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O preço da aposta: vidas destruídas, famílias arruinadas e o lucro bilionário das emissoras
O Brasil, que nunca teve cultura de apostas fora das lotéricas e do jogo do bicho, assiste agora a uma epidemia silenciosa — patrocinada por gigantes da comunicação que acumulam lucros enquanto corpos e sonhos são soterrados
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■   Bernardo Cahue, 29/06/2026

O tenente da Polícia Militar de Goiás Danilo Lopes Negrão era, segundo a viúva, “um homem incrível, honrado, provedor, trabalhador, honesto”. Começou a apostar durante a Copa do Mundo de 2022. Em setembro de 2023, aos 41 anos, tirou a própria vida. Deixou uma filha de cinco anos. Deixou também uma dívida de quase R$ 1 milhão, contraída com bancos, amigos e agiotas. Sua viúva, a enfermeira Raquel Maria, só descobriu a extensão do endividamento após a morte do marido, ao encontrar no computador dele uma planilha com os nomes de todos os credores. “Ele entrou numa depressão porque estava devendo muito dinheiro e viu que estava perdendo a dignidade dele como homem. Então, ele foi perdendo a vontade de viver”, afirmou ela. A família ainda não conseguiu vender a casa onde morava em Goiânia — pendências judiciais bloqueiam o imóvel. “A tragédia é real, é uma tragédia anunciada”, alertou Raquel em vídeo que viralizou.

A história de Danilo não é isolada. Em dezembro de 2025, o auditor fiscal Otacílio Prates, de 46 anos, também se suicidou. Só então sua irmã, a advogada e auditora Juliana Prates, descobriu que ele estava viciado em apostas online. Otacílio acumulou uma dívida de aproximadamente R$ 1,5 milhão. Tinha seis empréstimos consignados e mais de 15 cartões de crédito. Na carta que deixou, dizia que havia perdido o sentido da vida e todo o dinheiro. Deixou esposa e uma filha de seis anos. “Só naquele dia, ele tinha apostado R$ 109 mil”, contou Juliana.

Em Fortaleza, a extensionista de cílios Assíria Macêdo, de 29 anos, perdeu duas casas e o casamento por causa do vício em apostas online. Acumulou uma dívida de cerca de R$ 50 mil, incluindo valores tomados com agiotas. Seus pais, ambos idosos, venderam os imóveis que tinham e um veículo para tentar ajudá-la. A família passou a morar de favor. O marido tentou ajudá-la a quitar os débitos, mas ela escondia a verdade e voltava a jogar. O casal se separou. Assíria relatou ansiedade intensa, privação de sono e medo constante — ameaças de agiotas a impedem até de sair de casa. “Hoje eu sei que estou doente e preciso de ajuda”, afirmou.

Em Campinas (SP), uma mãe que prefere não se identificar descobriu que o filho, de apenas 19 anos, perdeu cerca de R$ 20 mil em apostas online. O jovem pediu R$ 6 mil emprestado à mãe, dizendo ser para um curso — era para apostar novamente. Quando confrontado, começou a chorar e admitiu: “mãe, eu tô viciado”. “A cada passo que ele ganhava, dois ele perdia. É um vício que só quem passa por isso mesmo sabe”, desabafou a mãe.

Em Goiás, uma diarista acumulou dívida de R$ 6 mil por causa do vício em jogos online, impulsionada por uma “sensação desenfreada” de continuar apostando. Em São Paulo, um dentista de 45 anos foi interditado judicialmente pela própria família após acumular mais de R$ 400 mil em dívidas. Casado e pai de dois filhos, ele admitiu: “Na prática, eu roubei o dinheiro dos meus filhos para apostar”. Chegou a resgatar a previdência das crianças e gastar o valor em poucas horas em plataformas digitais. O pai dele descobriu que o apartamento da família fora colocado em risco sem o conhecimento da esposa.

Em todo o país, os divórcios motivados pelo vício em apostas se multiplicam. A advogada Audrey Cardoso Scattolin, de Americana (SP), relatou à BBC News Brasil que, em 2022 e 2023, cerca de 80% dos casos de seu escritório envolviam o “jogo do tigrinho” ou outras plataformas de apostas. Há relatos de maridos que venderam a casa da família, que pararam de brincar com os filhos, que se tornaram ausentes e mentirosos. “A mente de um jogador fica obscura”, confessou um deles à BBC.

Os números são estarrecedores. Quase 11 milhões de brasileiros estão em risco de saúde mental e financeira devido a apostas, segundo estudo citado pela BBC. Uma pesquisa do Procon-SP com 251 apostadores revelou que 71% tiveram perdas financeiras e 39% possuem dívidas por causa dos jogos. O Banco Central divulgou que beneficiários do Bolsa Família gastaram R$ 3 bilhões em sites de apostas somente em agosto de 2024 — o equivalente a 21,2% dos recursos distribuídos pelo programa no mesmo mês. 24 milhões de brasileiros fizeram ao menos uma transferência para casas de apostas desde janeiro daquele ano.

Para a psicóloga Sabrina Amaral, o cenário de dívidas pode levar à “vulnerabilidade psicológica” e gerar transtorno de ansiedade, ataques de pânico e ideação suicida. O vício em apostas altera o funcionamento do cérebro de forma semelhante a outras dependências químicas. A Organização Mundial da Saúde reconhece a ludopatia como um transtorno mental — uma dependência comportamental com alto impacto na saúde.

O agravante é que esse tsunami de destruição não ocorre por acaso. Ele é alimentado por uma avalanche publicitária que transformou o futebol, a televisão e as redes sociais em vitrines permanentes das casas de apostas. E, nesse ponto, a hipocrisia do sistema atinge seu ápice: as mesmas emissoras que agora se dizem preocupadas com a ética publicitária contra a CazéTV são, elas próprias, sócias ou controladoras de plataformas de apostas.

Em agosto de 2024, o Grupo Globo anunciou uma joint venture com a norte-americana MGM Resorts International para criar a BetMGM no Brasil. A parceria reúne a experiência internacional da MGM com o alcance monumental do Grupo Globo, que atinge cerca de 70 milhões de pessoas por dia. A licença para operar foi concedida pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda em dezembro de 2024, com validade de cinco anos e pagamento de outorga de R$ 30 milhões. No arranjo societário, a MGM detém participação majoritária, enquanto o Grupo Globo figura como sócio minoritário. A BetMGM começou a operar em 2025.

A Globo não está sozinha. O SBT, do Grupo Silvio Santos, também anunciou sua própria casa de apostas, e a Band seguiu o mesmo caminho. Enquanto isso, a CazéTV — que não tem participação em nenhuma bet — é alvo de recomendação do Conar para suspender anúncios de patrocinadores, sob a justificativa de proteção ao consumidor. A seletividade é escandalosa: a Globo divulga odds em seus noticiários e transmissões esportivas há anos, e seu portal ge.globo.com mantém a coluna “Palpite GE”, na qual comentaristas dão seus palpites para as rodadas — uma dinâmica que reproduz o universo das apostas. A TV Globo exibe odds em tempo real durante as partidas da Seleção e do Brasileirão, em parceria com a Betnacional. Mas, quando a CazéTV faz o mesmo, vira “crime”.

O Brasil nunca teve uma cultura de apostas generalizada fora das instituições reguladas pelos estados — como as loterias da Caixa Econômica Federal — e da informalidade do jogo do bicho, que sobrevive há mais de 130 anos como uma tradição popular, ainda que ilegal. Os cassinos são proibidos no país desde 1946. O que estamos vendo agora é a construção artificial de um mercado bilionário, impulsionado por uma enxurrada de publicidade e pela regulamentação apressada das apostas de quota fixa (Lei 13.756/2018 e Lei 14.790/2023). Não é uma tradição que floresceu organicamente — é um negócio que foi plantado, regado e fertilizado com o dinheiro e a influência das maiores corporações de mídia do país.

Há quem tenha enxergado a gravidade do problema a tempo. O influenciador Felipe Neto, que divulgou a casa de apostas Blaze por cerca de dez meses em 2023, recuou. Em outubro de 2024, classificou o período em que promoveu os jogos como “o maior erro da minha vida, disparado”. Ele passou a defender publicamente a proibição dos cassinos online, comparando o sistema a algo tão predatório quanto o vício em drogas. “Considero o maior erro da minha vida”, disse. Felipe Neto entendeu que a indústria das bets não é entretenimento — é uma máquina de moer vidas.

As histórias de Danilo, Otacílio, Assíria, do dentista, do jovem de Campinas e da diarista não são exceções. São o retrato de uma epidemia que já ceifou dezenas de milhares de famílias e que, silenciosamente, continua a ceifar. Cada aposta é uma roleta-russa: para cada ganhador que aparece nos comerciais, milhares perdem tudo o que têm — e muitas vezes a própria vida.

Enquanto os conglomerados de mídia acumulam lucros com suas participações acionárias em casas de apostas, enquanto a publicidade de bets inunda a TV aberta e as redes sociais, o poder público assiste, os órgãos reguladores atuam com seletividade e as famílias pagam o preço — em dinheiro, em saúde mental e em luto. A pergunta que fica é: até quando o lucro de uns será financiado pelo desespero de outros?

  • O tenente Danilo Lopes Negrão (PM-GO) acumulou dívida de quase R$ 1 milhão em apostas e cometeu suicídio em 2023, deixando filha de 5 anos.
  • O auditor Otacílio Prates (BA) acumulou dívida de R$ 1,5 milhão e também se suicidou em dezembro de 2025.
  • Assíria Macêdo (CE) perdeu duas casas, o casamento e acumulou dívida de R$ 50 mil com agiotas.
  • Jovem de 19 anos em Campinas perdeu R$ 20 mil e pediu dinheiro emprestado à mãe para continuar apostando.
  • Dentista de 45 anos foi interditado pela família após dívida de R$ 400 mil; admitiu ter roubado a previdência dos filhos.
  • O Brasil nunca teve cultura de apostas fora das lotéricas da Caixa e do jogo do bicho; cassinos são proibidos desde 1946.
  • O Grupo Globo é sócio da BetMGM, em parceria com a MGM Resorts, desde agosto de 2024.
  • Felipe Neto classificou sua divulgação da Blaze como “o maior erro da minha vida” e defende a proibição dos cassinos online.

Com informações de Estadão, Poder360, G1, UOL, BBC News Brasil, Correio Braziliense, O Globo, DW Brasil, Meio & Mensagem, F5 - Folha de S.Paulo, Portal do Holanda, Rededenoticias.com, Notícias ao Minuto, Migalhas, Valor Econômico, Lance!, RD1, e IBJR■

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