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Há mais de três décadas, um dos maiores poetas da música brasileira já enxergava com clareza aquilo que a própria indústria da informação se recusava a admitir. Em 1993, Renato Russo concedeu uma entrevista ao então VJ da MTV, Zeca Camargo, e, entre lampejos de um gênio contraditório, expôs suas inquietudes acerca do foco sensacionalista dos noticiários em comparação com o cotidiano normal do ser humano. O que ele via, com uma lucidez que beirava a profecia, era um jornalismo cada vez mais distante das pessoas e cada vez mais próximo do poder – um diagnóstico que, infelizmente, segue mais atual do que nunca.
Ao longo da entrevista, Renato Russo demonstrou incômodo com a forma como a imprensa tratava a realidade: sempre em busca do choque, do acidente, da desgraça alheia, enquanto o ordinário – a vida que realmente importa, o dia a dia do trabalhador, a cultura popular – ficava relegado a um plano secundário, quando não completamente ignorado. Sua percepção era a de que o sensacionalismo, enquanto agente da "banalização do mal", representava não só o grau mais radical de mercantilização da informação, mas também a válvula de escape de nossa "pulsão de morte" coletiva. Não por acaso, essa visão crítica, que ele levou para canções como "Metrópole" e "Perfeição", escancara a mesma ferida que ainda hoje sangra no jornalismo brasileiro.
O que Renato Russo denunciava naquela conversa com Zeca Camargo é a face mais explícita de um problema estrutural: os órgãos de imprensa, em sua grande maioria, não vivem para informar o povo – vivem de propaganda e subsídios políticos. Essa dinâmica perversa faz com que os mesmos atores que favorecem financeiramente esses veículos estejam permanentemente no centro dos noticiários. A cultura e o cotidiano populares, quando aparecem, o fazem como coadjuvantes de uma narrativa que dita as regras a partir do poder financeiro de cada anunciante ou dono de emenda parlamentar que beneficia esses mesmos órgãos.
Não se trata de uma conspiração, mas de uma lógica de mercado que remonta às origens do próprio jornalismo. Já nos chamados avvisi, folhetos manuscritos que circularam na Itália a partir do século XV, a informação era produzida para servir ao poder – relatos de estratégias comerciais, movimentações políticas e operações militares eram o cardápio exclusivo de uma elite que pagava para ter acesso privilegiado ao que acontecia no mundo. A informação, desde seu nascedouro, foi concebida como instrumento de dominação, não de emancipação. O que mudou, de lá para cá, foi apenas o formato e a escala; a essência permaneceu intacta.
Diante desse cenário, impõe-se um exercício doloroso, mas necessário: a autocrítica. E ela deve começar justamente por aqueles que se propõem a fazer um jornalismo diferente. O Imprensa Ética, observatório jornalístico independente que se dedica a promover integridade, transparência e qualidade na cobertura da imprensa brasileira, não pode furtar-se a essa reflexão. Ao pautar constantemente os mesmos assuntos dentro de um viés de crítica – atuando como um observatório que fiscaliza o poder –, acaba, ainda que involuntariamente, centralizando o foco apenas em discussões sobre as relações de poder. O risco, nesse movimento, é reproduzir a mesma lógica que se critica: a de tratar a política e a economia como o único teatro relevante, enquanto a vida real, a do trabalhador que pega ônibus lotado todos os dias, a da dona de casa que luta para fechar o mês, a do jovem da periferia que sonha com um futuro melhor, permanece à margem do debate.
Essa concentração temática, vale dizer, não é privilégio dos veículos alternativos. Ela está entranhada na própria definição de jornalismo como atividade de produção de informação "confiável e verificada". Ao eleger as relações de poder como objeto central de sua cobertura, a imprensa – mesmo a mais bem-intencionada – acaba por reduzir o povo a uma plateia passiva, que só interessa na medida em que é afetada pelas decisões dos que estão no topo. O cidadão deixa de ser sujeito da história para se tornar mero coadjuvante de um jogo que não foi feito para ele.
Renato Russo, em suas canções e entrevistas, propôs exatamente o oposto: um olhar atento para a humanidade que pulsa nas pequenas coisas, para a beleza do cotidiano, para a dignidade do trabalhador que constrói o país com as próprias mãos. Ele sabia que, ao ignorar essa realidade, a imprensa não apenas falha em sua missão – ela ativamente contribui para a desumanização da sociedade, transformando tragédias em espetáculo e pessoas em estatísticas.
A música "Perfeição", lançada em 1993, é talvez o exemplo mais acabado dessa crítica. Nela, Renato Russo utiliza uma ironia afiada ao escolher o verbo "celebrar" para listar tragédias e problemas sociais do Brasil. A letra é um manifesto contra a indústria da comoção, contra a transformação da dor alheia em produto de entretenimento. É também um convite à reflexão: o que estamos celebrando, afinal, quando consumimos notícias como quem consome novelas?
Passados mais de trinta anos daquela entrevista a Zeca Camargo, pouco mudou. A imprensa continua refém dos anunciantes, dos subsídios e da lógica do clique. O sensacionalismo segue sendo a moeda mais valiosa do jornalismo contemporâneo. E o povo, mais uma vez, fica sem voz, sem vez e sem espaço. Renato Russo tinha razão: não se engane, a imprensa nunca irá defender o povo, tampouco os trabalhadores – a menos que haja uma profunda e urgente reforma ética em suas estruturas e prioridades.
Que este editorial, publicado justamente no Imprensa Ética, sirva como um lembrete incômodo de que a autocrítica não é um exercício opcional, mas uma obrigação de todo aquele que se propõe a fazer jornalismo com integridade. Que possamos, enfim, olhar para além do poder e enxergar as pessoas. Que possamos, como Renato Russo nos ensinou, celebrar não a desgraça, mas a vida – em toda a sua imperfeita e bela complexidade.
Com informações de Observatório da Imprensa, Imprensa Ética, FedOA - Università degli Studi di Napoli, Wikipedia (Storia del giornalismo italiano)
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