Siga nossas redes sociais | ![]() | Siga nossos canais |
A ofensiva da Globo contra a CazéTV atingiu um novo patamar de seletividade e contradição. A alegação técnica usada para justificar a recomendação do Conar e a investigação da Senacon é a de que a CazéTV estaria expondo o público a conteúdo publicitário abusivo de bets, incluindo a divulgação de odds (cotações de apostas) em tempo real durante as transmissões da Copa do Mundo.
Ocorre que a divulgação de odds por casas de apostas não é uma novidade no jornalismo esportivo mundial. Trata-se de uma tradição consolidada em países como Inglaterra e Estados Unidos, onde as cotações são parte integrante da cobertura esportiva, assim como as estatísticas de posse de bola ou os números de finalizações. E a Globo, que agora se apresenta como guardiã da ética contra a "exposição agressiva" das bets, sabe disso muito bem — porque sempre fez exatamente a mesma coisa.
A Globo e a "Tradição" das Odds no Jornalismo Esportivo
A hipocrisia do discurso da Globo salta aos olhos quando se examina sua própria trajetória. A emissora divulga odds em seus noticiários e programas esportivos há anos, tratando as cotações como informação legítima e relevante para o torcedor.
O portal ge.globo.com, por exemplo, mantém há tempos a coluna "Palpite ge", na qual apresentadores e comentaristas da casa dão seus palpites para as rodadas do Brasileirão — uma dinâmica que, na prática, reproduz o universo das apostas. O G1 e o Valor Investe, ambos do Grupo Globo, publicam regularmente matérias explicando o que são odds, como funcionam as cotações e qual a matemática por trás das apostas. Em maio de 2023, o próprio O Globo publicou uma matéria extensa intitulada "Máfia das apostas: entenda o que significam termos como odds, múltiplas e mercado de cartões", ensinando ao leitor, em detalhes, como funcionam as cotações.
Mais do que isso: a TV Globo exibe odds em tempo real durante suas transmissões esportivas. Em abril de 2025, a Betnacional — patrocinadora do futebol da Globo desde 2023 — estreou um formato inovador de exibição de odds em tempo real na TV aberta, durante a partida entre Brasil e Colômbia pelas Eliminatórias da Copa do Mundo. O contrato de renovação da parceria, válido para 2026, garante à Betnacional exclusividade para a veiculação de inserts de odds durante as partidas ao vivo transmitidas pela emissora. Os números das cotações aparecem diretamente na tela, permitindo que o público visualize as probabilidades de cada equipe em tempo real.
Ou seja: a Globo não apenas divulga odds em seus canais — ela as comercializa ativamente como um produto premium, cobrando de casas de apostas pelo espaço na tela durante seus jogos.
A Sociedade com a BetMGM e o Conflito de Interesses
A contradição se agrava quando se considera que o Grupo Globo não é apenas um veículo de anúncios de bets. Em agosto de 2024, a Globo firmou uma joint venture com a MGM Resorts International para lançar e operar a BetMGM no Brasil. A aliança une a gigante de Las Vegas em jogos de azar ao poder midiático da emissora, mirando um dos mercados que mais crescem no mundo. A operação brasileira nasceu de uma sociedade com a Globo Ventures, o braço de investimentos comandado por Roberto Marinho Neto. O garoto-propaganda da operação é Luciano Huck, que tem ligação comercial e de investimentos com os negócios de jogos do grupo.
A BetMGM começou a operar em 2025 e, em junho de 2026, a joint venture assumiu o controle total da Bingão do Brasil, empresa de vídeo-bingo online, ampliando a presença do grupo Globo para além das apostas esportivas e entrando em outros segmentos de jogos.
Diante desse cenário, a pergunta que se impõe é: como pode a Globo criticar a CazéTV por divulgar odds se ela mesma faz o mesmo em sua programação e, pior, é sócia de uma casa de apostas que compete diretamente com as anunciantes da CazéTV?
A Seletividade da Regulação
A resposta está na seletividade do cerco regulatório. Enquanto a CazéTV é alvo de recomendações liminares de suspensão do Conar e de investigação da Senacon, a Globo segue transmitindo odds em suas partidas e veiculando anúncios de bets em programas como o Big Brother Brasil, onde uma única edição exibe inserções, dinâmicas patrocinadas e comerciais de bets "de envergonhar o capeta", nas palavras da imprensa independente. Até hoje, o Conar nunca achou nada estranho nisso.
O levantamento da revista Meio & Mensagem contabilizou sete bets entre os patrocinadores das transmissões da Copa no Brasil, divididas entre CazéTV, Globo e SBT. No entanto, apenas a CazéTV está sendo investigada com esse rigor. A pergunta que fica é: por que a CazéTV, e não a Globo, que exibe odds e é sócia da BetMGM? A resposta parece estar na ameaça real que a CazéTV representa ao monopólio histórico da Globo na transmissão de futebol.
A Tradição que a Globo Quer Apagar
A divulgação de odds por casas de apostas é uma prática legítima e consolidada no jornalismo esportivo global. Na Inglaterra, a BBC e a Sky Sports mencionam odds em seus programas há décadas. Nos Estados Unidos, a ESPN e a Fox Sports integram as cotações à sua cobertura esportiva como parte natural da informação. O que a Globo tenta fazer é apagar essa tradição quando ela beneficia a concorrência, enquanto a mantém viva — e lucrativa — em seus próprios canais.
A CazéTV pode ter cometido excessos na forma como apresentou suas odds — e isso merece ser apurado com isenção. Mas a seletividade do cerco, somada ao conflito de interesses da Globo como sócia da BetMGM, transforma o que deveria ser uma questão de ética publicitária em uma suspeita de manobra anticompetitiva. Enquanto a regulação mira apenas o novo entrante, o gigante que também atua no mercado de apostas segue imune, protegido por seu poder midiático e sua influência sobre os órgãos de autorregulamentação.
A história do jornalismo esportivo no Brasil mostra que a Globo sempre ditou as regras do jogo. Agora que um concorrente ousou jogar com as mesmas regras — e com mais jogos —, o gigante tenta mudar o regulamento no meio da partida.
Com informações de O Globo, G1, Valor Investe, ge.globo.com, Diário do Centro do Mundo, Meio & Mensagem, Poder360, Portal da Propaganda, SBC Notícias, Marcas Mais, Bloomberg, Nasdaq, Global Gaming Insider e Natelinha.
■