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Senador democrata dos EUA acusa Trump de tentar interferir nas eleições brasileiras de 2026
Tim Kaine afirma que o Brasil tem “razão legítima” para desconfiar de Washington e que o presidente americano tem um “favorito muito claro” na disputa presidencial
America do Norte
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■   Bernardo Cahue, 03/08/2026

O senador democrata Tim Kaine, da Virgínia, afirmou em entrevista à Folha de S.Paulo que o Brasil tem uma “razão legítima” para desconfiar de uma possível tentativa dos Estados Unidos de influenciar as eleições presidenciais de 2026. O parlamentar, que é vice-presidente da Subcomissão para o Hemisfério Ocidental do Comitê de Relações Exteriores do Senado dos EUA, disse que o presidente Donald Trump tem um “favorito muito claro” na disputa brasileira e faz “tudo o que pode” para tornar essa preferência evidente.

Kaine, no entanto, evitou afirmar que o governo americano já esteja interferindo diretamente no processo eleitoral brasileiro, classificando essa formulação como “forte demais”. Ainda assim, condenou a postura de Trump e resumiu sua posição de forma categórica: “O Brasil é dos brasileiros. Devemos deixar que o Brasil faça suas próprias escolhas nas eleições”.

O senador relacionou a cautela do governo brasileiro à negativa de vistos para dois funcionários do Departamento de Estado que planejavam viajar ao país. O governo Lula alegou risco de que a visita fomentasse uma tentativa de intervenção eleitoral, e Kaine disse compreender a preocupação, embora tenha ressaltado que não há como concluir que os servidores adotariam conduta imprópria.

Segundo a Reuters, o Brasil negou pedidos de visto para dois enviados da administração Trump que planejavam viajar ao país para colocar em dúvida a integridade do sistema eleitoral brasileiro. O governo americano, por sua vez, negou que a missão diplomática ao Brasil buscasse interferir nas eleições de 4 de outubro.

Para o democrata, a decisão de Trump de usar tarifas contra o Brasil ao mencionar o processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro ajudou a alimentar as suspeitas. Kaine afirmou que medidas oficiais acompanhadas de críticas ao Judiciário brasileiro e de referências a Bolsonaro ultrapassam, em sua avaliação, “a linha do aceitável”.

O senador também atacou duramente as tarifas impostas por Trump ao Brasil, classificando a política como “completamente ilógica” e levantando a hipótese de que as medidas tenham motivações “potencialmente até corruptas”, diante do superávit comercial americano na relação bilateral. Segundo Kaine, tarifas funcionam como impostos e elevam os custos para famílias e empresas dos Estados Unidos. Ele afirmou que uma guerra comercial tende a provocar respostas recíprocas e prejudicar exportadores americanos, enquanto o Brasil busca ampliar negociações comerciais com a China por meio do Mercosul.

Kaine liderou uma iniciativa para barrar a sobretaxa de 40% aplicada ao Brasil sob a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional. Ele disse que cinco republicanos se uniram aos democratas para repreender Trump, mas a Suprema Corte derrubou as tarifas baseadas nesse instrumento, e o governo passou a usar a seção 301, cuja contestação pelo Congresso é mais difícil.

O senador comentou ainda a indicação do político republicano Daniel Perez para novo embaixador dos EUA no Brasil. Embora tenha votado a favor da nomeação na Comissão de Relações Exteriores, Kaine diz que sua posição não representa apoio à política externa do governo Trump. Para o democrata, porém, é melhor que haja um embaixador em Brasília do que o posto continue vago, como está desde janeiro de 2025.

Em sua entrevista à Folha, Kaine também abordou a instabilidade nas relações bilaterais:

  • “Donald Trump tem uma obsessão por tarifas que é muito imprudente em relação aos efeitos sobre os consumidores americanos e as empresas americanas”;
  • “E tem uma obsessão adicional específica com o Brasil porque é próximo dos Bolsonaro e não gosta que o Brasil exerça o seu próprio sistema jurídico para responsabilizar pessoas pelos seus atos”;
  • Questionado sobre a melhora na relação entre os países no final de 2025 e o recente retrocesso, Kaine afirmou que as razões são “verdadeiramente lamentáveis”.

O posicionamento de Kaine ocorre em meio a um cenário de crescentes tensões entre Brasil e Estados Unidos. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva já havia admitido publicamente a possibilidade de Trump tentar interferir nas eleições brasileiras. O Planalto vê risco de interferência dos EUA nas eleições, e o governo Lula tem alertado para movimentos explícitos de interferência na disputa eleitoral.

Além disso, o governo brasileiro mudou sua percepção sobre o risco de interferência, inicialmente prevendo uma postura “recatada” de Trump, mas revendo essa avaliação diante dos acontecimentos recentes. O próprio Trump já sinalizou publicamente interferência nas eleições brasileiras, chamando o pleito de “próximo grande teste”.

Senadores democratas do Comitê de Relações Exteriores dos Estados Unidos acusaram o governo Trump de propagar “teorias conspiratórias” sobre as eleições do Brasil. A decisão de Trump de usar tarifas e críticas ao Judiciário brasileiro como ferramenta política acendeu alertas sobre uma possível intervenção estrangeira no processo democrático brasileiro.

Com informações de Folha de S.Paulo, Diário do Centro do Mundo, Jornal Económico (SAPO), Reuters, G1, Poder360, CNN Brasil, Gazeta do Povo, Estadao, Euronews, BBC News Brasil, The Conversation, Valor Econômico, DW Brasil, Brasil de Fato ■

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