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Gritos de “Lula, Lula” no Rock in Rio 2026 viram termômetro político e inspiram "DataRock"
Público do festival entoa coro tradicional em apoio ao presidente; fenômeno é lido como a resposta da música à velha polêmica das pesquisas eleitorais
Analise
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■   Bernardo Cahue, 06/09/2026

O Rock in Rio 2026, que começou na última sexta-feira (4) na Cidade do Rock, no Rio de Janeiro, ganhou contornos políticos neste fim de semana. Vídeos que circulam nas redes sociais mostram parte do público entoando o coro “Olê, olê, olê, olá, Lula, Lula” durante os primeiros dias do festival. A manifestação ocorreu de forma espontânea na plateia, sem estar vinculada a uma apresentação específica, segundo as gravações que viralizaram.

O canto é uma referência direta ao jingle histórico “Lula lá”, utilizado pela primeira vez na campanha presidencial de 1989. Nos registros, é possível ver parte do público repetindo a frase enquanto acompanhava a programação musical, em um movimento que usuários das redes sociais interpretaram como um termômetro do humor político na maior plateia do país.

O episódio ocorre em meio a um calendário eleitoral já em curso – as eleições gerais estão marcadas para outubro – e reedita, no universo do rock, um fenômeno que marcou a disputa de 2022: o confronto entre pesquisas de opinião e a chamada “voz das ruas”.

O fantasma do “DataPovo” e a chegada do “DataRock”

Nas eleições de 2022, o então presidente Jair Bolsonaro (PL) passou a usar a expressão “DataPovo” para desqualificar os levantamentos do instituto Datafolha e de outras empresas de pesquisa. “Aqui não tem a mentirosa Datafolha, aqui é o nosso ‘datapovo’”, disse Bolsonaro em discurso a apoiadores em 7 de setembro daquele ano. A estratégia consistia em contrapor os números das pesquisas – que apontavam vantagem de Lula – à percepção das multidões presentes em seus atos públicos, como se a própria aglomeração funcionasse como uma aferição alternativa e mais “verdadeira” da realidade eleitoral.

O fenômeno agora observado no Rock in Rio 2026 resgata essa lógica, mas com um sinal trocado. Desta vez, é o apoio a Lula que ecoa na multidão. O coro entoado na Cidade do Rock pode ser lido, em chave política, como uma espécie de “DataRock” – a métrica informal que emerge dos grandes eventos culturais e que, para muitos, funciona como um contraponto popular às pesquisas convencionais.

Embora o movimento não tenha sido organizado por nenhuma campanha ou artista, a dimensão do festival – que recebe cerca de 100 mil pessoas por dia – confere ao gesto um peso simbólico que extrapola o entretenimento. A plateia do Rock in Rio, historicamente plural, transformou-se em um palco improvisado de expressão política, ecoando o debate que há quatro anos dominava as ruas e as redes.

O que se sabe sobre os gritos

Até o momento, não há confirmação oficial sobre em qual show ou momento exato os gritos ocorreram. O Diário do Centro do Mundo, que publicou um dos vídeos que viralizaram, afirma que as imagens registram pessoas da plateia cantando o nome de Lula em meio à programação musical, sem relação com uma apresentação específica. A informação foi replicada por outros veículos, que destacaram a espontaneidade da manifestação.

O Rock in Rio 2026 acontece em sete dias – 4, 5, 6, 7, 11, 12 e 13 de setembro – e reúne 190 shows, com atrações como Foo Fighters, Avenged Sevenfold, Elton John, Calvin Harris e Stray Kids. A edição deste ano já havia sido marcada por outros dois episódios político: na sexta-feira (4), o vocalista Dinho do Capital Inicial, acompanhado pela guitarra de Dado Villa-Lobos, dedicou a histórica canção "Que País É Esse", de autoria de seu amigo Renato Russo a Daniel Vorcaro; no sábado (5), a transmissão do show do Supercombo pelo Canal Bis foi interrompida logo após o vocalista Léo Ramos pedir que a extrema direita fosse “varrida do país” nas eleições.

Repercussão e leituras políticas

Nas redes sociais, os vídeos dos gritos de “Lula, Lula” foram compartilhados por perfis de diferentes espectros políticos. Apoiadores do presidente celebraram o que chamaram de “efeito Lula na boca do povo”, enquanto opositores minimizaram o episódio ou questionaram sua representatividade.

Especialistas em comunicação política ouvidos pela reportagem apontam que o fenômeno do “DataRock” – ainda que informal – revela uma tensão permanente entre a medição científica da opinião pública e a percepção imediata das multidões. “O que vimos no Rock in Rio é a continuidade de um debate que não se encerrou em 2022”, avaliou um cientista político. “A diferença é que, agora, o palco é outro, e o coro mudou de lado.”

O episódio também reacende a discussão sobre o papel dos grandes eventos culturais como espaços de expressão política. Para uns, trata-se de uma manifestação legítima da liberdade de expressão; para outros, um indicador de que a polarização segue viva e pulsante na sociedade brasileira.

Contexto eleitoral

O Rock in Rio 2026 ocorre a menos de um mês do primeiro turno das eleições, marcado para 4 de outubro. Pesquisas recentes do Datafolha mostram Lula à frente nas intenções de voto, com o senador Flávio Bolsonaro (PL), filho do ex-presidente, em segundo. O cenário apresentado indica uma disputa acirrada, na qual cada gesto simbólico – dentro ou fora dos palcos – pode ser interpretado como parte da narrativa eleitoral.

A manifestação no Rock in Rio, ainda que espontânea, insere-se nesse caldo político. Se o “DataPovo” foi a aposta bolsonarista para desacreditar as pesquisas em 2022, o “DataRock” de 2026 pode ser lido como a resposta cultural de uma parcela do público que encontra na música e na aglomeração uma forma de expressar sua preferência política – e, quem sabe, de tentar influenciar o resultado das urnas.

Com informações de Diário do Centro do Mundo, Rolling Stone Brasil, Estado de Minas, F5 Folha de S.Paulo, Terra, O Globo, Estadao, Nexo Jornal, Lupa ■

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