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O peso desproporcional da fama: entre o constrangimento e o cancelamento
O episódio entre João Victor Gonçalves e o streamer GH Rell RJ expõe as fraturas da era do cancelamento
Analise
Foto: https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcSIjOdWbDlawdh-NHIoH4BkWOQoxp-8NbWUumuYVF6tc9JAgRmIwS8GzWg&s=10
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■   Bernardo Cahue, 07/09/2026

O que era para ser uma noite de trabalho no Rock in Rio transformou-se, para o ator João Victor Gonçalves, em um episódio de constrangimento público. Para o streamer GH Rell RJ, de 19 anos, morador de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, o desfecho foi muito mais severo: perda da conta na plataforma Kick, onde acumulava mais de 100 mil seguidores, investigação policial na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi), acionamento do Ministério Público pela deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), uma enxurrada de ataques racistas contra ele e sua família e um massacre moral de âmbito nacional.

O caso, que viralizou nas últimas 48 horas, expõe com crudeza os mecanismos da chamada "era do cancelamento" – e como eles operam de forma desproporcional quando o poder midiático e financeiro está concentrado de um lado, e a vulnerabilidade social do outro.

O vídeo: o que realmente se vê

As imagens que circularam nas redes sociais mostram João Victor caminhando sozinho em direção à Cidade do Rock quando é abordado por GH Rell RJ e outros dois jovens. O grupo o segue enquanto faz comentários depreciativos sobre sua roupa – uma calça vermelha – entre gargalhadas. Em determinado momento, um dos integrantes ergue um saco preto que quase atinge a cabeça do ator – ato imediatamente reprovado pelo próprio streamer, ainda que em tom de "zoeira".

Não há, nas imagens, qualquer menção explícita à orientação sexual de João Victor. Não há xingamento homofóbico direto, não há ameaça de roubo verbalizada. O que se vê é um constrangimento ilegal motivado pelo estranhamento estético – o que a lei brasileira tipifica como injúria, mas não necessariamente como homofobia, crime equiparado ao racismo desde 2019. O próprio ator, em seu desabafo emocionado, admitiu que seu medo imediato não era a homofobia, mas o roubo: “Dentro de mim talvez eu estivesse sentindo alguma coisa, mas o meu medo de ser roubado era maior, eu acho”.

A acusação de racismo: o que dizem os fatos

Foi exatamente essa fala – “medo de ser roubado” – que GH utilizou para acusar João Victor de racismo. Em vídeo publicado nas redes sociais, o streamer questionou: “Por que você estava com medo de ser roubado? Por causa da minha cor? É porque eu sou preto?”.

A acusação, porém, é frágil. Como observou o Jornal de Brasília, “na declaração reproduzida, João Victor não atribui o medo à cor de GH. Essa associação aparece na interpretação feita pelo próprio streamer. Portanto, o que existe neste momento é uma acusação de racismo feita por GH contra João Victor, e não um fato comprovado”. A defesa do ator afirmou que sua reação foi de autoproteção.

GH também afirmou que ele e seus familiares passaram a receber ataques racistas e outras manifestações preconceituosas depois que o vídeo viralizou. “O seu público está vindo me atacar de todas as formas aqui. Racista, xingando minha família e sendo preconceituoso comigo”, disse o streamer. Se isso ocorreu, é igualmente grave e deve ser investigado – mas não anula a análise do que aconteceu na abordagem original.

O cancelamento e suas consequências reais

O desfecho do caso, até o momento, é brutalmente assimétrico. João Victor, ator da novela das nove da TV Globo – a emissora de maior audiência do país – , contou com o apoio de colegas de elenco, do autor Walcyr Carrasco e de uma legião de fãs. Sua fala “homofobia não é entretenimento” tornou-se um bordão replicado por milhões. Ele retornou ao Rock in Rio no domingo (6) e foi recebido com abraços e manifestações de apoio.

GH, por outro lado, viu sua conta na Kick ser banida – uma plataforma onde ele não apenas produzia conteúdo, mas também recebia pagamentos. A perda do perfil representa, para um jovem de 19 anos da periferia de Duque de Caxias, um prejuízo financeiro concreto e imediato. Além disso, ele e sua família passaram a ser alvo de ameaças reais nas redes sociais – o que, ironicamente, é exatamente o tipo de violência que ele mesmo foi acusado de praticar.

“Tudo isso que aconteceu comigo foi muito pesado”, disse GH em um vídeo aos prantos, após ser banido. “Eu tô completamente arrependido”. Mas o pedido de desculpas não foi suficiente para reverter o que ele chamou de “cancelamento” – e que, na prática, significou a perda de sua principal fonte de renda.

O papel da mídia e da política

O caso também revela como o debate público é capturado por interesses que vão além da justiça. A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) acionou o Ministério Público contra o streamer e contra a própria plataforma Kick, em um movimento que, embora juridicamente legítimo, ocorre em pleno período de campanha eleitoral e rende visibilidade midiática à parlamentar. A associação entre a pauta LGBTQIAP+ e o engajamento político não é nova – mas, neste caso, ocorre antes mesmo de qualquer investigação concluída sobre a real tipificação do crime.

A Rede Globo, por sua vez, deu ampla cobertura ao episódio em seus veículos, reforçando o discurso de homofobia defendido por seu ator – o que é compreensível do ponto de vista institucional, mas também amplifica desproporcionalmente a exposição de um jovem negro e pobre que, por mais infeliz que tenha sido sua conduta, já está arcando com consequências severas.

O que está em jogo

O episódio lida diretamente com pontos cruciais da sociedade contemporânea:

  • Poder financeiro e midiático: de um lado, um ator da Globo com alcance nacional; do outro, um streamer de periferia com 100 mil seguidores, cuja fonte de renda foi exterminada em horas.
  • Cancelamento popular: a condenação pública ocorreu antes de qualquer julgamento jurídico, baseada em interpretações emocionais e não em fatos objetivos.
  • Ameaças posteriores reais: o discurso contra a homofobia reverberou em ataques racistas contra GH e sua família – uma violência que, ironicamente, foi ignorada por muitos dos que condenaram o streamer.
  • Engajamento político: a pauta foi apropriada por figuras públicas em período eleitoral, transformando um caso de constrangimento ilegal em palanque para agendas partidárias.

Fatos e sensações: a distinção necessária

É preciso separar o que é fato do que é sensação. Fato: João Victor foi seguido, filmado e ridicularizado por causa de sua roupa – o que configura constrangimento ilegal e, dependendo da interpretação jurídica, pode ou não ser enquadrado como homofobia. Fato: um dos amigos de GH ergueu um saco preto que quase atingiu a cabeça do ator – ato de incitação à agressão, ainda que reprovado em seguida. Fato: GH perdeu sua conta na Kick, foi intimado pela polícia e teve sua família exposta a ataques racistas. Fato: a deputada Erika Hilton acionou o Ministério Público antes mesmo da conclusão das investigações.

Sensação: o medo de ser roubado sentido por João Victor – que pode ter sido motivado pelo contexto de violência urbana do Rio de Janeiro, e não pela cor de GH. Sensação: a acusação de racismo feita pelo streamer – que, embora grave, não encontra respaldo objetivo na fala do ator. Sensação: a equiparação automática entre deboche estético e crime de homofobia – que, para ser configurado, exige elementos que as imagens, por si só, não demonstram.

O que fica

O caso João Victor x GH Rell RJ não é preto no branco. É um exemplo doloroso de como a dinâmica das redes sociais, combinada com o poder desproporcional da mídia tradicional e o oportunismo político, pode transformar um episódio de constrangimento – grave, sim, mas com contornos específicos – em um enredo maniqueísta onde não cabe a complexidade.

GH errou ao ridicularizar João Victor. Isso é incontestável. Mas o preço que ele está pagando – a perda de sua fonte de renda, a exposição de sua família a ataques racistas, a investigação criminal – é proporcional ao erro cometido? A resposta, para quem observa com isenção, é não.

A era do cancelamento não distingue entre o crime e o pecado, entre a ofensa e o delito, entre a piada infeliz e a violência estrutural. Ela opera na velocidade de um clique e na profundidade de um tuíte – e, como neste caso, costuma atingir com muito mais força quem já tem menos a perder.

Desdobramentos do caso até o momento:

  • Abordagem: João Victor foi seguido e ridicularizado por GH e outros dois jovens na entrada do Rock in Rio; um dos integrantes ergueu um saco preto que quase atingiu a cabeça do ator.
  • Identificação: GH foi identificado como Jean Almeida Hilário, de 19 anos, morador de Duque de Caxias.
  • Investigação: A Decradi abriu inquérito e intimou o streamer; João Victor também será ouvido.
  • Banimento: A plataforma Kick baniu o perfil de GH, que acumulava mais de 100 mil seguidores.
  • Acusação de racismo: GH acusou João Victor de racismo após o ator mencionar medo de ser roubado; a acusação, porém, é uma interpretação do streamer, não um fato comprovado.
  • Ataques racistas: GH afirmou que ele e sua família passaram a receber ataques racistas nas redes sociais.
  • Atuação política: A deputada Erika Hilton (PSOL-SP) acionou o Ministério Público contra o streamer e a plataforma Kick.
  • Posicionamento de GH: O streamer pediu desculpas, mas manteve críticas à roupa do ator e afirmou que “não mudou sua opinião”; posteriormente, chorou ao pedir desculpas novamente.

Frases que marcaram o caso:

  1. “Homofobia não é entretenimento.” – João Victor Gonçalves
  2. “Por que você estava com medo de ser roubado? Por causa da minha cor? É porque eu sou preto?” – GH Rell RJ
  3. “Impunes não vão ficar, homofobia é crime.” – João Victor Gonçalves
  4. “Na declaração reproduzida, João Victor não atribui o medo à cor de GH. Essa associação aparece na interpretação feita pelo próprio streamer.” – Jornal de Brasília
  5. “Se eu errei, eu peço desculpas porque nós é ser humano e nós erra.” – GH Rell RJ
  6. “O seu público tá vindo me atacar de todas as formas aqui, racista, xingando minha família e sendo preconceituoso comigo.” – GH Rell RJ

Com informações de G1, CBN, CNN Brasil, UOL, Folha de S.Paulo, O Tempo, Extra, Revista Fórum, Jornal de Brasília, Diário do Centro do Mundo, Metrópoles, Terra, Veja, O Dia, Purepeople, Capricho, Vogue Brasil, iG Gente, Portal Bandeirantes, Midiamax, Dust2, Brasil 247, Diário do Pará, Nsctotal, O Liberal, Estado de Minas, Alô Alô Bahia, Portal Área VIP e Agência Cearense ■

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