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Governo lança Política Nacional de Educação Bilíngue de Surdos
Há algo de profundamente desconcertante na notícia que acabamos de ler. Ela começa com a solenidade de um comunicado oficial – Ministério da Educação, cerimônia em Brasília, seis eixos estruturantes, dados censitários sobre Libras – e, num piscar de olhos, transforma-se num obituário da objetividade jornalística. A matéria, a princípio, parecia séria; mas, ao fim, revela-se uma colcha de retalhos mal costurada, onde a pauta educacional serve apenas de cenário para um folhetim político de família.
O leitor desavisado inicia a leitura acreditando que finalmente compreenderá os desafios da Política Nacional de Educação Bilíngue de Surdos. E, de fato, os dados estão ali, crus e necessários: 12% das redes com materiais adequados, apenas 2.501 professores com formação continuada, 1,31% de provas em VídeoLibras. Números que doem na alma de quem se importa com a inclusão. Mas eis que a reportagem, sem aviso prévio, abandona a complexidade da sala de aula para se ater ao Story do Instagram de uma ex-primeira-dama.
O primeiro pecado da “matéria impensada” é a ausência de hierarquia. Colocar no mesmo plano uma conquista histórica da comunidade surda e o elogio protocolar de Michelle Bolsonaro é um erro crasso de edição. Não que a fala dela seja irrelevante – afinal, uma figura política de oposição aplaudir uma medida do governo Lula é, sim, um fato político digno de nota. O problema é que a notícia não aprofunda esse paradoxo; apenas o registra, como quem anota o tempo. Faltou ao texto a pergunta que ecoa: por que ela celebrou? O que mudou em seu discurso? A imprensa, aqui, preferiu o espanto raso à investigação.
O segundo pecado, porém, é ainda mais grave. No parágrafo seguinte, a matéria comete um salto mortal e arrasta para a pauta a briga explícita entre Michelle e o enteado Flávio Bolsonaro, citando a tal “milícia digital”. De repente, a educação bilíngue de surdos – que deveria ser o fio condutor da reportagem – vira um mero adereço de guerra familiar. A estrutura narrativa fica assim:
Cadê o contraditório? Cadê a opinião das associações de surdos, como a FENEIS? Cadê o orçamento previsto para a implementação dos seis eixos? Cadê o cronograma real para que os 12% virem 50%? A matéria não pergunta nada disso. Ela prefere o barulho do embate político ao silêncio da reflexão – e olhem que a pauta, ironicamente, versa justamente sobre uma comunidade que se comunica primordialmente pelo olhar e pelos sinais.
O que torna essa cobertura “impensada” não é a presença da política na educação – isso é inevitável e até salutar. O que a torna impensada é a leviandade com que trata o assunto. Ao transformar a PNEBS em pano de fundo para uma fofoca de bastidores, a reportagem desrespeita o estudante surdo que luta por uma vaga qualificada. Ela reduz uma lei a um like, uma conquista social a um mero combustível para o entretenimento político das redes.
Ao final da leitura, o cidadão comum sai sabendo mais sobre o desentendimento de Michelle com o enteado do que sobre como a Língua Brasileira de Sinais será, de fato, inserida nas salas de aula. É o triunfo do ruído sobre a informação. A imprensa, nesse caso, falhou em sua função precípua: separar o joio do trigo, o essencial do acessório. E, nessa confusão, quem perde é a sociedade, que fica sem saber se a política é realmente viável, mas sabe, com detalhes, quem está brigando com quem no Instagram.
No fim das contas, a crônica desta notícia se resume a um lamento: perdemos a oportunidade de debater o futuro de milhões de crianças surdas para acompanhar, passivamente, mais um capítulo de uma novela que ninguém pediu. Que venham outras matérias – mais pensadas, mais profundas e, principalmente, mais respeitosas com aqueles que, por anos, foram condenados ao silêncio pela falta de políticas públicas.
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