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O Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) recomendou, na última sexta-feira (26), a suspensão preventiva de três anúncios de casas de apostas veiculados pela CazéTV durante as transmissões da Copa do Mundo. As peças publicitárias, que envolvem as marcas KTO, Betnacional e Bet365, foram apresentadas em ações de merchandising por narradores e comentaristas da emissora digital.
Segundo o Conar, os processos foram abertos a partir de uma queixa de consumidor e visam apurar se os anúncios poderiam induzir o público a erro sobre as chances reais de ganho nas apostas, especialmente ao citar odds com baixa probabilidade em meio ao conteúdo editorial. O relator do caso, Luiz Celso de Piratininga Junior, entendeu que há “elementos indicativos de infração” e que a falta de clareza entre conteúdo e publicidade pode confundir o espectador.
Embora as ofertas já tenham expirado, a recomendação liminar serve como baliza para a análise final do Conselho de Ética. As empresas notificadas têm cinco dias para se manifestar, e o órgão pode arquivar os processos, pedir ajustes ou recomendar a retirada integral dos anúncios. A CazéTV, por sua vez, afirmou que recebeu a manifestação “com tranquilidade” e que as mudanças recomendadas já estavam em prática nos últimos dias, após o anúncio de uma abordagem mais conservadora para a publicidade de bets.
O Cerco Regulatório e a Seletividade da Mira
O movimento do Conar, no entanto, não ocorre no vácuo. Ele se soma a uma investigação aberta pela Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), ligada ao Ministério da Justiça, que apura suposta “publicidade abusiva” de bets na CazéTV. O que chama a atenção, porém, é a seletividade do cerco.
Na mesma sexta-feira (26), a Senacon também abriu apuração para verificar se TV Globo, SBT e N Sports cometeram irregularidades em anúncios de bets. Contudo, enquanto a investigação contra a CazéTV avança com recomendações liminares de suspensão, as apurações contra as emissoras tradicionais ainda estão em estágio inicial e não geraram medidas concretas de interrupção publicitária.
Essa assimetria de tratamento alimenta as suspeitas de que há um esforço coordenado para desqualificar a CazéTV, a única emissora que transmite todos os 104 jogos da Copa, enquanto as concorrentes, que detêm direitos sobre 87 partidas, seguem com suas publicidades de bets no ar sem a mesma pressão.
O Conflito de Interesses da Globo com a BetMGM
O ponto mais delicado dessa história, e que raramente é destacado nas reportagens convencionais, é o conflito de interesses envolvendo o Grupo Globo. Em agosto de 2024, a Globo montou uma joint venture com a MGM Resorts International, um dos maiores cassinos de Las Vegas, para lançar a BetMGM no Brasil. A sociedade coloca à disposição da BetMGM o alcance monumental da Globo, que atinge cerca de 70 milhões de pessoas por dia.
Isso significa que a Globo não é apenas uma veiculadora de anúncios de bets – ela é sócia de uma das maiores casas de apostas do mundo. Diante desse fato, a atuação do Conar contra os patrocinadores da CazéTV ganha uma dimensão preocupante. Ao recomendar a suspensão dos anúncios de KTO, Betnacional e Bet365 na concorrente, a Globo, indiretamente, ataca a fonte de receita da CazéTV enquanto protege seu próprio nicho de mercado – a BetMGM, que não está sob investigação.
Como bem observou o colunista Rodrigo Capelo, do Estadão, “a Globo montou uma joint venture com a MGM, um cassino de Las Vegas, para criar a BetMGM”. E complementa: “As maiores emissoras são, elas mesmas, donas de casas de apostas”. O SBT, por exemplo, anunciou a criação do “Todos Querem Jogar”, uma bet própria. No entanto, apenas a CazéTV está sendo alvo de recomendações liminares de suspensão.
O Oportunismo Regulatório em Ano Eleitoral
O timing das ações também levanta suspeitas. Em ano eleitoral, políticos de diferentes espectros descobriram a CazéTV e suas propagandas de bets como um palanque conveniente para demonstrar preocupação com os malefícios das apostas. A crítica, no entanto, ignora que o mercado de apostas é o principal financiador do futebol brasileiro há anos, com contratos que movimentam centenas de milhões de reais.
A pergunta que fica é: por que apenas a CazéTV? Por que a Globo, o SBT e a N Sports, que também exibem anúncios de bets e são, elas mesmas, donas de casas de apostas, não recebem o mesmo tratamento? A resposta pode estar na ameaça real que a CazéTV representa ao monopólio histórico da Globo na transmissão de futebol.
Conclusão: Regulação ou Guerra Concorrencial?
A recomendação do Conar, embora tecnicamente fundamentada na necessidade de proteger o consumidor de publicidade enganosa, não pode ser analisada de forma isolada. Ela se insere em um contexto de guerra declarada da Globo contra a CazéTV, que inclui ataques à qualidade técnica da transmissão, críticas ao delay do sinal e agora o uso de órgãos reguladores como instrumento de eliminação de concorrência.
A CazéTV pode ter cometido excessos em sua publicidade de bets – e isso merece ser apurado. Mas a seletividade do cerco, somada ao conflito de interesses da Globo como sócia da BetMGM, transforma o que deveria ser uma questão de ética publicitária em uma suspeita de manobra anticompetitiva. Enquanto a regulação mira apenas o novo entrante, o gigante que também atua no mercado de apostas segue imune, protegido por seu poder midiático e sua influência sobre os órgãos de autorregulamentação.
A história da comunicação no Brasil mostra que monopólios não caem sem luta. A pergunta é se essa luta será travada no campo da qualidade e da inovação – ou nos bastidores da regulação, com o peso de um conflito de interesses que ninguém parece querer enxergar.
Com informações de G1, Estadão, CartaCapital, Veja, Meio & Mensagem, F5 - Folha de S.Paulo, Migalhas, UOL, Lance! e RD1 ■