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Irã e EUA intensificam troca de ameaças e arrastam alianças globais
Enquanto Washington tenta mobilizar apoio logístico da OTAN e ameaça deixar a aliança, Teerã sinaliza ataques na Europa e conta com a suposta divisão interna do BRICS para equilibrar forças
Oriente-Medio
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■   Bernardo Cahue, 24/08/2026

A escalada das tensões entre Estados Unidos e Irã atingiu um novo patamar nas últimas semanas, transformando o conflito no Oriente Médio em uma crise de alcance global. De um lado, o presidente americano Donald Trump ameaça realizar um "grande ataque" contra o Irã, enquanto o país persa considera atacar alvos militares dos EUA na Europa caso a guerra se intensifique. A troca de ameaças, que se arrasta desde o início dos ataques coordenados entre EUA e Israel em 28 de fevereiro de 2026, busca não apenas pressionar o adversário direto, mas também forçar países ao redor do mundo a abandonarem suas posições neutras e escolherem lados no conflito.

O cenário atual expõe duas dinâmicas paralelas e igualmente explosivas: de um lado, os Estados Unidos tentam contar com o apoio logístico teórico da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN); de outro, o Irã se beneficia de sua posição como parceiro — e, segundo algumas fontes, membro pleno — do BRICS, bloco que reúne potências emergentes como Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul, além de países do Golfo. O que se desenha, no entanto, é um quadro de alianças frágeis, repletas de contradições e interesses divergentes.

A ameaça que vem do Oriente: Irã promete "resposta devastadora"

O Irã deixou claro que não pretende recuar. Em resposta às investidas americanas, o regime de Teerã prometeu realizar ataques "devastadores" contra Estados Unidos e Israel. A retórica iraniana ganhou contornos ainda mais preocupantes após a revelação de que o país estaria avaliando atacar bases militares americanas na Europa, especialmente em países do sudeste europeu, como Bulgária e Chipre. Segundo o jornal britânico Financial Times, fontes do regime iraniano indicaram que a base aérea búlgara de Bezmer — utilizada por aeronaves dos EUA para reabastecimento — e uma base aérea britânica no Chipre, já atacada por um drone iraniano em março, estariam na mira.

Especialistas ouvidos pela Brasil de Fato afirmam que o poderio militar do Irã permanece "praticamente intacto". Amauri Chamorro, especialista em Comunicação Política, destacou que o país persa possui mísseis balísticos com alcance de até 4 mil quilômetros, o que permitiria bombardear "toda a Europa" a partir do território iraniano. "Se você pegar essa distância em linha reta, você pode chegar até Londres", afirmou. Além disso, o Irã considera atacar cabos submarinos de fibra óptica no Estreito de Ormuz, elevando ainda mais os riscos e as consequências do conflito para os EUA.

A estratégia iraniana, segundo analistas, aposta no desgaste e na ampliação de riscos a rotas comerciais, gargalos marítimos e infraestruturas críticas para forçar os americanos a recuar. O Estreito de Ormuz, vital para o escoamento de cerca de 20% do petróleo mundial, permanece praticamente bloqueado pelo Irã desde o início da guerra, e o país já alertou que o bloqueio continuará até que os EUA cumpram os acordos estabelecidos.

OTAN entre o apoio e o racha: Trump ameaça deixar a aliança

Diante da escalada, a OTAN declarou estar "preparada para enfrentar qualquer ameaça". O secretário-geral da organização, Mark Rutte, apoiou publicamente os ataques dos Estados Unidos contra o Irã, e a aliança já demonstrou sua capacidade de dissuasão ao interceptar, em quatro ocasiões distintas, mísseis balísticos iranianos em direção à Turquia.

No entanto, o apoio da OTAN está longe de ser consensual ou incondicional. Internamente, o bloco enfrenta divergências profundas. Países como Espanha e Turquia não aprovam qualquer tipo de escalada do conflito no Oriente Médio. A Turquia, que reúne um dos maiores exércitos da aliança e mantém excelentes relações com o Irã, desempenha um papel geopolítico fundamental como "tampão" em relação à instabilidade na fronteira sul, onde estão Síria, Iraque e Irã. Essa posição ambígua enfraquece a coesão do bloco e dificulta uma resposta unificada.

Mais grave ainda é a insatisfação do próprio presidente americano. Irritado com a recusa dos aliados europeus em enviar navios de guerra para ajudar a reabrir o Estreito de Ormuz e em permitir o uso de suas bases para lançar ataques contra o Irã, Trump afirmou que considera retirar os Estados Unidos da OTAN. Em entrevista ao jornal britânico Telegraph, o republicano classificou a aliança como um "tigre de papel" e criticou duramente o Reino Unido, dizendo que o país "nem sequer tem uma Marinha".

"Nunca me deixei influenciar pela OTAN. Sempre soube que eles eram um tigre de papel, e Putin também sabe disso", declarou Trump. O presidente americano já havia pressionado os aliados em março, ameaçando a OTAN com um futuro "muito ruim" se não ajudassem os EUA no conflito contra o Irã. Em abril, a ameaça se tornou mais explícita: Trump disse que considerava retirar os EUA da organização e chegou a cogitar punir países da OTAN que considerasse "pouco úteis" ao esforço de guerra.

A declaração mais recente, feita durante a cúpula da OTAN em Ancara, na Turquia, em julho, reforçou o tom belicoso. Trump anunciou que faria um "grande ataque" contra o Irã naquela noite e ordenou que as forças americanas não atingissem reservatórios de petróleo, mas não descartou cortar o sistema de energia elétrica e as estações de tratamento de água do país. "Vou dar um pequeno aviso: vamos atacá-los com força esta noite", declarou a repórteres. Apesar do acordo de paz firmado anteriormente, EUA e Irã têm trocado agressões nas últimas semanas, e Trump afirmou que o bloqueio dos EUA ao Estreito de Ormuz pode ser retomado.

BRICS: divisão expõe limites do bloco

Enquanto a OTAN enfrenta suas próprias crises, o BRICS — bloco do qual o Irã é membro — também se mostra incapaz de apresentar uma posição unificada sobre o conflito. A guerra no Oriente Médio expôs rachas profundas entre os países do grupo, colocando em xeque a capacidade de ação coletiva de um bloco com interesses geopolíticos tão distintos.

De um lado, Brasil, China e Rússia condenaram oficialmente os ataques conjuntos de Estados Unidos e Israel ao Irã. De outro, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Índia pouparam os bombardeios de Israel e EUA e condenaram, por sua vez, os ataques com mísseis realizados pelo Irã contra bases americanas localizadas em países do Golfo Pérsico. Esse alinhamento divergente reflete não apenas visões distintas sobre o conflito, mas também tensões históricas e rivalidades regionais, especialmente entre o Irã e as monarquias do Golfo.

Diplomatas ouvidos pela BBC News Brasil afirmaram que o governo brasileiro tem feito consultas junto a países do bloco, mas que, por ora, não há previsão de uma posição conjunta do BRICS sobre o assunto. Em junho de 2025, quando o Irã também foi alvo de ataques aéreos dos EUA e Israel, o bloco conseguiu chegar a um acordo e divulgar uma nota conjunta. Desta vez, no entanto, fatores como a dimensão da crise e a liderança indiana do bloco em 2026 inviabilizariam um posicionamento semelhante.

Especialistas avaliam que a atual crise expõe as contradições do processo de expansão do BRICS, que trouxe para o mesmo grupo países com interesses frequentemente incompatíveis. "Essa falta de posicionamento enquanto grupo é ainda mais significativa pelo Irã ser Estado-membro do BRICS", observou a The Conversation. A divisão interna não apenas tira o consenso da voz uníssona do bloco no cenário internacional, mas também reduz a capacidade do Irã de contar com um apoio coeso de seus parceiros.

Ameaças cruzadas e o risco de escalada global

O quadro atual é de ameaças cruzadas em múltiplas frentes. Os Estados Unidos contam com o apoio — ainda que teórico e vacilante — da OTAN, mas enfrentam resistência de aliados europeus e a ameaça concreta de ataques iranianos em solo europeu. O Irã, por sua vez, vê no BRICS um contrapeso geopolítico, mas a divisão interna do bloco limita sua eficácia como escudo diplomático.

Trump, que já anunciou o fim do acordo de paz com Teerã e depois recuou, dizendo não ter "certeza se o acordo vai se manter", mantém o mundo em suspense. O republicano afirmou que a guerra contra o Irã poderia terminar "em duas ou três semanas", mas a escalada de ameaças e contra-ameaças sugere o contrário. A retomada do bloqueio ao Estreito de Ormuz, os ataques a infraestruturas críticas e a possibilidade de um conflito direto na Europa elevam o risco de uma conflagração que ultrapassaria as fronteiras do Oriente Médio.

Enquanto isso, a comunidade internacional assiste a um tabuleiro geopolítico em que as antigas alianças se mostram frágeis e as novas, como o BRICS, revelam suas limitações. A troca de ameaças entre Irã e EUA, longe de ser um mero exercício retórico, tenta fazer com que países ao redor do mundo abandonem seus adversários de guerra e escolham lados em um conflito que já não é mais regional.

Com informações de Brasil de Fato, BBC News Brasil, G1, O Globo, Financial Times, The Conversation, Folha de S.Paulo, DW, Reuters, CNN Brasil e O Estado de S. Paulo ■

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