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Ex-assessor de Milei é alvo de nova investigação na Bolívia por supostos vínculos com o narcotráfico
Fernando Cerimedo, que já está preso preventivamente por tentativa de feminicídio contra a ex-companheira, agora enfrenta acusações de proteção a voos irregulares e de encobrir tráfico de drogas na região amazônica
America do Sul
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■   Bernardo Cahue, 27/08/2026

A situação judicial do consultor político argentino Fernando Cerimedo tornou-se ainda mais complexa nos últimos dias. A Fiscalização da Bolívia anunciou a abertura de uma terceira investigação contra o ex-assessor do presidente boliviano Rodrigo Paz e do argentino Javier Milei, desta vez por suspeita de envolvimento com o narcotráfico. O novo processo apura supostos vínculos do consultor com a circulação de pequenos aviões que transportavam substâncias controladas e com o encobrimento dessas operações ilegais.

Cerimedo, que já se encontra detido desde o dia 18 de agosto, teve a prisão preventiva decretada por 180 dias pela Justiça boliviana, inicialmente sob acusação de tentativa de feminicídio contra sua ex-companheira, a advogada e analista política Nadia Beller. A mulher sobreviveu a um ataque a tiros em um hotel na cidade de Santa Cruz de la Sierra, na noite de 17 de agosto, e desde então tem feito denúncias graves contra o ex-companheiro.

De acordo com informações do Ministério Público boliviano, as novas acusações contra Cerimedo estão diretamente relacionadas ao depoimento de Nadia Beller. Em seu relato às autoridades, ela mencionou supostas manobras ilícitas envolvendo o consultor e pessoas de seu entorno no departamento do Beni, região amazônica que faz fronteira com o Brasil.

O fiscal departamental do Beni, Alexander Mendoza, explicou em coletiva de imprensa que a investigação se concentra no município de Santa Ana, onde há suspeitas de que aeronaves de pequeno porte receberam cobertura operacional e institucional para realizar voos irregulares relacionados ao tráfico de drogas. “O caso que se abriu na Unidade de Substâncias Controladas é sobre a proteção que estaria sendo dada no município de Santa Ana em relação a voos irregulares. Estaria sendo dada cobertura a pequenas aeronaves presumivelmente vinculadas ao tráfico de substâncias controladas”, afirmou o procurador.

Segundo as investigações, o esquema envolvia a instalação de dispositivos de GPS e radares em aviões, que seriam usados como fachada para controlar operações aéreas e, na prática, permitir que aeronaves carregadas com drogas sobrevoassem o país impunemente. “A desculpa dele era que liberava as aeronaves para colocar radar e depois derrubá-las. Nunca me aceitou que recebeu dinheiro por corrupção, mas sim de forma dissimulada para colocar radar, derrubá-las e assim se livrar dos narcotraficantes”, declarou Beller à imprensa.

O procurador Mendoza ressaltou que, caso as suspeitas sejam confirmadas com elementos concretos de prova, ficará demonstrado que tanto funcionários públicos quanto civis estariam dando cobertura ao narcotráfico e a voos irregulares na região. A localidade de Santa Ana, onde os supostos crimes ocorreram, tem uma reputação historicamente ligada ao narcotráfico por ser uma área de vastas extensões de selva e pouca infraestrutura terrestre, o que facilita o tráfego aéreo e a instalação de pistas clandestinas em fazendas.

Além da nova acusação por narcotráfico, Cerimedo já responde a outros dois processos na Bolívia. Em Santa Cruz de la Sierra, ele é investigado por tentativa de feminicídio contra Beller e também por violência doméstica. Em La Paz, a Fiscalização apura suspeitas de enriquecimento ilícito que teriam causado prejuízo ao Estado boliviano. Durante as diligências desse caso, as autoridades localizaram quatro imóveis e um escritório atribuídos ao consultor argentino, e avaliam a possibilidade de apresentar também uma acusação por lavagem de dinheiro.

O novo inquérito sobre o narcotráfico, aberto no âmbito da Unidade de Substâncias Controladas, também se entrelaça com a investigação conhecida como “narcoencomendas”, que detectou o envio de 350 mil bolivianos (cerca de R$ 150 mil) a partir de Santa Ana de Yacuma, em maio deste ano, em uma operação que já envolve um piloto de aviação e três policiais.

Com este novo front, o estrategista digital argentino, que também atuou como consultor para o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro e é próximo do ex-deputado Eduardo Bolsonaro, acumula um complexo cenário processual na Bolívia, com investigações distribuídas em diferentes jurisdições. O escândalo já repercute em outras partes da região, e a presidente do México, Claudia Sheinbaum, chegou a classificar o caso como parte das “redes da direita internacional que buscam influir em todos os países”.

No Brasil, o deputado federal Rui Falcão (PT-SP) apresentou ao Supremo Tribunal Federal um pedido para que a Corte amplie as investigações sobre Cerimedo iniciadas na Bolívia e analise suas atividades no país, solicitando que a Polícia Federal trabalhe em conjunto com as autoridades bolivianas. Cerimedo foi indiciado pela Polícia Federal brasileira no inquérito que apurou a tentativa de golpe de Estado no Brasil, embora não tenha sido denunciado pela Procuradoria-Geral da República.

A defesa de Cerimedo, representada pela advogada Margarita Arce, nega todas as acusações. Ela rejeita que o consultor tenha ordenado o ataque contra Beller e acusa a ex-companheira de ter armado um autoatentado para desestabilizar o governo de Rodrigo Paz. As investigações, no entanto, seguem em andamento, e as autoridades bolivianas afirmam que novos detalhes serão divulgados à medida que as apurações avançarem.

Com informações de BBC News Mundo, El País, CNN Brasil, G1, Brasil 247, Opera Mundi, La Política Online, ABC.es, Tiempo Argentino ■

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