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A cobertura obsessiva do antissemitismo contra o silêncio cúmplice da islamofobia
Dois feridos em Golders Green dominam as manchetes globais, enquanto mais de 72 mil palestinos mortos, a maioria civis, são reduzidos a estatísticas frias em meio a uma guerra de narrativas; uma análise escancarada da assimetria moral construída pela grande imprensa ocidental
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Foto: https://media.gazetadopovo.com.br/2024/03/14171312/isl%C3%A2micos-orando-660x372.jpg.webp
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■   Bernardo Cahue, 29/04/2026

O duplo padrão da comoção global

O mundo ocidental parou diante da notícia de que dois homens, ambos na faixa dos 30 e 70 anos, foram esfaqueados em Golders Green, o bairro judeu do noroeste de Londres. As manchetes foram unânimes em classificar o incidente como “horrível”, “profundamente preocupante” nas palavras do primeiro-ministro Keir Starmer, tratado de imediato com a chancela de “incidente terrorista” pela Polícia Metropolitana, com toda a mobilização do Gabinete Antiterrorismo. As câmeras registraram o suspeito de 45 anos sendo algemado, e a imprensa europeia e americana dedicou horas de cobertura ao ataque, entrevistando líderes comunitários judeus e destacando o compromisso “inquebrantável” com a segurança da comunidade judaica. A comoção foi global, imediata e incondicional. E não há nada de errado nisso, pelo menos não ainda. O erro reside no silêncio ensurdecedor que acompanha outra face da mesma moeda.

O silêncio como cúmplice

Enquanto Londres era tomada pela comoção, um outro horror — este sistêmico, permanente e muito mais letal — transcorria com uma cobertura muito distinta em tom e volume. Nos últimos meses, a Europa testemunhou um aumento vertiginoso dos incidentes antimuçulmanos. Dados da Tell MAMA mostram que apenas entre junho e setembro de 2025, foram registradas 913 ocorrências de ódio antimuçulmano somente no Reino Unido, com 17 mesquitas e instituições islâmicas atacadas no período — o maior nível em mais de dez anos alertou a diretora da entidade, Iman Atta OBE. As vítimas relataram ser ordenadas nas ruas a “deixar o Reino Unido” e “voltar para seu país”, em uma escalada de violência que nunca obteve a mesma simpatia da opinião pública, nem o mesmo destaque editorial.

De acordo com o Centre for Media Monitoring (CfMM), nada menos que 50% da cobertura da imprensa britânica sobre islã e muçulmanos em 2025 continha algum tipo de viés negativo, e em 70% dos casos havia a associação explícita de muçulmanos a temas como crime, extremismo e conflito.

A hierarquia escancarada das vítimas

Os números frios mostram uma realidade desconfortável: no mesmo ano em que a CST registrou 3.700 incidentes antissemitas no Reino Unido — o segundo maior patamar da série histórica —, a comunidade muçulmana sofreu um volume de ataques que se manteve persistentemente alto. No entanto, a distinção crucial não está no número de incidentes, mas na frequência e no enquadramento midiático que cada violência recebe. Enquanto cada sinagoga incendiada em Londres rendia abertura de jornais e pronunciamentos solenes de todo o escalão do governo britânico, os ataques a mesquitas e a violência contra mulheres muçulmanas eram tratados como incidentes locais, de menor relevância ou como resultado de tensões “inevitáveis”.

Essa assimetria tem nome: em um estudo de 2024, o Centre for Media Monitoring detectou o que chamou de “hierarquia do racismo” na grande imprensa, na qual a cobertura do antissemitismo sistematicamente se sobrepõe à cobertura da islamofobia, com uma diferença brutal de engajamento editorial e indignação seletiva.

Uma pesquisa que analisou os principais periódicos dos Estados Unidos durante o primeiro mês da guerra em Gaza constatou algo ainda mais gritante: os termos “anti-semitismo” e suas variações apareceram 549 vezes enquanto “islamofobia” foi citado apenas 79 vezes — uma desproporção de quase sete para um.

O massacre silencioso de Gaza: o horror que a imprensa não consegue quantificar

Onde está o “horror” diante da morte de 72.344 palestinos — a grande maioria civis, mulheres e crianças — desde outubro de 2023, segundo o último relatório da ONU (OCHA) e do Ministério da Saúde de Gaza, com mais de 172 mil feridos? Onde está a urgência quando, após o anúncio do cessar-fogo em outubro de 2025, nada menos que 823 palestinos continuaram sendo mortos, com 763 corpos resgatados dos escombros de bombardeios que não cessaram sob o frágil acordo de trégua?

Enquanto Golders Green e seus dois feridos ocupam um espaço desproporcional na agenda global, 70.117 palestinos estavam mortos até o final de 2025, conforme dados do Ministério da Saúde de Gaza, e o número real pode ser muito superior segundo análises independentes que consideram os sub-registros sob os escombros e pela falta de acesso humanitário. Cerca de 3 a 4% da população inteira da Faixa de Gaza foi morta de forma violenta até o início de 2025, segundo estudo publicado por pesquisadores.

É impossível não recordar uma manchete recente: o assassinato de duas pessoas em Bondi Beach, na Austrália, foi imediatamente classificado pela grande imprensa ocidental como “terrorismo islâmico”, com amplo destaque para a ideologia do perpetrador e a fé das vítimas. Em contraste, quando o ataque de Golders Green ocorreu, nenhum analista de tevê se perguntou se o autor era cristão, ahuísta ou ateu; a associação à fé da vítima foi feita, mas nenhuma generalização sobre “a violência cristã” ou “a cultura britânica violenta” foi traçada. A análise revela a assimetria estrutural mais íntima da grande imprensa.

Aquilo que o jornalista Faisal Hanif, analista do CfMM, descreveu como “a fabricação de uma ansiedade fabricada” pela grande mídia britânica: o muçulmano é sempre o extremista até que se prove o contrário; o judeu é sempre a vítima inocente. Essa construção permanente da realidade forma o solo fértil para que as vidas palestinas sejam sistematicamente desumanizadas.

As raízes estruturais de uma assimetria

Por que a alma ocidental sangra com dois cidadãos britânicos-judeus esfaqueados, mas parece não mais do que se incomodar com a chacina diária em Gaza? Por que a mídia ocidental tratou imediatamente como “ato terrorista” o ataque em Londres antes mesmo de qualquer investigação conclusiva, enquanto demorou meses para qualificar os massacres em Gaza como “possíveis crimes de guerra”? Por que a imprensa lista 3.700 incidentes antissemitas no Reino Unido com destaque e repúdio, mas as 913 ocorrências de ódio antimuçulmano no mesmo país passaram quase em branco?

Essa pergunta atravessa a própria estrutura do poder global e da política do petróleo, das alianças geopolíticas e das heranças do colonialismo.

  • A islamofobia sistêmica: A associação entre islã e terrorismo foi construída por décadas de discurso belicista ocidental que tratou o Oriente Médio como um “problema” militar e os muçulmanos como uma massa indistinta e violenta. Como não lembrar do tratamento dado às coberturas das mesquitas atacadas no Reino Unido — tratadas como notas de rodapé enquanto a CST dominava a abertura dos jornais?
  • A hierarquização do sofrimento: A imprensa aplica, conscientemente ou não, um padrão duplo. O sofrimento “ocidental” ou “aliado” é humanizado, enquanto o sofrimento “oriental” é simplificado. Quando cidadãos franceses, americanos ou britânicos morrem, a cobertura é intensa; quando são iraquianos, afegãos ou palestinos, vira estatística ou “daños colaterais”.
  • A lógica do capital simbólico: As próprias organizações de mídia operam sob o imperativo da audiência, das agências de publicidade e do alinhamento editorial às pautas dos governos ocidentais que se colocaram como “guardiães da humanidade” quando o tema é antissemitismo, mas que relativizam quando o tema é o direito dos palestinos à existência digna.

O duplo padrão e a seletividade moral que corrói o jornalismo

Ao final, o que está em jogo não é minimizar a gravidade do antissemitismo — ele é real, monstruoso e deve ser combatido com toda a força política e jurídica. Mas a crônica jornalística assiste, estarrecida, a uma hierarquia das vítimas na qual dois cidadãos londrinos judeus valem mais do que 72 mil palestinos — incluindo cerca de 17 mil crianças mortas em Gaza, segundo estimativas da OCHA. Essa distorção não é um acidente; é o reflexo de uma cobertura enviesada secular, que privilegia o sofrimento de determinados grupos em detrimento de outros, e que transforma o horror sistemático do genocídio e da islamofobia em um ruído de fundo incômodo e ignorado.

Se o jornalismo realmente se pretende uma ferramenta de defesa dos direitos humanos, não pode se dar ao luxo de criar uma “hierarquia do horror”. Ou ele denuncia todas as vítimas — judeus e palestinos, britânicos e afegãos, israelenses e sírios — com o mesmo vigor moral, ou ele se torna cúmplice da seletividade que legitima a continuidade do massacre. A diferença entre a comoção por dois feridos em Golders Green e o silêncio perante 72 mil mortos em Gaza não está no tamanho da tragédia; está no tamanho da hipocrisia daqueles que contam as histórias que, afinal, escolhemos ouvir.

Com informações de BBC News, The Guardian, Reuters, Associated Press, Al Jazeera, The Washington Post, The New York Times, CBS News, ABC News, DW News, WION News, The Washington Examiner, The Times of Israel, Veja, UOL, O Tempo, Euronews, G1, CBN, Xinhua, Contacto.lu, CNN Brasil, Centre for Media Monitoring (CfMM), Community Security Trust (CST), Tell MAMA, e United Nations Office for the Coordination of Humanitarian Affairs (OCHA) ■

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