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Silêncio sepulcral na Globo
Enquanto o Jornal Nacional estampou por duas semanas seguidas as supostas revelações contra ministros do STF, a emissora agora trata como assunto inexistente a confissão de que seu próprio quadro de jornalistas era alimentado por um perito que plantava provas — e o silêncio sobre o caso coincidentemente beneficia o principal aliado da Globo na disputa pela Bahia
Editorial
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■   Bernardo Cahue, 04/07/2026

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Há algo de profundamente revelador no contraste entre dois momentos da cobertura do chamado “Caso Master” pelo maior conglomerado de mídia do país. De um lado, o Jornal Nacional — principal telejornal da TV Globo — dedicou espaço significativo, ao longo de duas semanas, para repercutir denúncias contra os ministros do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, além de sua esposa, Viviane Barci de Moraes. De outro, o silêncio sepulcral que se seguiu quando a Polícia Federal revelou que o perito João Cláudio Nabas — justamente a fonte que abastecia a colunista do Grupo Globo Malu Gaspar — havia não apenas produzido arquivos forjados contra os ministros, mas também confessado a uma delegada que mantinha “relação antiga” com a jornalista.

O silêncio, neste caso, não é ausência de voz — é escolha editorial. E, como toda escolha no jornalismo de grande alcance, carrega intenção, direcionamento e, frequentemente, interesse.

A cronologia é implacável. Quando os arquivos “Moraes.pdf” e “Toffoli e esposa.pdf” — produzidos por Nabas a partir do celular do banqueiro Daniel Vorcaro — chegaram à imprensa, a máquina de repercussão da Globo funcionou em velocidade máxima. Foram dias de manchetes, chamadas no Jornal Nacional e artigos de colunistas alinhados ao que a própria revista Fórum classificou como a “ala lavajatista” da PF. O alvo era claro: desgastar a imagem dos ministros do STF, especialmente Alexandre de Moraes, que à época conduzia investigações sensíveis sobre o bolsonarismo.

Mas, quando a Polícia Federal, em sua 7ª fase da Operação Compliance Zero, apontou que o perito Nabas “de fato criou os documentos relacionados aos magistrados” e que “a análise dos metadados e conteúdos de tais manuscritos reforçou os indícios de que Nabas organizou e repassou à imprensa os dados sigilosos”, a cobertura da Globo sobre o episódio foi reduzida a quase nada.

O que mudou? A resposta pode estar na identidade do principal beneficiário desse silêncio.

O aprofundamento das investigações do Banco Master, agora sob relatoria do ministro André Mendonça, começou a atingir figuras do espectro político que não interessam ao projeto editorial da Globo. Em 18 de junho, a 9ª fase da Operação Compliance Zero mirou o senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo no Senado, suspeito de ter recebido R$ 3,5 milhões e um apartamento de luxo em Salvador em troca de atuação política em favor do Banco Master. A cobertura da Globo sobre Wagner foi ampla, como era de se esperar de um aliado de primeira linha do presidente Lula.

Contudo, o que a emissora optou por não destacar com a mesma força é que o principal adversário de Wagner na disputa pelo governo da Bahia — o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil) — também está profundamente enredado no Caso Master. Segundo relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), uma empresa ligada a ACM Neto recebeu R$ 3,6 milhões do Banco Master e da gestora Reag. Embora não seja formalmente investigado na mesma fase que Wagner, ACM Neto tem seu nome associado ao escândalo e, até o momento, não foi alvo de operação semelhante.

É aqui que o silêncio da Globo ganha contornos de operação política.

Nos bastidores da política baiana, um pacto de não agressão teria sido costurado entre os grupos de ACM Neto e Jaques Wagner: o Caso Master não será tema na campanha eleitoral deste ano. Para ACM Neto, que tem na Globo um de seus principais aliados midiáticos, a blindagem é duplamente vantajosa. A emissora, por sua vez, ao enterrar a narrativa do perito plantador de provas e ao não aprofundar as conexões de ACM Neto com o Master, cumpre um papel que a internet já classificou com precisão: manipulação de forças para beneficiar o candidato da Globo na Bahia.

Não é a primeira vez que a Globo atua como trincheira de uma determinada narrativa política. Durante a Operação Lava Jato, a emissora foi acusada de atuar como “departamento de comunicação” da força-tarefa de Curitiba, construindo narrativas e amplificando vazamentos seletivos que beneficiavam determinados atores políticos e prejudicavam outros. Agora, o roteiro se repete: quando o alvo são ministros do STF ou adversários de seus aliados, a cobertura é voraz; quando o tiro sai pela culatra e atinge suas próprias fontes ou seus protegidos políticos, o silêncio é sepulcral.

O caso do perito Nabas é emblemático. Ele não era uma fonte anônima e distante — era um servidor público que confessou a uma delegada da PF que mantinha “relação antiga” com Malu Gaspar e que sugeriu que ela repassasse informações sigilosas. A jornalista, contratada pela Globo em setembro de 2025, tornou-se peça central de um esquema que, segundo a própria PF, visava “buscar, no material objeto de análise, supostos elementos desabonadores de ministros desta Suprema Corte, com o intuito comprovado de publicizar tais informações por meio da imprensa nacional”.

Se a Globo tivesse o compromisso ético que apregoa em seus manuais de redação, o Jornal Nacional teria dedicado ao menos o mesmo tempo para explicar ao país que uma de suas principais colunistas foi usada como veículo de um perito que plantava provas contra ministros do STF. Mas isso não aconteceu. E não acontecerá, porque o silêncio, neste caso, não é erro — é estratégia.

O país precisa lembrar: quando a mídia escolhe o que noticiar e o que enterrar, ela não está apenas informando — está construindo realidade. E, na construção da realidade baiana e brasileira, a Globo tem um papel que vai muito além do jornalismo: o de ator político com candidato, narrativa e interesse próprios.

O que o silêncio da Globo revela:

  • Seletividade narrativa: Duas semanas de destaque para denúncias contra Toffoli e Moraes; silêncio total quando a fonte é desmascarada.
  • Proteção de aliados: ACM Neto, principal opositor de Jaques Wagner na Bahia e historicamente alinhado à Globo, é poupado de escrutínio semelhante ao aplicado sobre o petista.
  • Uso político da pauta: A cobertura do Caso Master serve como instrumento para desgastar adversários do campo progressista, enquanto blindagem é concedida a figuras da centro-direita.
  • Conflito de interesses: A jornalista Malu Gaspar, contratada pela Globo, é simultaneamente veículo e parte da narrativa — uma posição que a emissora nunca admite publicamente.
  • Padrão histórico: A mesma estratégia de amplificar vazamentos seletivos e enterrar contradições foi utilizada durante a Lava Jato.

O silêncio da Globo no caso do perito Nabas e de sua relação com Malu Gaspar não é um detalhe menor na cobertura do Caso Master. É, isso sim, a prova cabal de que, para a maior emissora do país, a verdade é maleável — e o jornalismo, infelizmente, é refém de interesses que pouco têm a ver com a informação e tudo a ver com o poder.

Com informações de Estadão, Revista Fórum, ICL Notícias, Gazeta do Povo, Brasil 247, Diário do Centro do Mundo, G1, O Globo ■

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