Ridicularizar publicamente alguém por sua aparência é um ato de violência simbólica que merece repúdio. Mas a pergunta que fica é: o preço que ele está pagando é proporcional ao erro cometido? A resposta, para quem observa com isenção, é não.

O que a era do cancelamento nos ensina – e o que ainda não aprendemos

O caso GH Rell, visto em perspectiva histórica, é mais um capítulo de uma longa série de linchamentos midiáticos que o Brasil insiste em repetir. Da Escola Base a Wilson Simonal, de Karol Conká a MC Gui, a lógica é sempre a mesma: um erro (real ou suposto) é amplificado, o julgamento público substitui o judicial, e a pena é executada sem direito a defesa.

A diferença, agora, é que o poder de cancelar não está mais apenas nas mãos de grandes veículos de imprensa – ele está nas mãos de milhões de usuários de redes sociais, que operam na velocidade de um clique e na profundidade de um tuíte. E, como sempre, quem mais sofre são os que têm menos a perder: os pobres, os negros, os periféricos.

GH Rell não é um herói nem uma vítima inocente. Ele é, acima de tudo, um sintoma – de uma cultura que transforma o erro alheio em espetáculo, que confunde constrangimento com crime, e que trata o cancelamento como um fim em si mesmo, esquecendo que do outro lado há uma vida, uma família e, no caso dele, uma fonte de renda que foi destruída em poucas horas.

Enquanto não aprendermos a distinguir entre o que é fato e o que é sensação, entre o crime e o pecado, entre a punição justa e a vingança desproporcional, continuaremos repetindo os mesmos erros. A Escola Base ensinou, em 1994, que a imprensa pode destruir inocentes. O caso GH Rell ensina, em 2026, que as redes sociais podem fazer o mesmo – e com ainda menos freios.

Paralelos entre os casos:

  • Escola Base (1994) x GH Rell (2026): em ambos, uma acusação – falsa no primeiro caso, desproporcional no segundo – foi amplificada pela mídia e pela opinião pública, destruindo vidas antes de qualquer julgamento. O “fascínio midiático” do delegado Edélcio Lemos se repete no “fascínio da audiência” que move streamers, atores e deputados.
  • Wilson Simonal (1971) x GH Rell (2026): dois artistas negros – um no auge, outro em ascensão – foram destruídos por acusações públicas que, mesmo sem confirmação judicial, bastaram para apagar suas carreiras. No caso de Simonal, o cancelamento durou décadas; no de GH, ele já começou.
  • Karol Conká, Cássia Kiss, Gabriela Pugliesi, MC Gui e Jojo Todynho x GH Rell: todos foram cancelados, mas GH é o único que não tinha estrutura financeira, assessoria ou contratos para se sustentar durante e depois da tormenta. O que para uns foi um revés temporário, para ele pode ser um colapso definitivo.

O que o caso GH Rell revela sobre o Brasil de 2026:

  1. A assimetria de poder entre a grande mídia (Globo) e os criadores de conteúdo periféricos transforma qualquer erro destes em destruição em massa.
  2. O discurso contra a homofobia, justo e necessário, pode ser capturado por dinâmicas de cancelamento que atingem desproporcionalmente os mais vulneráveis.
  3. O engajamento político em período eleitoral se alimenta de casos como este, transformando uma briga de rua em palanque midiático.
  4. As plataformas digitais, como a Kick, aplicam banimentos sem transparência, critério ou direito de defesa – um poder privado que rivaliza com o do Estado.
  5. O cancelamento, antes uma ferramenta de justiça social, tornou-se um esporte nacional que não distingue entre o erro grave e a conduta infeliz, entre o crime e o pecado.

Com informações de Estadao, EM.com.br, Aventuras na História, Band, CBN, Diário do Centro do Mundo, Diário do Pará, Revista Fórum, Gazeta Digital, IstoE, O Povo, Revista Quem, O Liberal, Metrópoles, G1, UOL, Terra, Jornal de Brasília, Purepeople, Portal Bandeirantes e Novabrasil FM ■

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