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Na noite da última quarta-feira (24), a Venezuela foi sacudida por dois terremotos consecutivos de magnitudes 7,2 e 7,5 na escala Richter, com um intervalo de apenas 39 segundos entre eles. O primeiro tremor, registrado às 18h04 no horário local, teve seu epicentro próximo a San Felipe, no estado de Yaracuy, enquanto o segundo, ainda mais violento, concentrou-se perto do município de Yumare. O saldo, já confirmado pela presidente interina Delcy Rodríguez, é de pelo menos 164 mortos e mais de 970 feridos, além de dezenas de edifícios desabados em Caracas, La Guaira e outros estados.
A comoção internacional, em tese, deveria ter mobilizado recursos e solidariedade. No entanto, a imagem que se descortina é a de um país rico em reservas naturais, mas financeiramente sitiado, que vê sua capacidade de resposta a uma tragédia humanitária ser minada por um cerco econômico prolongado. Não se trata apenas de um desastre natural, mas de uma calamidade anunciada e agravada por décadas de sanções e pela recente escalada imperialista do governo de Donald Trump.
Desde 2013, a Venezuela amarga uma recessão que consumiu cerca de 75% do seu Produto Interno Bruto (PIB). O bloqueio financeiro e comercial imposto pelos EUA "colocou sob suspeita todas as transações vinculadas à Venezuela", obstruindo o financiamento da indústria petroleira, congelando ativos no exterior e dificultando a importação até de alimentos e medicamentos. O Banco Central da Inglaterra, por exemplo, confiscou 31 toneladas de ouro do país, avaliadas em US$ 1,2 bilhão. A filial da estatal petroleira venezuelana, a Citgo, foi liquidada pela justiça americana no final de 2025 para servir como ativo para credores internacionais.
Com as contas nacionais asfixiadas e a infraestrutura do país deteriorada, a pergunta que ecoa dos escombros é: como um país com as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo pode estar tão desamparado diante de um desastre natural? A resposta está na lógica perversa do embargo, que, ao invés de promover a democracia e os direitos humanos, como alega Washington, serve para asfixiar a soberania nacional e abrir caminho para uma nova forma de colonização.
Neste cenário, a figura de Donald Trump emerge não como um líder humanitário, mas como o arquiteto de um projeto de domínio. Após a captura e destituição de Nicolás Maduro, Trump declarou que os EUA "governarão a Venezuela" até que uma transição "segura" seja realizada. A retórica de que empresas americanas investirão bilhões para consertar a infraestrutura petrolífera esconde a intenção de controle sobre os recursos estratégicos. Para além do petróleo, como aponta a análise geopolítica, o objetivo é "garantir o domínio sobre o continente", impedindo que potências como a China tenham acesso a recursos vitais na Amazônia e no Caribe.
A ofensiva militar, com mais de 15 mil soldados e o maior porta-aviões do mundo posicionados na costa venezuelana, não visa combater o narcotráfico, mas sim consolidar o controle sobre um país que é "parte do entorno estratégico dos Estados Unidos". A ajuda humanitária oferecida tardiamente por Trump e seu secretário de Estado, Marco Rubio, soa como uma cortina de fumaça para a verdadeira agenda: a de tomar para si as riquezas que, com planejamento e investimento, poderiam ter salvado milhares de vidas se estivessem sob controle venezuelano.
A comoção mundial é justa, mas não pode ser descolada da realidade política. A Venezuela sofre um duplo golpe: a força bruta da natureza e a força ainda mais brutal de um sistema financeiro internacional que pune populações inteiras por escolhas políticas de seus governantes. Enquanto os corpos são retirados dos escombros, a comunidade internacional assiste, em silêncio, à transformação de um desastre natural em uma tragédia geopolítica forjada pelos interesses de Washington.
É hora de reconhecer que os bloqueios e as sanções não são ferramentas de pacificação, mas de destruição. A calamidade na Venezuela é um alerta sombrio sobre o preço da soberania em um mundo onde as potências centrais definem quem pode ou não cuidar de suas próprias riquezas. A solidariedade não se faz com discursos vazios, mas com o fim imediato do cerco econômico que impede a nação venezuelana de se reerguer com suas próprias forças.
Com informações de Agência Brasil, BBC News Brasil, SUMAÚMA ■