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Em 5 de setembro de 2026, o ator João Victor Gonçalves publicou um vídeo emocionado nas redes sociais. Ele acabara de ser seguido, filmado e ridicularizado por um grupo de jovens na entrada do Rock in Rio — entre eles, o streamer GH Rell RJ, de 19 anos, morador de Duque de Caxias. As imagens mostravam comentários depreciativos sobre sua roupa e um saco preto erguido próximo à sua cabeça. Não havia, no vídeo, qualquer ofensa à orientação sexual de João Victor. Não havia xingamento homofóbico, não havia ameaça direta. Havia, sim, um ato de constrangimento ilegal e ridicularização estética — grave, repulsivo, mas juridicamente distinto do crime de homofobia.
João Victor, porém, escolheu classificar a abordagem como homofóbica. E, a partir daí, uma engrenagem letal foi acionada.
O discurso que virou sentença
No mesmo dia, Walcyr Carrasco — autor da novela “Quem Ama Cuida”, da TV Globo, e uma das vozes mais respeitadas da teledramaturgia brasileira — gravou um vídeo em apoio ao ator. Ele disse, com todas as letras: “Homofobia não é entretenimento, é crime”. Gil do Vigor, apresentador e ex-BBB, seguiu o mesmo tom: “A forma como eu me visto não é entretenimento. O meu jeito não é entretenimento. As violências que eu sofro não são entretenimento, é crime”.
Ambos sabiam do fato. Ambos viram as imagens. Ambos sabiam que a Polícia Civil ainda não havia concluído qualquer investigação sobre a tipificação do crime. Mesmo assim, afirmaram, com a autoridade de suas vozes públicas, que o que GH fez foi homofobia. E, ao fazerem isso, não apenas deram razão a João Victor — eles promoveram ativamente um linchamento público contra um jovem que, até então, era desconhecido do grande público.
A Globo como caixa de ressonância
A Rede Globo, emissora que emprega tanto João Victor quanto Walcyr Carrasco, não ficou neutra. A cobertura do caso em seus veículos — G1, Fantástico, programas de entretenimento — foi pautada pelo discurso do ator e do autor. A emissora transformou a narrativa de “homofobia” em fato consumado, sem qualquer ressalva sobre a análise técnica das imagens. O Jornal Nacional, por exemplo, repercutiu o caso com o tom de denúncia, consolidando a versão de João Victor como verdade absoluta.
A Globo, que tem o maior alcance midiático do país, usou sua máquina para transformar um episódio de constrangimento em um caso nacional de homofobia. E, ao fazer isso, deu a milhões de telespectadores e internautas o sinal verde para que o jovem GH fosse tratado como criminoso — sem julgamento, sem direito de defesa, sem qualquer proporcionalidade.
O linchamento em números
O resultado foi devastador. Em menos de 48 horas:
A responsabilidade direta: eles sabiam o que faziam
Walcyr Carrasco e Gil do Vigor não são inocentes úteis. São figuras públicas experientes, com assessoria de imprensa, com acesso à informação e com plena consciência do peso de suas palavras. Quando afirmaram, categoricamente, que o ato de GH constituía homofobia, eles sabiam que não havia provas concretas nesse sentido nas imagens. Sabiam que a polícia ainda não se pronunciara. Sabiam que a diferença entre constrangimento ilegal e crime de homofobia não é um detalhe técnico — é uma questão de justiça e de proporcionalidade.
Mas, ainda assim, escolheram o caminho da afirmação absoluta. Não disseram “se houve homofobia, que seja apurado”. Disseram “houve homofobia, isso é crime”. E, com essa frase, deram a milhares de seguidores a autorização moral para que o linchamento acontecesse. Eles não apenas testemunharam o linchamento — eles o conduziram, usando seus microfones como chicotes e seus palanques como cadafalsos.
A senzala digital: o castigo do pobre é sempre maior
O que torna esse caso particularmente abjeta é a assimetria de poder. De um lado, João Victor Gonçalves — ator da novela das nove, protegido pela maior emissora do país, amparado por um autor consagrado e por um apresentador querido pelo público. Do outro, GH Rell — um jovem negro, de 19 anos, morador da Baixada Fluminense, sem empresário, sem contrato, sem qualquer rede de proteção. Quando o ator erra (se é que errou), ele é defendido. Quando o streamer erra — e errou —, ele é esmagado.
A história do Brasil é feita de dessas assimetrias. No século XIX, o Código Criminal de 1835 previa açoites para escravos que ousassem ferir seus senhores, enquanto os senhores raramente eram punidos por castigos físicos. A Justiça imperial protegia a propriedade e a honra dos senhores, e coisificava os escravos. Em 2026, a lógica é a mesma: a honra do ator da Globo é defendida com a força de uma emissora inteira; a vida do jovem de periferia é destruída com a mesma força.
Walcyr Carrasco e Gil do Vigor, ao se aliarem a essa lógica, tornaram-se os novos senhores de engenho — não com chicotes, mas com palavras. E suas palavras, amplificadas pela Globo, tiveram o mesmo efeito: o castigo desproporcional sobre quem já tem menos a perder.
O que eles disseram e o que isso causou
Vejamos as falas de Carrasco e Gil com a devida crueza:
Essas falas, ditas em seus contextos de defesa, não foram meras opiniões. Foram sentenças públicas. E, como sentenças, tiveram efeitos concretos:
A hipocrisia da defesa
Há quem diga que Carrasco e Gil apenas “defenderam” João Victor. Mas defender uma vítima não exige destruir o agressor de forma desproporcional. Defender uma vítima não exige afirmar, sem provas, que o crime foi de homofobia. Defender uma vítima não exige usar todo o poder midiático para transformar um jovem de periferia em alvo de uma caçada nacional. Isso não é defesa — é vingança. E vingança, quando exercida pelos poderosos contra os fracos, deixa de ser justiça e se torna barbárie.
Walcyr Carrasco, Gil do Vigor e a Globo sabiam disso. Sabiam que GH era um jovem negro e pobre. Sabiam que ele não tinha recurso para se defender. Sabiam que a multidão, uma vez incitada, não faria distinção entre o crime e o constrangimento. E, mesmo assim, seguiram em frente. Porque, para eles, a defesa da pauta LGBTQIAP+ — legítima e urgente — valia mais do que a vida de um garoto da periferia. Porque, para eles, a audiência e o engajamento falavam mais alto do que a proporcionalidade. Porque, no fundo, a velha lógica escravista ainda impera: o castigo do “escravo” é sempre um espetáculo para os “senhores”.
O que fica
O caso GH Rell não é sobre um streamer que errou e foi punido. É sobre como o poder midiático, quando alinhado a um discurso moral inquestionável, pode destruir vidas sem qualquer freio. Walcyr Carrasco, Gil do Vigor e a Globo não são coadjuvantes nessa história. São os protagonistas do linchamento — os senhores que, do alto de seus microfones, apontaram o dedo para um jovem negro e deram o sinal para que a multidão o devorasse.
Que fique claro: GH errou. Ele ridicularizou João Victor, constrangeu-o publicamente, e isso merece repúdio e punição na medida do erro. Mas a punição deve ser proporcional — e o que vimos foi uma execução sumária, movida por um discurso que, por mais verdadeiro que seja em sua essência, foi usado como arma de destruição em massa contra quem já não tinha nada.
A frase “homofobia não é entretenimento” continuará sendo verdadeira. Mas, depois desse episódio, ela carregará também o peso de ter sido usada para justificar um linchamento. E esse peso, Carrasco, Gil e a Globo terão de carregar — porque, ao contrário do que tentam fazer crer, eles não são vítimas das circunstâncias. Eles são os arquitetos delas.
Responsabilidades diretas:
O que o caso revela sobre o Brasil de 2026:
Com informações de G1, UOL, CNN Brasil, Band, CBN, O Tempo, Extra, Veja, Metrópoles, Jornal de Brasília, Diário do Centro do Mundo, Terra, O Dia, Portal Bandeirantes, Diário do Pará, Revista Fórum, IstoE, Nsctotal, Midiamax, Capricho, CARAS Brasil, Agência Cearense e Portal Área VIP ■