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O governo dos Estados Unidos aceitou, formalmente, discutir na Organização Mundial do Comércio (OMC) as tarifas adicionais impostas a produtos brasileiros, em um movimento que representa a primeira abertura de canal de negociação desde o início do tarifaço de Donald Trump contra o Brasil. A resposta americana foi enviada ao governo brasileiro após o país acionar o mecanismo de solução de controvérsias da OMC no fim de julho, contestando sobretaxas de 25% e 12,5% aplicadas com base na Seção 301 da legislação comercial dos EUA.
Em documento oficial, os Estados Unidos afirmaram estar “à disposição para nos reunirmos com os representantes de sua missão em uma data mutuamente conveniente para a realização das consultas”. A reunião inicial entre as partes deve ocorrer em setembro, em Genebra, sede da OMC, como etapa preliminar do mecanismo de solução de controvérsias. A decisão de Trump ocorre após uma ofensiva diplomática coordenada que incluiu não apenas a representação brasileira, mas também o pedido formal de ingresso da China na ação contra as tarifas americanas.
O Brasil formalizou a abertura da disputa em 27 de julho, por meio de uma comunicação direta à delegação americana em Genebra. Na argumentação apresentada à OMC, o governo brasileiro sustenta que as tarifas impostas por Washington violam disposições do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT) de 1994 e o Entendimento sobre Solução de Controvérsias. A chancelaria brasileira apontou que as medidas são discriminatórias, uma vez que os EUA impõem tarifas adicionais sobre produtos brasileiros sem aplicar o mesmo tratamento a produtos similares de outros membros da OMC, ferindo o princípio da nação mais favorecida.
As sobretaxas contestadas pelo Brasil são:
Além disso, o tarifaço de Trump contra o Brasil incluiu, em momentos anteriores, alíquotas de até 50% sobre determinados produtos, elevando a tensão comercial entre os dois países.
A China, por sua vez, solicitou formalmente seu ingresso na ação na OMC em 10 de agosto. No pedido, Pequim afirma possuir “interesse comercial substancial nessas consultas” e argumenta que as medidas americanas “afetam todas as exportações da China para os EUA, ressalvadas as isenções especificadas, e, em particular, as condições de concorrência dos produtos originários da China vendidos no mercado dos EUA, em decorrência das tarifas adicionais impostas”. China e Brasil são os dois países que mais sofreram com o aumento das tarifas médias de importação no segundo mandato de Trump, o que torna a aliança na OMC um movimento de peso estratégico.
Especialistas avaliam que a entrada da China na disputa fortalece a posição brasileira, mas também expõe o desgaste das políticas protecionistas de Trump no cenário multilateral. A participação chinesa, contudo, exige cautela diplomática, uma vez que o Brasil busca equilibrar sua relação com os dois gigantes econômicos.
Em paralelo à ofensiva comercial na OMC, o Brasil vem aprofundando sua cooperação com a Rússia em temas de defesa e segurança, em um movimento que sinaliza uma reconfiguração das alianças geopolíticas do país. Entre os dias 4 e 6 de agosto, o assessor presidencial da Rússia para assuntos de segurança nacional, Nikolay Patrushev – um dos principais conselheiros do presidente Vladimir Putin – realizou uma visita oficial a Brasília.
Patrushev se reuniu com o assessor especial do presidente Lula, embaixador Celso Amorim, com a secretária-geral do Itamaraty, Maria Laura da Rocha, e com o comandante da Marinha do Brasil, almirante Marcos Sampaio Olsen. As conversas aprofundaram o diálogo sobre iniciativas de cooperação bilateral nas áreas naval, espacial, energética e de defesa, além do fortalecimento do intercâmbio em ciência, tecnologia e inovação.
Entre os temas tratados, destacam-se:
O encontro reforça o interesse de Brasil e Rússia em aprofundar a parceria estratégica em setores ligados à soberania e à segurança nacional. Os dois países mantêm cooperação em diversos fóruns internacionais, incluindo os BRICS, e vêm ampliando o diálogo em áreas consideradas sensíveis para a defesa do Atlântico Sul e da Amazônia Azul.
A visita de Patrushev ocorreu em um momento de tensões globais, com a guerra na Ucrânia em curso e o Conselho de Segurança da ONU sob críticas por sua ineficiência na mediação de conflitos. Em telefonema a Putin no mesmo dia, o presidente Lula manifestou “decepção” com a atuação do Conselho de Segurança.
A combinação desses dois movimentos – a abertura de negociação comercial com os EUA na OMC e o aprofundamento da cooperação militar com a Rússia – coloca o Brasil em uma posição central no xadrez geopolítico global. De um lado, o país busca resolver a disputa tarifária com Washington por vias multilaterais, contando com o apoio de Pequim. De outro, amplia sua parceria estratégica com Moscou, em áreas que vão da defesa à tecnologia nuclear, sem abrir mão do diálogo com os americanos.
Analistas apontam que a estratégia brasileira combina pragmatismo comercial com diversificação de parcerias, em um movimento que fortalece a autonomia do país no cenário internacional. A disposição de Trump em negociar, ainda que em fase inicial, é vista como uma vitória parcial da diplomacia brasileira, que conseguiu levar a disputa para o terreno multilateral e obter o apoio de uma potência como a China.
As consultas entre Brasil e EUA na OMC devem ocorrer em setembro, e o resultado desse primeiro encontro poderá definir os rumos da disputa comercial. Paralelamente, a aproximação com a Rússia deverá continuar avançando, com novos encontros e possíveis acordos formais sendo discutidos para os próximos meses.
Com informações de G1, Gazeta do Povo, Valor Econômico, Estadão, Brasil 247, Correio Braziliense ■