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A pechincha que custou o império
Tentativa da Globo de economizar junto à FIFA abriu as portas para a Cazé TV e expôs seu modelo predatório
Editorial
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■   Bernardo Cahue, 22/06/2026

O que era para ser uma estratégia de contenção de custos transformou-se no maior tiro no pé da história recente da televisão brasileira. Em 2021, no auge da pandemia, a Globo pediu um desconto nos direitos de transmissão da Copa do Mundo junto à Fifa. Para conseguir o parcelamento de uma dívida de US$ 90 milhões, a emissora abriu mão dos direitos exclusivos de transmissão para a internet. Foi ali, naquela mesa de negociação, que a Globo plantou a semente de sua própria derrota — e a Cazé TV, quatro anos depois, colheu os frutos.

A lógica era a velha cartilha do monopólio: "somos a Globo, transmitimos Copas há cinco décadas, podemos pagar menos". A emissora da família Marinho calculou que seu peso histórico, sua capilaridade e seu poder de fogo na TV aberta seriam suficientes para manter a exclusividade mesmo pagando um valor reduzido. Enganou-se redondamente. A LiveMode, empresa fundada pelos criadores do Esporte Interativo e que hoje comanda a Cazé TV, enxergou na brecha deixada pela Globo uma oportunidade de ouro. E não apenas entrou — dominou.

O golpe de misericórdia veio na forma de números: enquanto a Globo planejava faturar cerca de R$ 1,9 bilhão com 54 jogos na TV aberta e no SporTV, a Cazé TV e o YouTube negociaram 11 cotas de patrocínio para todos os 104 jogos do Mundial, com receita estimada em R$ 2 bilhões — exatamente o mesmo patamar previsto para a Globo. A diferença? A Cazé TV tem todos os jogos. A Globo, não. A pechincha que deveria baratear custos terminou entregando de bandeja para a concorrência o ativo mais valioso do futebol mundial.

Subsídio público: a muleta histórica do monopólio

Se a Globo sempre jogou duro nas negociações com a Fifa para baixar preços, o mesmo não se pode dizer de sua relação com o Estado brasileiro. Pelo contrário: a história do conglomerado é marcada por uma dependência umbilical da verba pública, que funcionou por décadas como um subsídio invisível para suas operações — e que ajudou a financiar justamente o poder de fogo que a emissora usava para manter sua exclusividade esportiva.

Os números são estarrecedores. Sob o governo Lula, os canais do Grupo Globo receberam R$ 461,5 milhões em publicidade federal nos primeiros três anos de mandato — mais que o dobro dos R$ 228,5 milhões recebidos no mesmo período do governo Bolsonaro. Somente em 2023 e 2024, a Globo faturou R$ 177,2 milhões com a Secretaria de Comunicação da Presidência, valor que supera o total pago à emissora durante os quatro anos inteiros de Bolsonaro.

A concentração é ainda mais chocante quando comparada às concorrentes. Em 2024, a Globo representou 53% dos R$ 164,4 milhões gastos em inserções do governo nas principais TVs do país — um valor maior que a soma dos contratos com outras 17 redes televisivas. Em todo o governo Lula até agora, a Globo ficou com 49,4% de toda a verba de publicidade estatal federal destinada à televisão. Enquanto isso, Record, SBT e Band perderam espaço.

Não se trata, evidentemente, de uma relação de mercado. É uma aliança estrutural entre o poder midiático e o poder político. A Globo justifica a voracidade por verba pública com seu argumento eterno: a audiência. É a velha e cínica manobra verbal: "temos o maior Ibope, logo merecemos a maior fatia do dinheiro público". O problema é que essa audiência foi construída, em grande medida, com o próprio dinheiro do contribuinte — um ciclo perverso em que o Estado financia a emissora que, por sua vez, usa esse financiamento para se tornar ainda mais dominante e, assim, exigir ainda mais verba.

Pejotização e flexibilização: o lucro acima dos direitos

A lógica do "tudo pelo lucro" não se restringe às negociações com a Fifa ou aos cofres públicos. Ela se estende à relação da Globo com seus próprios funcionários. O conglomerado sempre esteve na vanguarda da chamada "pejotização" — a prática de contratar trabalhadores como pessoas jurídicas para burlar os direitos trabalhistas da CLT. É a mesma lógica da pechincha aplicada aos direitos humanos: pagar menos, custear menos, lucrar mais.

Em 2024, a Justiça do Trabalho registrou mais de 258 mil processos de trabalhadores que pedem reconhecimento de vínculo empregatício. Só até fevereiro de 2025, foram ajuizados 53.678 novos casos envolvendo reconhecimento de relação de emprego. O tema chegou ao Supremo Tribunal Federal, que suspendeu a tramitação de todos os processos que discutem a legalidade da pejotização no Brasil — uma decisão que, na prática, blindou empresas como a Globo contra a responsabilização por essa prática.

A pejotização não é um detalhe operacional. É a materialização mais bruta da filosofia empresarial da Globo: maximizar resultados a qualquer custo, seja pressionando a Fifa por descontos, seja engolindo fatias bilionárias do orçamento público, seja terceirizando direitos trabalhistas. O discurso de "defesa da audiência" e "compromisso com o telespectador" sempre serviu como cortina de fumaça para uma realidade muito mais prosaica: a busca insaciável pelo lucro, independentemente do preço pago por terceiros.

A lição de 2026

A Cazé TV não venceu a Globo por acaso. Venceu porque leu o jogo que a própria Globo começou a perder quando resolveu pechinchar. O mercado digital não se curva ao monopólio histórico; ele premia a visão, a ousadia e a capacidade de enxergar onde o adversário está fraco. A Globo, cega por décadas de hegemonia, achou que poderia continuar ditando as regras. Descobriu que a Fifa não é o governo federal — não se compra com verba pública, não se convence com histórico de exclusividade, não se impressiona com manobras retóricas de audiência.

O golpe de misericórdia, portanto, não foi apenas a perda da exclusividade. Foi a exposição de um modelo de negócio inteiro — baseado em pechinchar com fornecedores, sugar do Estado e flexibilizar direitos trabalhistas — que, diante de um concorrente mais ágil e mais inteligente, ruiu por completo. A Globo perdeu a Copa porque, ao tentar economizar, abriu mão do que tinha de mais valioso. E perdeu mais do que um contrato: perdeu a aura de invencibilidade que a sustentava há mais de meio século.

Com informações de Folha de S.Paulo, Meio & Mensagem, Poder360, Veja, InfoMoney, Brasil 247, InvestNews, Observatório da TV, UOL, Natelinha, Exame ■

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