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O futebol sempre foi espelho da sociedade – com suas paixões, suas contradições e, infelizmente, suas mazelas. Mas o que se vê em julho de 2026, a meio caminho entre a Copa do Mundo nos Estados Unidos e o Campeonato Carioca, é um retrato grotesco de um esporte que se tornou moeda de troca para dois dos mais poderosos vetores de corrupção da atualidade: a geopolítica de ocasião e o capital especulativo das apostas. De um lado, a Casa Branca intervém diretamente na Fifa para salvar um jogador expulso. De outro, a Polícia Civil do Rio desmonta, em tempo real, um esquema em que cartões amarelos são commodities financeiras. E, entre os dois polos, o fantasma do empresário que se autointitulou “Rei do Rebaixamento” – e provou que a manipulação tem dono, método e lucro bilionário.
O que une esses três episódios aparentemente desconexos é uma verdade incômoda: o futebol brasileiro e mundial estão reféns de interesses externos que pouco se importam com a integridade do jogo. A bola, no fundo, é apenas o objeto que gira enquanto o dinheiro e o poder decidem o resultado.
O telefonema de Trump: quando a política compra o apito final
O caso mais escandaloso – e também o mais emblemático do poder político sobre o esporte – aconteceu nas vésperas das oitavas de final da Copa do Mundo de 2026. O atacante norte-americano Folarin Balogun, de 25 anos, artilheiro da seleção dos EUA no Mundial com três gols, foi expulso pelo árbitro brasileiro Raphael Claus na partida contra a Bósnia e Herzegovina, após pisão no tornozelo do zagueiro Tarik Muharemovic. O lance, revisado pelo VAR, resultou em cartão vermelho direto e suspensão automática para o jogo contra a Bélgica, nas oitavas.
O que aconteceu em seguida, porém, não tem nada a ver com futebol. Segundo reportagens da Reuters, Associated Press e The New York Times, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ligou diretamente para o presidente da Fifa, Gianni Infantino, ainda na quarta-feira do jogo, para pedir a revisão da punição. No domingo (5), a Fifa simplesmente anulou a suspensão, com base no Artigo 27 do Código Disciplinar, que permite suspender a aplicação de uma sanção – e colocou Balogun em “período probatório” de um ano.
Trump não escondeu a interferência. Em sua rede social Truth, ele agradeceu: “Obrigado à Fifa por fazer o que era certo e reverter uma grande injustiça!”. A Bélgica, adversária direta dos EUA nas oitavas, reagiu com fúria. A Real Associação Belga de Futebol declarou-se “surpresa” e afirmou que a decisão está em “direta contradição” com o regulamento da competição, reafirmado a todas as seleções em maio.
A promiscuidade entre Infantino e Trump, aliás, já não é novidade. O presidente da Fifa entregou a Trump o recém-criado Prêmio da Paz durante o sorteio da Copa, e o líder americano tem presença confirmada por Infantino na entrega da taça ao campeão. A Fifa insiste que a Casa Branca “não poderia influenciar seu canal disciplinar independente” – mas o fato de um chefe de Estado ligar para o presidente da entidade e, horas depois, a punição ser revista, é mais do que um indício: é uma confissão de fragilidade institucional.
Não se trata de defender a expulsão ou o jogador. Trata-se do princípio. Se um cartão vermelho pode ser anulado por um telefonema presidencial, o que resta do regulamento? O que resta da isonomia entre seleções? A mensagem é clara: o futebol, na alta roda, é refém do poder geopolítico – e a Fifa, longe de ser uma guardiã da ética, é apenas uma cortesã do poder.
A farra das bets no Rio: o cartão amarelo como ativo financeiro
Enquanto Trump e Infantino trocam gentilezas na Copa, o futebol de base – o que alimenta a paixão popular – sangra por outro flanco: o das apostas esportivas. Na manhã desta segunda-feira (6), a Polícia Civil do Rio de Janeiro deflagrou a terceira fase da Operação VAR, que investiga manipulação de resultados na Série B do Campeonato Carioca e lavagem de dinheiro. O alvo principal: o zagueiro Luiz Gustavo Lopes dos Santos, que à época jogava pela Portuguesa-RJ e hoje está no Olaria, e o zagueiro Sidney de Freitas Pages, o Sidão, então no Nova Iguaçu e agora no Dibrados F.C.
A suspeita é tão cínica quanto precisa: Luiz Gustavo teria recebido deliberadamente um cartão amarelo na partida entre Portuguesa e Nova Iguaçu, em 7 de fevereiro deste ano, no Estádio Luso-Brasileiro, pela 6ª rodada da primeira fase do Carioca. O lance em si não chamaria atenção – um amarelo por falta “temerária”, segundo a súmula –, não fosse o alarme de integridade disparado pela Unidade de Integridade da CBF e pela Ferj: um volume anormal de apostas casadas nos cartões de ambos os jogadores.
Os números são estarrecedores. Um grupo pequeno de apostadores desembolsou cerca de R$ 40 mil e faturou aproximadamente R$ 300 mil – um lucro de 650% em poucos minutos. Todas as apostas foram registradas em contas conectadas ao mesmo endereço de IP, segundo a investigação preliminar, que já usa inteligência financeira para cruzar dados. Em junho, o Tribunal de Justiça Desportiva do Rio (TJD-RJ) condenou os dois atletas a 365 dias de suspensão e multa de R$ 1 mil, além de multar o presidente da Portuguesa, Marcelo Gonçalves, e o supervisor Muniz em R$ 5 mil cada, por obstrução e falta de cooperação.
O que esse caso revela, porém, vai muito além de dois jogadores afoitos. Ele escancara a banalização da manipulação em camadas menos visíveis do futebol. Uma pesquisa do ge com mais de 100 jogadores de clubes menores do Carioca apontou que quase 15% dos atletas admitiram já ter recebido propostas para manipular resultados ou lances. Quinze por cento. É a taxa de infiltração de um vírus que, se não for combatido com rigor, tornará o futebol de base um mero palco para apostadores.
E aqui está a perversidade do sistema: as plataformas de apostas lucram com o volume de transações, as federações reagem tardiamente, e os atletas – especialmente os de menor salário e carreira instável – são os elos mais frágeis e mais explorados dessa corrente. A manipulação não é um desvio; é, para muitos, uma tábua de salvação financeira disfarçada de “oportunidade”.
O “Rei do Rebaixamento”: quando o empresário vira o dono do resultado
Se os casos de Trump e do Carioca são faces da mesma moeda, o empresário William Pereira Rogatto é a cola que une tudo – e prova que a manipulação no futebol brasileiro é um negócio bilionário, organizado e impune por décadas. Autointitulado “Rei do Rebaixamento”, Rogatto confessou, em depoimento à CPI da Manipulação de Jogos e Apostas Esportivas do Senado, em outubro de 2024, que rebaixou 42 times de futebol e lucrou cerca de R$ 300 milhões com o esquema. “Rebaixei 42 times e sou conhecido como rei do rebaixamento, mas não dá para ganhar dinheiro sem rebaixá-los. Não estou matando ninguém, roubando ninguém, o sistema é falho. Estou indo contra o sistema”, declarou, com uma frieza burocrática que assusta.
Rogatto não apenas confessou – ele detalhou o método: comprava árbitros, jogadores, dirigentes e presidentes de clubes. Colocava atletas em times com dificuldade financeira e, a partir daí, manipulava resultados para lucrar com apostas. Em Brasília, usou o Santa Maria como laboratório para rebaixar o clube no Candangão de 2024 – e foi condenado, em abril de 2026, a 13 anos e seis meses de prisão por fraude esportiva e associação criminosa. Seu braço direito, Amauri Pereira do Santos, pegou 11 anos e dez meses; dois atletas envolvidos foram condenados a sete anos.
O que Rogatto revelou, no entanto, é a ponta de um iceberg que a CPI mal começou a mapear. Ele afirmou ter atuado em todos os estados brasileiros e disse que as mesmas pessoas que trabalharam para ele também atuaram contra o Botafogo de John Textor – ecoando as denúncias do empresário americano sobre manipulação no Brasileirão. Sua prisão pela Interpol em Dubai, em novembro de 2024, e sua extradição para o Brasil em setembro de 2025, foram cenas de um thriller que, infelizmente, é a realidade cotidiana do futebol nacional.
Manipulação política e financeira: dois lados da mesma corrupção
À primeira vista, Trump, os jogadores do Carioca e Rogatto parecem pertencer a universos distintos. Mas há um fio condutor: em todos os casos, o resultado do jogo – ou de um lance – é subordinado a interesses externos. No caso de Trump, o interesse é geopolítico e eleitoral: a Copa é em casa, e a seleção americana é um símbolo de unidade nacional. No caso do Carioca, o interesse é financeiro e especulativo: o cartão amarelo vira um ativo de risco, e o jogador, um funcionário do esquema. No caso de Rogatto, o interesse é sistêmico: ele não manipulava um jogo, mas ecossistemas inteiros de competições, com a conivência – ativa ou omissa – de clubes, federações e até arbitragem.
O que todos esses episódios têm em comum, também, é a falência dos mecanismos de controle. A Fifa, que deveria ser a guardiã da integridade, curva-se ao telefone de um presidente. A Ferj e a CBF, que recebem alertas de integridade, demoram a agir e, quando agem, as punições são tímidas diante do dano causado. E o Judiciário, embora tenha condenado Rogatto, ainda patina para tipificar com clareza a manipulação de eventos esportivos como crime hediondo – o que permitiria penas mais severas e menor chance de recursos protelatórios.
Trata-se de regulamentar com rigor e de exigir transparência. As casas de apostas precisam ser obrigadas a compartilhar alertas de integridade em tempo real – e não apenas quando o estrago já foi feito. A Fifa precisa revisar seu código disciplinar para impedir que um telefonema presidencial anule uma decisão de campo. E os clubes precisam educar seus atletas, não apenas afastá-los quando a corda arrebenta.
O futebol sempre foi uma paixão popular. Mas, quando a política e o dinheiro decidem o que acontece dentro das quatro linhas, a paixão vira mercadoria, e o torcedor, mero espectador de um teatro cujo roteiro já foi escrito nos bastidores. Que os casos de Trump, da Operação VAR e do “Rei do Rebaixamento” sirvam de alerta final: ou o futebol se reinventa com ética e transparência, ou continuará a ser o esporte mais manipulado do mundo – não por acaso, mas por decisão de quem deveria protegê-lo.
Com informações de G1, ge.globo, CNN Brasil, UOL, Folha de S.Paulo, Veja, ESPN, Terra, O Globo, Poder360, SBT News, Metrópoles, Tempo Real RJ, O Dia, ndmais, CartaCapital, Band, Jovem Pan, Infomoney, Correio Braziliense, Folha Vitória, Gazeta do Povo, RFI, e PBS ■