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O futebol, mais uma vez, provou que nenhuma equação é capaz de capturar sua imprevisibilidade. O economista alemão Joachim Klement, celebrado como o “guru das Copas” por ter acertado os campeões das três últimas edições do Mundial — Alemanha em 2014, França em 2018 e Argentina em 2022 —, viu seu sofisticado modelo matemático ruir em menos de 24 horas. Com apenas quatro dos 16 jogos da segunda fase encerrados, duas de suas principais projeções foram por terra: a eliminação do Brasil para o Japão e o título da Holanda.
Desenvolvido a partir de variáveis incomuns no universo do futebol, como PIB per capita, tamanho da população e temperatura, o modelo de Klement projetava um caminho quase certeiro para a seleção holandesa. A previsão indicava a Holanda erguendo o troféu no Estádio MetLife, em Nova Jersey, após vencer Portugal na final. O roteiro, no entanto, foi rasgado pela seleção de Marrocos. Em partida disputada no Estádio BBVA, em Guadalupe, Monterrey, no México, os africanos eliminaram a Holanda nos pênaltis (3 a 2), após empate por 1 a 1 no tempo normal e na prorrogação.
A outra previsão que desabou foi a que causava maior desconforto entre os torcedores brasileiros. Klement não apenas previra o confronto entre Brasil e Japão na segunda fase como também apostava na vitória japonesa, classificando o resultado como “provavelmente uma das maiores zebras da história da Copa do Mundo”. Durante grande parte do jogo, nesta segunda-feira (29/06), em Houston, a profecia pareceu se concretizar: o Japão abriu o placar. Mas Casemiro empatou e Gabriel Martinelli decidiu nos acréscimos, garantindo a virada brasileira por 2 a 1 e a classificação às oitavas de final.
O colapso das previsões aconteceu em sequência. Primeiro, a vitória brasileira sobre o Japão anulou a zebra prevista. Horas depois, a eliminação da Holanda para Marrocos enterrou de vez a aposta no título laranja. O próprio Joachim Klement reconheceu o fracasso de seu modelo. Em publicação nas redes sociais, o economista alemão admitiu que a realidade superou os cálculos: “Logo após o resultado do jogo contra o Japão, parece que o Brasil venceu as estatísticas mais uma vez. Está liberado acreditar”, afirmou, em referência à campanha publicitária do técnico Carlo Ancelotti.
Vale lembrar que o histórico de acertos de Klement é, de fato, notável. Ele acertou os campeões de 2014, 2018 e 2022, o que lhe rendeu o status de “oráculo” das Copas. No entanto, o próprio economista sempre alertou para os limites de seu trabalho. Em entrevistas, ele revelou que o projeto começou como um exercício para mostrar a arrogância dos economistas, que acreditam ser capazes de prever fatos sobre os quais não têm nenhuma indicação. “Como eu acertei três vezes seguidas, as pessoas, agora, acham que este modelo é invencível”, disse ele.
O episódio serve como um poderoso lembrete de que, por mais sofisticados que sejam os modelos probabilísticos, o futebol preserva uma zona de incerteza que escapa ao cálculo absoluto. Lesões, escolhas técnicas, pressão emocional, erros individuais, decisões arbitrais e momentos de inspiração alteram a lógica de qualquer projeção. O erro de Klement não invalida a ciência dos dados, mas expõe o risco de transformar estatística em profecia.
Enquanto o “guru” digere o colapso de suas previsões, a Copa do Mundo segue seu curso. O Brasil avançou, o Japão caiu, Marrocos sobreviveu e a Holanda deixou o torneio antes do previsto. Em apenas um dia, a realidade desmontou o enredo matemático e devolveu ao futebol sua essência mais fascinante: a imprevisibilidade.
Com informações de BBC Brasil, ge.globo, CNN Brasil, G1, Época Negócios, DM.com.br ■