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A derrota da Argentina por 1 a 0 para a Espanha na final da Copa do Mundo de 2026, no último domingo (19), desencadeou uma onda de ataques racistas e xenofóbicos contra brasileiros que vivem no país vizinho. O que começou como frustração esportiva se transformou em uma verdadeira caçada virtual, com exposição de dados pessoais, ameaças de morte, ofensas racistas e até mesmo agressões físicas registradas em solo brasileiro.
O estopim para a escalada de ódio foi uma fala de um comentarista da emissora argentina Crónica TV. Ao vivo, ele exibiu postagens de estudantes brasileiros que comemoravam o resultado da partida e disparou: “Eles vêm pra cá estudar de graça e são ingratos”. A declaração rapidamente viralizou e alimentou uma corrente de ódio nas redes sociais, sobretudo na plataforma X (antigo Twitter), onde usuários argentinos organizaram um movimento para expor perfis, endereços, números de documentos e outras informações pessoais de brasileiros que manifestaram apoio à Espanha ou fizeram piadas com a derrota argentina.
Os relatos colhidos por diferentes veículos de imprensa revelam um cenário de terror para dezenas de estudantes. A paulistana Lays Bressane, de 23 anos, que vive há quatro anos em Buenos Aires, foi uma das vítimas. Ela recebeu mensagens com ameaças explícitas: “Quando eu te vir na universidade, pode ter certeza que você vai sofrer. Vou bater na sua cabeça com um martelo”. Logo em seguida, chegou a foto de uma arma de fogo acompanhada da legenda “Na Argentina não brincamos”. A universitária contou que chegou a torcer pela Argentina durante boa parte da competição e foi ao jogo com a camisa da seleção local. “Mas não é sobre futebol, não. Porque até o jogo com a Jordânia eu torcia pra eles, até ver a quantidade de comentários racistas que fizeram com a gente”, desabafou. Lays também relembrou episódios anteriores de discriminação: “Já tinha passado por episódios assim, mas com a minha mãe, que é negra. Em restaurantes, não querem atender, tratam mal”. Com o endereço exposto nas redes, ela admite sentir medo: “Eu tô com medo. Meus pais estavam visitando e estão querendo mudar a passagem pra ficar aqui comigo”.
O pernambucano Fernando Seabra, de 31 anos, estudante de medicina na Fundación H. Barceló — instituição conhecida por receber um grande contingente de brasileiros —, descreveu o momento como uma “caça às bruxas”. Segundo ele, os grupos de estudantes foram tomados pela palavra “mono” (macaco, em espanhol), e a tensão cresceu nas últimas semanas. “Antes era ‘respeitem a Papá’ [alusão a Messi], vocês são apenas visitantes aqui’, agora é comentário de ‘macaco’”, relatou. Seabra afirmou que sua faculdade adotou medidas disciplinares e chegou a expulsar dois monitores após comentários considerados xenofóbicos.
Uma estudante de medicina ouvida pela CNN Brasil afirmou ter recebido mais de mil mensagens em um único dia, por SMS, ligações, e-mail e aplicativos. Ela contou que teve o próprio endereço, retirado de um documento argentino, exposto na internet. “Recebi ameaças de morte, de linchamento, de que vão me encontrar na rua e me matar. Até foto de arma recebi”, disse. “Minha família e eu estamos com medo até de sair de casa”. Outra brasileira, que estudou na Argentina desde 2022 e hoje vive no Paraguai, cancelou uma viagem que faria ao país após receber ataques por ter comemorado o título espanhol. “Passaram a me ameaçar de estupro, de morte, a dizer que, se me pegassem na rua, iam me matar”, afirmou à CNN. “Ameaçaram a minha família e mandaram e-mails para a minha antiga faculdade pedindo minha expulsão”.
Os ataques não se limitaram ao ambiente digital. Em solo brasileiro, a derrota da Argentina também provocou tumultos e cenas de violência. Em Armação dos Búzios, no Rio de Janeiro, centenas de pessoas acompanharam a decisão em um telão na Praça Santos Dumont. Após o apito final, grupos de brasileiros e argentinos se envolveram em uma confusão generalizada com socos, chutes e cadeiras arremessadas. A polícia precisou intervir com cassetetes, spray de pimenta e balas de borracha. Os confrontos se espalharam pela Rua das Pedras e avenidas próximas. Em um restaurante da cidade, uma torcedora argentina foi filmada proferindo ofensas racistas contra uma comerciante brasileira. Em outro episódio registrado em São Paulo, durante uma festa pós-jogo no bairro da Mooca, um brasileiro que torcia pela Argentina chamou um influenciador angolano de “macaquito”.
O racismo também atingiu profissionais de imprensa. O repórter William Talles, da Band, enviado especial a Buenos Aires para cobrir a final, foi chamado de “macaco” por um torcedor argentino enquanto gravava entrevistas após a partida. O homem olhou para a câmera, perguntou se a transmissão era ao vivo e, após ouvir uma resposta afirmativa, disse: “Isso é Argentina, macaco”. O jornalista só percebeu a gravidade da ofensa horas depois, ao revisar as imagens no hotel. A Band manifestou publicamente seu repúdio ao ataque.
A epidemia de racismo reacendeu o debate sobre as diferenças legislacionais entre Brasil e Argentina no combate à discriminação. Enquanto no Brasil a injúria racial foi equiparada ao crime de racismo — inafiançável e com pena de 2 a 5 anos de prisão, além de multa —, a lei argentina trata a discriminação prioritariamente na esfera civil, prevendo poucos meses de detenção apenas para casos específicos de pregação de superioridade racial. Essa disparidade tem sido apontada como um fator que contribui para a sensação de impunidade e para a perpetuação de episódios racistas envolvendo torcedores argentinos.
Ao longo de toda a Copa do Mundo de 2026, torcedores da Argentina protagonizaram episódios de racismo dentro dos estádios. A Fifa, inclusive, abriu investigação para apurar um possível ato de racismo contra o influenciador negro IShowSpeed. A final contra a Espanha, no entanto, parece ter funcionado como um catalisador, expandindo a hostilidade para além das arquibancadas e atingindo brasileiros inocentes que nada tinham a ver com a rivalidade em campo.
Até o momento, os estudantes brasileiros vítimas dos ataques não formalizaram queixa na polícia argentina. Muitos evitam se identificar publicamente por receio de retaliação. O medo de circular pelas ruas e frequentar as universidades tornou-se uma realidade para dezenas de jovens que vivem no país vizinho.
A escalada de violência simbólica e física escancara um problema estrutural que vai muito além do futebol. O que deveria ser uma celebração esportiva transformou-se em palco para a exibição de preconceitos enraizados, expondo a fragilidade das relações entre Brasil e Argentina e a urgência de políticas mais efetivas de combate ao racismo e à xenofobia na América do Sul.
Com informações de UOL, Revista Fórum, Correio 24 Horas, Contigo!, CNN Brasil, O Povo, Diário do Centro do Mundo, Brasil 247, G1 e O Globo ■