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Trump rompe tradição e indica apoiadores políticos para 90% das embaixadas dos EUA
Dados da Associação Americana do Serviço Exterior mostram que apenas 10% dos escolhidos para postos diplomáticos são diplomatas de carreira; número de embaixadas vagas bate recorde
America do Norte
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■   Bernardo Cahue, 09/08/2026

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, promove uma mudança sem precedentes no comando da diplomacia americana em seu segundo mandato. Das 102 indicações feitas pelo republicano para postos de embaixador, apenas dez — o equivalente a 9,8% do total — são de integrantes do Serviço Exterior de carreira, segundo dados da American Foreign Service Association (AFSA). As outras 92 escolhas, que representam 90,2% das nomeações, são classificadas pela entidade como “políticas ou outras” — uma categoria que reúne aliados políticos, doadores de campanha, empresários, amigos do círculo presidencial e até mesmo servidores civis sem trajetória na diplomacia.

O percentual representa uma ruptura radical com o padrão histórico da diplomacia dos Estados Unidos. Nas últimas décadas, prevaleceu informalmente a chamada “regra dos 70/30”: cerca de 70% dos embaixadores eram diplomatas do Serviço Exterior, enquanto 30% eram indicações externas feitas pelo presidente. A própria AFSA registra que, em todas as administrações desde Gerald Ford (1974-1977), profissionais de carreira ocuparam mais da metade dos postos. Embora o primeiro mandato de Trump e o governo de Joe Biden tenham registrado uma leve redução dos profissionais técnicos, para cerca de 60%, as duas gestões ainda mantinham o equilíbrio. O patamar atual do segundo mandato trumpista, com apenas 10% de diplomatas de carreira entre os indicados, é inédito.

O levantamento do The Washington Post, baseado nos dados da AFSA, mostra que Trump está recorrendo a doadores ricos e leais políticos para preencher as embaixadas em uma proporção maior do que qualquer outro presidente na história recente. Sob a atual administração Trump, mais da metade dos assentos de embaixador estão vagos. Dos embaixadores em exercício, menos de um terço são diplomatas de carreira. O cenário é agravado pelo alto número de postos sem titular: no balanço mais recente da AFSA, 107 das 195 posições acompanhadas estavam sem embaixador.

A transformação não está apenas na quantidade, mas no perfil dos escolhidos. Entre os nomes indicados por Trump estão:

  • Reino Unido: o empresário e banqueiro Warren Stephens, do Arkansas e doador do Partido Republicano;
  • França: Charles Kushner, pai de Jared Kushner, genro do presidente;
  • Israel: o ex-governador do Arkansas e ex-apresentador de televisão Mike Huckabee, aliado de longa data do republicano;
  • Egito: Nick Oberheiden, advogado que fez cerca de US$ 1,3 milhão em doações a comitês que apoiaram Trump e que prestou representação legal a envolvidos na invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021;
  • Filipinas: Lee Lipton, empresário de Palm Beach e integrante do clube Mar-a-Lago;
  • Peru: Bernie Navarro, executivo do setor imobiliário e doador republicano.

O Brasil também está inserido nesse modelo. Daniel Perez, político republicano da Flórida escolhido por Trump para a embaixada em Brasília, não é diplomata de carreira e aparece na classificação externa ao Foreign Service. Seu nome foi aprovado pelo Senado em meio à crise diplomática entre Washington e o governo Lula e às tensões provocadas pela revogação do visto da embaixadora brasileira nos Estados Unidos, Maria Luiza Ribeiro Viotti.

A entidade que representa os integrantes do Serviço Exterior afirma que a proporção atual de indicações externas está muito distante da tradição de profissionalização da diplomacia do país. A mudança promovida por Trump ocorre em um momento em que a rede diplomática americana enfrenta um número recorde de postos vagos, o que, segundo especialistas, pode comprometer a capacidade de atuação dos Estados Unidos no cenário internacional.

Com informações de The Washington Post, Folha de S.Paulo, Diário do Centro do Mundo, AFSA (American Foreign Service Association) e Agenzia Nova ■

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