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O mundo do futebol viveu nos últimos dias uma das maiores crises institucionais de sua história. O que começou como uma proposta sigilosa do presidente da Fifa, Gianni Infantino, para criar uma subsidiária comercial e vender parte dos direitos da Copa do Mundo a investidores privados transformou-se em um movimento de rejeição global que envolveu desde as maiores confederações continentais até federações nacionais de todos os continentes. O plano, batizado de Fifa Forward Enterprise (FFE), previa a captação de cerca de US$ 20 bilhões (R$ 102 bilhões) com a venda de 20% das ações da nova empresa. O investidor âncora seria a Thrive Eternal, empresa fundada e gerida por Joshua Kushner, irmão de Jared Kushner – genro e enviado especial do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
A revelação do projeto, ocorrida na terça-feira, 28 de julho, pegou federações e confederações de surpresa. A falta de consulta prévia e a relação pessoal próxima entre Infantino e Trump – que incluiu a concessão do "Prêmio da Paz" da Fifa ao presidente americano em 2025 e a interferência de Trump na anulação de um cartão vermelho contra um jogador dos EUA durante a Copa – alimentaram suspeitas de conflito de interesses e de que o plano teria sido "instigado" pela Casa Branca. Trump negou publicamente ter conversado com Infantino sobre o projeto, mas a desconfiança já estava instalada.
A primeira e mais contundente reação veio da Europa. Em reunião de emergência realizada na quinta-feira, 30 de julho, as 55 federações filiadas à UEFA votaram unanimemente pelo boicote a todas as competições organizadas pela Fifa, incluindo as Copas do Mundo masculina e feminina e o Mundial de Clubes, caso a proposta de Infantino fosse levada adiante. Em comunicado oficial, a entidade europeia declarou: "A Copa do Mundo não pode ser tratada como um produto de investimento. É um dos maiores legados do futebol. Foi construído ao longo de gerações por jogadores, seleções nacionais e torcedores em todos os continentes. Nenhuma parte dele jamais deveria ser entregue a investidores privados. A Copa do Mundo não está à venda".
A UEFA foi além: "Este não é meramente um profundo fracasso de liderança, mas uma abdicação do dever da Fifa como guardiã do futebol mundial". O órgão europeu alertou que, "no momento em que investidores externos adquirem participação em competições da Fifa, o futebol muda para sempre. O retorno comercial se torna uma obrigação permanente. As expectativas dos investidores se tornam uma pressão diária".
O boicote anunciado pela UEFA abrangeria não apenas a próxima Copa do Mundo, mas também torneios já agendados, como a Copa do Mundo Feminina Sub-20, marcada para setembro na Polônia, e a repescagem da Copa do Mundo Feminina, prevista para outubro. A decisão representou um gesto sem precedentes na história da entidade e colocou Infantino em uma posição de isolamento.
A reação em cadeia não parou por aí. No mesmo dia, a Concacaf, confederação que rege o futebol na América do Norte, América Central e Caribe – e que acabara de sediar a Copa do Mundo de 2026 –, anunciou que suas 41 associações-membro "rejeitaram" a proposta de Infantino. A posição da Concacaf foi particularmente significativa, uma vez que Estados Unidos, México e Canadá foram os anfitriões do torneio e mantinham relações institucionais próximas com a presidência da Fifa.
Na Ásia, a Confederação Asiática de Futebol (AFC) também se manifestou contrariamente, convocando uma "revisão urgente" da governança e do processo decisório da Fifa. Fontes indicaram que quase 100 países já haviam se posicionado contra o plano até o final da semana. Com a soma dos votos contrários da UEFA (55) e da Concacaf (41), Infantino já enfrentaria 96 federações contrárias – número próximo dos 106 votos necessários para aprovar a proposta.
Pressionado pela reação global, Infantino tentou conter os danos. Em pronunciamento divulgado nas redes sociais na quarta-feira, 29 de julho, o dirigente classificou a iniciativa como "uma oportunidade, não uma obrigação" e afirmou que a criação da FFE ainda dependia da aprovação da maioria das 211 federações filiadas. "A Fifa Forward Enterprise é, na verdade, uma proposta, uma oferta. Faz parte de um processo democrático, de consulta e, acima de tudo, é uma oportunidade, não uma obrigação", declarou.
Infantino também tentou tranquilizar torcedores e dirigentes ao afirmar que a governança do futebol permaneceria sob responsabilidade exclusiva da entidade: "Os torcedores continuam sendo a pedra angular do futebol. O esporte que eles amam não vai mudar. A Fifa continuará governando o futebol sem qualquer interferência externa". A tentativa de recuo, no entanto, foi insuficiente para conter a onda de rejeição.
O desfecho da crise veio na sexta-feira, 1º de agosto, com a confirmação de que a Fifa havia arquivado o plano. Em comunicado atribuído a Infantino, a entidade reconheceu que a proposta era divisiva e estava "morta". O presidente da Fifa sofreu um duro golpe político: menos de duas semanas após a Copa do Mundo mais lucrativa da história, o suíço de 56 anos viu sua reeleição, antes considerada certa para o quarto mandato no Congresso da Fifa em março, ser colocada em xeque.
As consequências do episódio, no entanto, vão além do revés pessoal de Infantino. A crise expôs fissuras profundas na governança do futebol mundial e levantou questões sobre o papel dos investidores privados no esporte mais popular do planeta. A proposta da Fifa seguia um modelo comum nos esportes americanos, onde a participação de investidores privados é amplamente aceita, e foi comparada à aquisição da Fórmula 1 pela Liberty Media em 2017. Críticos, no entanto, apontaram que a Copa do Mundo, por sua natureza global e seu significado cultural, não poderia ser tratada como um ativo financeiro qualquer.
A relação entre Infantino e Trump também permanecerá sob escrutínio. O conselheiro comercial da Fifa para o projeto da FFE, Greg Maffei, ex-presidente-executivo da Liberty Media, e a escolha da Thrive Eternal como investidor âncora alimentaram suspeitas de que o plano beneficiava interesses privados próximos à família Trump. Um assessor sênior de Infantino, Carlos Cordeiro, chegou a renunciar em protesto contra a proposta.
O episódio também evidenciou a fragilidade do modelo de governança da Fifa, baseado em maiorias simples de 211 federações, muitas das quais dependem financeiramente da entidade. A proposta de Infantino incluía um incentivo financeiro direto: cada federação que apoiasse o plano receberia US$ 40 milhões (R$ 203 milhões) ao longo do próximo ciclo, com um aporte inicial de US$ 20 milhões (R$ 101,5 milhões). A estratégia, que lembrava táticas de compra de votos, foi duramente criticada pela UEFA.
Para a UEFA, a vitória sobre o plano de privatização representa a defesa de um princípio fundamental: o de que o futebol não é uma mercadoria. "Algumas coisas são simplesmente importantes demais para serem vendidas", declarou a entidade. O recuo de Infantino, no entanto, não significa o fim do debate. A pressão por modelos de financiamento alternativos e por maior transparência na gestão da Fifa deverá continuar, e a credibilidade do atual presidente da entidade – antes considerada inabalável – saiu seriamente arranhada.
O que começou como uma tentativa ousada de "turbocharger" o desenvolvimento do futebol global terminou como uma das maiores derrotas políticas da história da Fifa – e um alerta sobre os limites do poder de seu presidente.
Com informações de Reuters, AP News, CBC Sports, BBC News Brasil, O Globo, G1, Vietnam.vn e Publico.pt ■