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Walcyr Carrasco, Gil do Vigor e a Globo como arquitetos do linchamento de GH Rell
Os senhores do microfone sabiam exatamente o que faziam ao afirmar, sem provas, que o streamer GH Rell cometeu homofobia — e, com esse discurso amplificado, promoveram ativamente um linchamento público
Analise
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■   Bernardo Cahue, 08/09/2026

Em 5 de setembro de 2026, o ator João Victor Gonçalves publicou um vídeo emocionado nas redes sociais. Ele acabara de ser seguido, filmado e ridicularizado por um grupo de jovens na entrada do Rock in Rio — entre eles, o streamer GH Rell RJ, de 19 anos, morador de Duque de Caxias. As imagens mostravam comentários depreciativos sobre sua roupa e um saco preto erguido próximo à sua cabeça. Não havia, no vídeo, qualquer ofensa à orientação sexual de João Victor. Não havia xingamento homofóbico, não havia ameaça direta. Havia, sim, um ato de constrangimento ilegal e ridicularização estética — grave, repulsivo, mas juridicamente distinto do crime de homofobia.

João Victor, porém, escolheu classificar a abordagem como homofóbica. E, a partir daí, uma engrenagem letal foi acionada.

O discurso que virou sentença

No mesmo dia, Walcyr Carrasco — autor da novela “Quem Ama Cuida”, da TV Globo, e uma das vozes mais respeitadas da teledramaturgia brasileira — gravou um vídeo em apoio ao ator. Ele disse, com todas as letras: “Homofobia não é entretenimento, é crime”. Gil do Vigor, apresentador e ex-BBB, seguiu o mesmo tom: “A forma como eu me visto não é entretenimento. O meu jeito não é entretenimento. As violências que eu sofro não são entretenimento, é crime”.

Ambos sabiam do fato. Ambos viram as imagens. Ambos sabiam que a Polícia Civil ainda não havia concluído qualquer investigação sobre a tipificação do crime. Mesmo assim, afirmaram, com a autoridade de suas vozes públicas, que o que GH fez foi homofobia. E, ao fazerem isso, não apenas deram razão a João Victor — eles promoveram ativamente um linchamento público contra um jovem que, até então, era desconhecido do grande público.

A Globo como caixa de ressonância

A Rede Globo, emissora que emprega tanto João Victor quanto Walcyr Carrasco, não ficou neutra. A cobertura do caso em seus veículos — G1, Fantástico, programas de entretenimento — foi pautada pelo discurso do ator e do autor. A emissora transformou a narrativa de “homofobia” em fato consumado, sem qualquer ressalva sobre a análise técnica das imagens. O Jornal Nacional, por exemplo, repercutiu o caso com o tom de denúncia, consolidando a versão de João Victor como verdade absoluta.

A Globo, que tem o maior alcance midiático do país, usou sua máquina para transformar um episódio de constrangimento em um caso nacional de homofobia. E, ao fazer isso, deu a milhões de telespectadores e internautas o sinal verde para que o jovem GH fosse tratado como criminoso — sem julgamento, sem direito de defesa, sem qualquer proporcionalidade.

O linchamento em números

O resultado foi devastador. Em menos de 48 horas:

  • O perfil de GH na plataforma Kick foi banido sumariamente, sem qualquer transparência sobre os critérios adotados — uma perda de sua fonte de renda, já que o streamer dependia da plataforma para sobreviver;
  • A Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) abriu investigação criminal contra ele;
  • A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) acionou o Ministério Público, surfando na onda de indignação em pleno período eleitoral;
  • GH e sua família passaram a receber ataques racistas e ameaças de morte reais nas redes sociais;
  • O jovem de 19 anos viu sua vida ser destruída em questão de horas — enquanto João Victor, Carrasco e Gil do Vigor eram aplaudidos e celebrados como heróis da causa LGBTQIAP+.

A responsabilidade direta: eles sabiam o que faziam

Walcyr Carrasco e Gil do Vigor não são inocentes úteis. São figuras públicas experientes, com assessoria de imprensa, com acesso à informação e com plena consciência do peso de suas palavras. Quando afirmaram, categoricamente, que o ato de GH constituía homofobia, eles sabiam que não havia provas concretas nesse sentido nas imagens. Sabiam que a polícia ainda não se pronunciara. Sabiam que a diferença entre constrangimento ilegal e crime de homofobia não é um detalhe técnico — é uma questão de justiça e de proporcionalidade.

Mas, ainda assim, escolheram o caminho da afirmação absoluta. Não disseram “se houve homofobia, que seja apurado”. Disseram “houve homofobia, isso é crime”. E, com essa frase, deram a milhares de seguidores a autorização moral para que o linchamento acontecesse. Eles não apenas testemunharam o linchamento — eles o conduziram, usando seus microfones como chicotes e seus palanques como cadafalsos.

A senzala digital: o castigo do pobre é sempre maior

O que torna esse caso particularmente abjeta é a assimetria de poder. De um lado, João Victor Gonçalves — ator da novela das nove, protegido pela maior emissora do país, amparado por um autor consagrado e por um apresentador querido pelo público. Do outro, GH Rell — um jovem negro, de 19 anos, morador da Baixada Fluminense, sem empresário, sem contrato, sem qualquer rede de proteção. Quando o ator erra (se é que errou), ele é defendido. Quando o streamer erra — e errou —, ele é esmagado.

A história do Brasil é feita de dessas assimetrias. No século XIX, o Código Criminal de 1835 previa açoites para escravos que ousassem ferir seus senhores, enquanto os senhores raramente eram punidos por castigos físicos. A Justiça imperial protegia a propriedade e a honra dos senhores, e coisificava os escravos. Em 2026, a lógica é a mesma: a honra do ator da Globo é defendida com a força de uma emissora inteira; a vida do jovem de periferia é destruída com a mesma força.

Walcyr Carrasco e Gil do Vigor, ao se aliarem a essa lógica, tornaram-se os novos senhores de engenho — não com chicotes, mas com palavras. E suas palavras, amplificadas pela Globo, tiveram o mesmo efeito: o castigo desproporcional sobre quem já tem menos a perder.

O que eles disseram e o que isso causou

Vejamos as falas de Carrasco e Gil com a devida crueza:

  • Walcyr Carrasco: “Homofobia não é entretenimento, é crime.” — afirmou, sem base nas imagens, que houve crime de homofobia, dando a entender que GH deveria ser punido como criminoso.
  • Gil do Vigor: “A forma como eu me visto não é entretenimento. O meu jeito não é entretenimento. As violências que eu sofro não são entretenimento, é crime.” — equiparou a ridicularização estética à violência homofóbica, fechando qualquer espaço para distinguir os atos.

Essas falas, ditas em seus contextos de defesa, não foram meras opiniões. Foram sentenças públicas. E, como sentenças, tiveram efeitos concretos:

  1. Banimento da Kick: a plataforma, pressionada pela opinião pública, excluiu o perfil de GH sem critério claro — uma punição econômica que poderia ter sido evitada se o debate tivesse sido mais técnico e menos emocional.
  2. Investigação criminal: a Decradi abriu inquérito com base na denúncia pública, e não em elementos objetivos do vídeo — o que, mesmo que resulte em absolvição, já custou a GH a exposição e o estigma de ser investigado por um crime grave.
  3. Acionamento do MP: a deputada Erika Hilton usou a fala de Carrasco e Gil para justificar sua ação política, transformando o caso em palanque eleitoral — e GH, sem querer, virou moeda de troca.
  4. Ataques racistas: a família de GH passou a ser alvo de ofensas racistas e ameaças de morte — fruto direto da desumanização promovida pelo discurso de que ele era um “homofóbico” criminoso, merecedor de qualquer tipo de represália.

A hipocrisia da defesa

Há quem diga que Carrasco e Gil apenas “defenderam” João Victor. Mas defender uma vítima não exige destruir o agressor de forma desproporcional. Defender uma vítima não exige afirmar, sem provas, que o crime foi de homofobia. Defender uma vítima não exige usar todo o poder midiático para transformar um jovem de periferia em alvo de uma caçada nacional. Isso não é defesa — é vingança. E vingança, quando exercida pelos poderosos contra os fracos, deixa de ser justiça e se torna barbárie.

Walcyr Carrasco, Gil do Vigor e a Globo sabiam disso. Sabiam que GH era um jovem negro e pobre. Sabiam que ele não tinha recurso para se defender. Sabiam que a multidão, uma vez incitada, não faria distinção entre o crime e o constrangimento. E, mesmo assim, seguiram em frente. Porque, para eles, a defesa da pauta LGBTQIAP+ — legítima e urgente — valia mais do que a vida de um garoto da periferia. Porque, para eles, a audiência e o engajamento falavam mais alto do que a proporcionalidade. Porque, no fundo, a velha lógica escravista ainda impera: o castigo do “escravo” é sempre um espetáculo para os “senhores”.

O que fica

O caso GH Rell não é sobre um streamer que errou e foi punido. É sobre como o poder midiático, quando alinhado a um discurso moral inquestionável, pode destruir vidas sem qualquer freio. Walcyr Carrasco, Gil do Vigor e a Globo não são coadjuvantes nessa história. São os protagonistas do linchamento — os senhores que, do alto de seus microfones, apontaram o dedo para um jovem negro e deram o sinal para que a multidão o devorasse.

Que fique claro: GH errou. Ele ridicularizou João Victor, constrangeu-o publicamente, e isso merece repúdio e punição na medida do erro. Mas a punição deve ser proporcional — e o que vimos foi uma execução sumária, movida por um discurso que, por mais verdadeiro que seja em sua essência, foi usado como arma de destruição em massa contra quem já não tinha nada.

A frase “homofobia não é entretenimento” continuará sendo verdadeira. Mas, depois desse episódio, ela carregará também o peso de ter sido usada para justificar um linchamento. E esse peso, Carrasco, Gil e a Globo terão de carregar — porque, ao contrário do que tentam fazer crer, eles não são vítimas das circunstâncias. Eles são os arquitetos delas.

Responsabilidades diretas:

  • Walcyr Carrasco: afirmou categoricamente que houve crime de homofobia sem base técnica, usando sua autoridade como autor da novela para validar o discurso do ator e incentivar a perseguição pública a GH.
  • Gil do Vigor: equiparou a ridicularização estética à violência homofóbica, amplificando a comoção e dando cobertura moral ao linchamento digital.
  • Rede Globo: utilizou sua máquina de comunicação para transformar uma versão não comprovada em fato jornalístico, pautando a opinião pública e pressionando instituições (polícia, plataformas) a agirem de forma precipitada.
  • GH Rell RJ: errou ao ridicularizar João Victor — mas seu erro, por mais grave que seja, não justifica a destruição desproporcional de sua vida, de sua renda e de sua família.

O que o caso revela sobre o Brasil de 2026:

  1. A defesa de pautas justas pode ser capturada por dinâmicas de cancelamento que repetem a lógica colonial: o castigo para o pobre, o negro e o periférico é sempre maior.
  2. Figuras públicas com grande alcance midiático têm responsabilidade direta sobre os atos de suas audiências — e não podem se esquivar dizendo que “apenas defenderam” alguém.
  3. A Globo, como maior emissora do país, continua exercendo um poder desproporcional sobre a formação da opinião pública, e seu uso parcial e emocional desse poder é uma ameaça à justiça e à proporcionalidade.
  4. O linchamento digital não é uma “reação popular espontânea” — ele é orquestrado, amplificado e legitimado por vozes que sabem exatamente o que estão fazendo.
  5. Enquanto a sociedade brasileira não aprender a distinguir entre o crime e o constrangimento, entre a punição justa e a vingança desmedida, continuaremos a repetir os mesmos erros da história — sempre com os mesmos corpos sendo esmagados.

Com informações de G1, UOL, CNN Brasil, Band, CBN, O Tempo, Extra, Veja, Metrópoles, Jornal de Brasília, Diário do Centro do Mundo, Terra, O Dia, Portal Bandeirantes, Diário do Pará, Revista Fórum, IstoE, Nsctotal, Midiamax, Capricho, CARAS Brasil, Agência Cearense e Portal Área VIP ■

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