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Dedo do meio de Lula enterrou confissão do perito que abastecia Malu Gaspar
Disparidade escancara o duplo padrão do jornalismo da Globo: o gesto obsceno de um presidente rende manchetes, mas a gravidade de um esquema montado dentro da PF para desgastar o Supremo é tratada como assunto menor
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■   Bernardo Cahue, 04/07/2026

Enquanto o Jornal Nacional e o G1 estamparam com destaque o dedo do meio do presidente Lula em evento oficial, a mesma emissora praticamente ignorou a revelação de que o perito João Cláudio Nabas confessou à Polícia Federal ser fonte da colunista Malu Gaspar — um caso que envolve vazamento de dados sigilosos, dossiês contra ministros do STF e o uso da máquina pública para fins escusos.

Na última sexta-feira (3), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) mostrou o dedo do meio durante um discurso no Palácio do Planalto. O gesto ocorreu enquanto ele rebatia a afirmação de que “pobre não gosta de coisa boa”. “Aqui para eles”, disse o presidente, enquanto exibia o dedo médio. “Nós gostamos de coisa boa. Nós queremos é tudo de primeira”. A cena, ocorrida em evento que anunciava investimentos de R$ 464,8 milhões em saúde, R$ 206,6 milhões em educação e entregas na habitação, foi imediatamente catapultada para o centro do noticiário.

O G1, portal da Globo, publicou matéria com chamada destacada, vídeo e reprodução do gesto em GIF. A repercussão foi ampla: a oposição, liderada por nomes como Flávio Bolsonaro e Romeu Zema, criticou duramente o presidente, e veículos como CNN, UOL, Folha e Poder360 replicaram a pauta com manchetes enfáticas. Em poucas horas, o “dedo do meio de Lula” tornou-se o assunto do dia — e, muito provavelmente, o carro-chefe do Jornal Nacional na noite de sexta, com forte competição com a pauta principal do momento: a Copa do Mundo FIFA.

O problema não está em noticiar o gesto. Presidente da República, em evento oficial, faz um movimento obsceno — é notícia, e ponto. O que incomoda — e incomoda profundamente — é o contraste brutal com o tratamento dado a outro caso, igualmente noticioso e de gravidade institucional muito maior, que envolve diretamente a própria Globo.

No mesmo período, a Polícia Federal aprofundava as investigações sobre o perito criminal João Cláudio Nabas, servidor da corporação há duas décadas e chefe do Núcleo Técnico-Científico (NUTEC) da PF em Vilhena, Rondônia. Nabas é alvo da 7ª fase da Operação Compliance Zero, sob suspeita de ter vazado informações sigilosas do chamado Caso Master. Segundo a apuração, ele produziu arquivos identificados como “Moraes.pdf” e “Toffoli e esposa.pdf” a partir do celular apreendido do banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, e os repassou à imprensa.

A revelação mais contundente, porém, veio à tona nos últimos dias: Nabas procurou uma delegada que atuava diretamente nas investigações e confessou manter uma relação antiga com a jornalista Malu Gaspar, colunista do jornal O Globo e da GloboNews. Segundo o ICL Notícias, a abordagem ocorreu inicialmente de forma presencial e, dias depois, foi retomada por mensagens, nas quais Nabas dizia ser fonte da colunista havia anos e sugeriu que a delegada compartilhasse dados relacionados ao inquérito. A delegada comunicou imediatamente o episódio aos superiores, e o relato passou a integrar os elementos que embasaram a operação contra o perito.

A Polícia Federal afirmou, em documento, que Nabas “de fato criou os documentos relacionados aos magistrados” e que “a análise dos metadados e conteúdos de tais manuscritos reforçou os indícios de que Nabas organizou e repassou à imprensa os dados sigilosos referentes às informações sobre os ministros do STF encontrados no celular apreendido de Daniel Vorcaro”. A corporação também sustentou que o perito “direcionou seus esforços em sentido contrário ao escopo precípuo das investigações, buscando, no material objeto de análise, supostos elementos desabonadores de ministros desta Suprema Corte, com o intuito comprovado de publicizar tais informações por meio da imprensa nacional”.

Em outras palavras: um servidor público, dentro da Polícia Federal, usou seu acesso a dados sigilosos para produzir dossiês contra ministros do Supremo e os entregou a uma colunista do principal jornal do país. E, quando confrontado, confessou a uma delegada que era fonte da jornalista e sugeriu que mais informações fossem compartilhadas.

Diante de um fato dessa magnitude — que envolve violação de sigilo funcional, uso político da investigação criminal e a mais alta corte do país sendo alvo de um esquema montado dentro da própria PF —, qual foi o espaço dedicado pelo Jornal Nacional e pelo G1 à confissão de Nabas e à sua relação com Malu Gaspar?

Praticamente nenhum.

Enquanto o dedo do meio de Lula ganhou manchetes, vídeos, GIFs e repercussão em tempo real, a revelação de que uma colunista da casa era alimentada por um perito que plantava provas contra ministros do STF foi tratada com silêncio sepulcral. O G1, até o momento, não deu o mesmo destaque ao caso — e o Jornal Nacional, que dedicara dias a fio às supostas revelações contra Alexandre de Moraes e Dias Toffoli quando os arquivos de Nabas vazaram, agora age como se o perito e sua confissão não existissem.

A hipocrisia é tão escancarada que fere os olhos. A cobertura do “dedo do meio” é um exemplo clássico de pauta-escândalo de baixo custo: um gesto, um vídeo, uma repercussão imediata nas redes, críticas da oposição. Não exige apuração, não exige contexto, não exige que a Globo olhe para o próprio umbigo. Já o caso Nabas-Gaspar exige justamente o contrário: exige que a emissora se pergunte como uma de suas principais colunistas recebeu informações sigilosas, se houve conivência ou estímulo, e qual o papel da Globo na amplificação de um material obtido por meios ilícitos.

Essas perguntas são desconfortáveis. E, para uma empresa que construiu sua reputação em cima do discurso da “imparcialidade” e do “compromisso com a verdade”, o silêncio é a resposta mais cômoda.

O colunista Eduardo Guimarães, do Brasil 247, sintetizou o paradoxo com precisão cirúrgica:

“Malu Gaspar e Lauro Jardim usaram informações oriundas de dados sigilosos extraídos ilegalmente pelo perito da PF João Nabas para noticiar contrato do escritório de Viviane Barci de Moraes com o banco Master e informações ligadas ao resort Tayayá. Agora, o mesmo perito Nabas é investigado por criar arquivos a partir do celular de Vorcaro, sugerir vazamento à imprensa e produzir relatórios ilegais. Apesar disso, ninguém cogita apreender celulares ou computadores de Malu Gaspar e Lauro Jardim, investigá-los por ‘recebimento de dados roubados’ ou fazer buscas em suas redações. O sigilo da fonte jornalística é invocado como proteção absoluta.”

O autor prossegue, apontando o duplo padrão:

“Para Moraes e Toffoli, os dados vazados viram ‘munição jornalística legítima’. Para Malu e Lauro, até a mera suspeita de envolvimento com o perito corrupto é intocável. Na prática, alguns jornalistas têm mais direitos e proteções que os próprios ministros do Supremo.”

A crítica é incisiva, mas necessária. Não se trata de cercear a imprensa ou de violar o sigilo da fonte — princípio basilar do jornalismo. Trata-se de reconhecer que a fonte, neste caso, não era um cidadão comum com acesso a uma informação relevante, mas um servidor público que violou a lei, produziu dossiês seletivos e confessou à PF que atuava como fonte de uma colunista da Globo. Há uma diferença abissal entre proteger uma fonte legítima e acobertar um esquema criminoso do qual o próprio veículo se beneficiou.

O silêncio da Globo, neste contexto, não é apenas uma omissão editorial — é uma tomada de posição. Ao enterrar o caso Nabas-Gaspar e amplificar o gesto de Lula, a emissora sinaliza claramente quais narrativas lhe interessam e quais prefere abafar. Não é jornalismo. É agenda.

O contraste é tão grotesco que resume, em um único parágrafo, o estado atual do grande jornalismo brasileiro: o dedo do meio de Lula tem mais destaque do que a gravidade de um esquema montado dentro da Polícia Federal para derrubar ministros do STF, com a participação de uma colunista da casa.

Enquanto isso, o país segue sem respostas para perguntas fundamentais: quem mais, dentro da PF, atuou em conluio com Nabas? Até onde vai a relação entre o perito e a colunista? A Globo sabia que as informações vinham de um servidor que as produziu ilegalmente? E, principalmente: por que o Jornal Nacional, que dedicou duas semanas às denúncias contra Toffoli e Moraes quando os arquivos de Nabas vazaram, agora se recusa a dedicar cinco minutos à confissão do próprio perito de que era fonte de sua colunista?

A resposta, infelizmente, é óbvia: porque, agora, o tiro saiu pela culatra — e a Globo prefere fingir que nada aconteceu.

O que o contraste revela:

  • Destaque máximo para o gesto de Lula: O dedo do meio virou manchete no G1, com vídeo, GIF e repercussão em tempo real. A oposição usou o episódio para atacar o presidente, e a pauta dominou o noticiário de sexta-feira.
  • Silêncio absoluto sobre Nabas e Malu Gaspar: A confissão do perito à PF, o vazamento de dados sigilosos e a relação com a colunista da Globo foram tratados como assunto menor — quando não ignorados completamente.
  • Duplo padrão editorial: Quando os arquivos de Nabas contra Moraes e Toffoli vazaram, a Globo dedicou dias de cobertura. Quando se descobriu que o perito era fonte de sua própria colunista, o silêncio foi a regra.
  • Proteção seletiva do sigilo da fonte: O princípio é invocado para blindar jornalistas, mas a mesma lógica não se aplica aos ministros do STF, cujos dados vazados viram “munição jornalística”.
  • Agenda política clara: A emissora prioriza pautas que desgastam o governo Lula e o campo progressista, enquanto abafa escândalos que envolvem seus próprios quadros e aliados.

O jornalismo não pode ser refém do constrangimento. A função precípua da imprensa é informar, mesmo — e especialmente — quando a informação incomoda a própria redação. Ao escolher o silêncio sobre o caso Nabas-Gaspar e o estardalhaço sobre o dedo de Lula, a Globo não está fazendo jornalismo. Está, isso sim, fazendo política — e, pior, escondendo a sujeira debaixo do tapete.

O dedo do meio de Lula pode até ser deselegante, apesar de compreensível. Mas o silêncio da Globo sobre um esquema de vazamento de dados montado dentro da PF, com a participação de sua própria colunista, é muito mais obsceno.

Com informações de G1, Diário do Centro do Mundo, ICL Notícias, Brasil 247, Revista Fórum, Estadão, Poder360, CNN Brasil, UOL, Folha de S.Paulo ■

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