Siga nossas redes sociais | ![]() | Siga nossos canais |
O dia 16 de junho de 2026 ficará marcado como uma terça-feira de goleada dupla no Brasil. No plenário da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, o placar foi de 4 a 0 – unanimidade – para condenar o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL) a 4 anos e 2 meses de reclusão em regime semiaberto, além de inelegibilidade por oito anos e perda do cargo de escrivão da Polícia Federal. Enquanto nos campos da América do Norte a Seleção Brasileira sua a camisa em busca do hexa, outro placar silencioso se desenha nas lojas: a tradicional amarelinha, transformada em símbolo político pela família Bolsonaro, viu suas vendas minguarem diante da ascensão da camisa azul – o segundo uniforme da seleção, livre da pecha partidária.
O crime que tirou Eduardo Bolsonaro do jogo eleitoral foi grave e escancarado. Segundo a denúncia da Procuradoria-Geral da República, o então deputado atuou junto ao governo Donald Trump para articular sanções contra o próprio país – o "tarifaço" contra as exportações brasileiras, a revogação de vistos de oito ministros do STF e a aplicação da Lei Magnitsky contra Alexandre de Moraes. O objetivo, comprovado por farto material probatório – vídeos, postagens e mensagens –, era coagir o Judiciário e livrar o pai, Jair Bolsonaro, da condenação por tentativa de golpe. "No intuito de beneficiar seu próprio pai, a atividade criminosa do então deputado Eduardo Bolsonaro prejudicou todo o país", declarou o ministro relator Alexandre de Moraes.
O placar unânime de 4 a 0 – com os votos de Moraes, Zanin, Cármen Lúcia e Flávio Dino – não deixou margem para dúvidas. A ministra Cármen Lúcia foi direta: "Há de fato uma tentativa de descredibilização do Poder Judiciário para enfraquecê-lo". Flávio Dino completou: "Poucos países do mundo têm hoje a intensidade, a repetição da agressividade contra a sua Corte Suprema como acontece no Brasil". A goleada no tribunal não foi apenas jurídica – foi um recado contundente de que a estratégia de subordinar os interesses nacionais a ambições familiares encontrou seu limite.
Enquanto o patriarca da família via seu filho mais novo ser expulso do tabuleiro político por pelo menos 12 anos e 2 meses – prazo em que Eduardo ficará inelegível, contado a partir do cumprimento integral da pena –, o senador Flávio Bolsonaro tentava, nas arquibancadas da Copa, resgatar a amarelinha como trincheira eleitoral. Dias antes do início do Mundial, Flávio convocou seus apoiadores a vestirem a "camisa do Bolsonaro" para torcer pela seleção. "A gente vai botar a camisa do Bolsonaro, que vocês estão vestindo aí, e torcer pela nossa seleção", declarou o senador em agenda no Pará. A tentativa de apropriação política do símbolo máximo do futebol brasileiro, no entanto, produziu o efeito inverso.
O mercado respondeu com a frieza dos números. Enquanto a camisa azul – segundo uniforme da seleção, lançado pela Jordan Brand – respondia por expressivos 29,33% das buscas online, a tradicional amarelinha via seu prestígio ser corroído pela hiperpolitização. Especialistas de marketing já haviam alertado: "Quando parece forçado, é rejeição imediata". A tentativa da família Bolsonaro de transformar a amarelinha em um uniforme partidário – numa disputa simbólica com o presidente Lula, que também ensaiou usar a camisa – terminou por afastar justamente o público que a vestia por amor ao futebol, não por adesão a uma bandeira política.
A ironia é cruel e cristalina. Enquanto Eduardo Bolsonaro era goleado por 4 a 0 no STF – uma derrota que lhe custa a liberdade, o cargo público e qualquer pretensão eleitoral na próxima década –, a "camisa do Bolsonaro" que Flávio tentou empurrar para as arquibancadas amargava o encalhe nas lojas. O brasileiro, que sempre vestiu a amarelinha com orgulho de nação, parece ter dito "não" à tentativa de transformar o futebol em extensão do campo de batalha político-partidário. A camisa azul, mais neutra, menos contaminada, tornou-se o refúgio de quem quer torcer sem ter que escolher lado na política.
Há, nessa goleada dupla, uma lição que a família Bolsonaro insiste em não aprender: o Brasil não é propriedade privada de ninguém. Nem o Judiciário se curva a pressões externas, nem a camisa da seleção se curva a slogans eleitorais. O 4 a 0 do STF e o 4 a 0 das prateleiras – com a azul vencendo a amarela – são dois lados da mesma moeda: a rejeição popular ao projeto de transformar instituições e símbolos nacionais em ferramentas de salvação familiar.
Eduardo Bolsonaro, que vive nos EUA desde fevereiro de 2025 e sequer indicou advogados para se defender, chamou a decisão de "julgamento sem pé nem cabeça". A frase, no entanto, se aplica melhor à própria estratégia da família: tentar salvar um clã política e judicialmente à custa da soberania nacional e da paz institucional não tem "pé nem cabeça" – tem, isso sim, o selo da derrota. E, desta vez, a derrota veio em dobro: no tribunal e no comércio. Com gosto amargo de goleada.
Com informações de UOL, Agência Brasil, CNN Brasil, Correio Braziliense, G1, Gazeta do Povo, Valor Econômico, O Povo, CartaCapital e DW Brasil ■