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O prestígio de um Jornal Nacional resumido a apenas 11 pontos de audiência
O descrédito contínuo às narrativas editoriais tendenciosas parece ser o gatilho para que cada vez menos pessoas assistam ao telejornal que, historicamente, bateu recordes de audiência - e hoje bate seus próprios recordes negativos
Analise
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■   Bernardo Cahue, 08/09/2026

O que era para ser apenas mais um sábado no calendário televisivo brasileiro se transformou, no dia 5 de setembro de 2026, em um marco de potencial humilhação para o principal telejornal do país. Os dados prévios de audiência do Ibope na Grande São Paulo indicaram que o Jornal Nacional havia registrado míseros 11,00 pontos de média, um número que, se confirmado, representaria o pior desempenho do programa em mais de 57 anos de exibição. O pico de telespectadores, alcançado no primeiro minuto da edição, foi de apenas 12,66 pontos, enquanto o índice mais baixo chegou a 9,99.

Para além do choque inicial, o que torna este episódio um sintoma de uma crise maior é a reação em cascata que ele provocou. A prévia indicava uma queda de 44% no público do JN em comparação com os quatro sábados anteriores, e isso sem que houvesse qualquer alteração significativa na programação das emissoras concorrentes ou evento atípico nos serviços de streaming. O abismo entre o telejornal e as plataformas de streaming, que na mesma faixa horária somaram 20,35 pontos, apenas acentuava o cenário de desastre iminente. A perplexidade foi tamanha que até mesmo executivos de emissoras concorrentes, como Murilo Fraga, diretor do SBT, questionaram publicamente a medição, classificando-a como inacreditável.

Diante da pressão, especialmente da própria TV Globo, o Ibope foi forçado a uma manobra inédita: trabalhou em pleno feriadão para divulgar os dados consolidados no domingo, algo sem precedentes. A correção foi drástica. O número saltou de 11 para 19,33 pontos de média, uma variação de 76%. A justificativa do instituto foi atribuir o erro a uma transmissão simultânea (simulcast) do JN pela TVT, a TV dos Trabalhadores, que teria confundido seus medidores.

No entanto, longe de encerrar a polêmica, a explicação do Ibope apenas aprofundou a crise de confiança. Se uma transmissão simultânea pode gerar uma distorção tão colossal, a credibilidade de todo o sistema de medição é colocada em xeque. Em episódios anteriores de simulcast, como os do SBT, a variação entre a prévia e o consolidado nunca passou de 40%. A disparidade de 76% no caso do JN é um sinal inequívoco de que algo está profundamente errado.

Ao tratar esse episódio isoladamente, corre-se o risco de ignorar a floresta por causa da árvore. Os 11 pontos, ainda que corrigidos, são um reflexo de um movimento de longo prazo. O Jornal Nacional, que já foi sinônimo de hegemonia absoluta e chegou a ultrapassar os 40 pontos no início dos anos 2000, viu sua audiência média despencar para a casa dos 22 pontos. O programa que um dia foi o “carro-chefe” e a referência máxima do jornalismo brasileiro agora trava uma batalha inglória para se manter relevante em um ecossistema de mídia fragmentado e, mais do que isso, para manter a confiança de um público cada vez mais cético.

E aqui reside o ponto central. O descrédito do JN não é apenas um fenômeno de mercado, mas uma consequência direta de suas escolhas editoriais. A cobertura do 7 de Setembro de 2026 foi um exemplo flagrante. Ao tratar como uma simples “celebração” um ato convocado por Flávio Bolsonaro que reuniu 28,5 mil pessoas, enquanto minimizava a presença de 70 mil no desfile oficial de Brasília, o telejornal expôs sua parcialidade. A decisão de dedicar 12 vezes mais tempo a denúncias contra o ministro Alexandre de Moraes do que a cobertura sobre Flávio Bolsonaro no mesmo escândalo não é um erro; é uma declaração de princípios.

Essa tendência em se colocar como ator político, e não como observador imparcial, é o que afasta o público. O telespectador não é mais um receptor passivo; ele percebe o viés, a narrativa construída e o “golpismo” editorial que muitas vezes se disfarça de jornalismo. A queda de audiência não é um acidente, mas o resultado de uma escolha deliberada por uma linha editorial que privilegia um lado em detrimento do outro, transformando o noticiário em um palco para disputas políticas.

Os 11 pontos de audiência, mesmo que corrigidos para 19,33, são um alerta. Eles escancaram que o prestígio do Jornal Nacional, construído ao longo de décadas, está se desfazendo a olhos vistos. A crise de credibilidade não é mais um ruído de fundo; é o motor de sua própria decadência. A pergunta que fica não é se o Ibope errou na medição, mas se a audiência, em sua sabedoria, já deu o seu veredito sobre o valor de um jornalismo que se curva à pauta política e ao sensacionalismo em detrimento da verdade.

Com informações de Diário do Centro do Mundo, Jornal de Brasília, TV Pop, Faropop, Portal LeoDias

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