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A Justiça Federal em São Paulo autorizou, nesta terça-feira (23), a quebra dos sigilos bancário e fiscal do bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) e controlador do Banco Digimais. A decisão, proferida no âmbito da Operação Miragem deflagrada pela Polícia Federal, também atingiu outros 17 investigados e determinou o bloqueio de bens e valores que ultrapassam R$ 670 milhões.
A investigação apura um suposto esquema de fraudes contra o Sistema Financeiro Nacional, com indícios de que o banco teria usado fundos de investimento para ocultar sua real situação econômico-financeira. Segundo a PF, mais de 50 policiais federais cumpriram nove mandados de busca e apreensão em São Paulo. Edir Macedo não foi alvo dos mandados de busca por residir no exterior, mas é citado pelos investigadores como controlador da instituição.
As investigações, subsidiadas por relatórios do Banco Central do Brasil, apontam que os administradores do Digimais teriam manipulado sistematicamente demonstrativos contábeis e registros regulatórios para ocultar a real situação financeira da instituição. O objetivo, segundo a corporação, era criar uma aparência de solvência perante os órgãos de controle e viabilizar operações consideradas irregulares.
Entre os alvos da operação estão dirigentes do banco, como o bispo João Urbaneza, homem de confiança de Edir Macedo, e seu filho, Thiago Urbaneza. A lista de quebra de sigilo fiscal inclui empresas como B.A. Empreendimentos e Participações S/A, Banco Digimais S.A., Bless Capital Gestora de Recursos, Digimais Securitizadora de Créditos Financeiros S.A. e ID Corretora de Títulos e Valores Mobiliários S.A.. Fundos de investimento como EXP 1 FIDC-NP, Guidare FIM CP e Hermon Fundo de Investimento em Direitos Creditórios também estão sob mira.
De acordo com a Polícia Federal, a suposta fraude envolveu a supervalorização artificial de ativos. Em um dos casos apontados pela investigação, o banco teria comprado títulos com valor ínfimo e feito uma nova avaliação para aumentar artificialmente seu valor. A Folha de S.Paulo revelou que a PF identificou a "precificação de títulos antigos e sem valor da Vale em R$ 650 milhões" e "a avaliação de um terreno em Pernambuco por R$ 150 milhões quando o seu valor real seria inferior a R$ 10 milhões".
A gravidade do esquema levou a PF a traçar um paralelo direto com o extinto Banco Master, liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025. Segundo a representação da PF, o "Digimais, sob o controle de Edir Macedo, adotou práticas financeiras temerárias e estreitamente análogas às do extinto Banco Master". Entre as semelhanças estão a captação agressiva por meio de CDBs com taxas superiores a 110% do CDI e a superavaliação de ativos.
Esta não é a primeira vez que Edir Macedo enfrenta o escrutínio da Justiça. Em 1992, foi preso sob acusações de estelionato, charlatanismo e curandeirismo, sendo libertado dias depois. Em 2009, o Ministério Público de São Paulo o denunciou por suspeitas de lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Mais recentemente, em 2024, foi condenado em primeira instância pela Justiça Federal do Rio Grande do Sul ao pagamento de indenização por danos morais coletivos em razão de declarações consideradas homofóbicas.
Os investigados poderão responder, na medida de suas responsabilidades, pelos crimes de gestão fraudulenta, inserção de dados falsos em demonstrativos contábeis e realização de operações de crédito vedadas, previstos na Lei nº 7.492/1986.
Procurado, o Banco Digimais afirmou, por meio de sua assessoria de imprensa, que "permanece à disposição das autoridades para prestar quaisquer esclarecimentos e colaborar com as apurações em curso", reafirmando "seu compromisso com a transparência, a conformidade regulatória e a plena colaboração com as autoridades competentes". A defesa de Edir Macedo afirmou que não teve acesso aos autos da operação e que "nada vai comentar, por se tratar de processo em segredo de Justiça".
Com informações de BBC News Brasil, Folha de S.Paulo, G1, O Estado de S.Paulo, Diário do Centro do Mundo, Revista Oeste, CNN Brasil, Jornal do Brasil, Finsiders Brasil, Diário 360, Público (Portugal) e UOL ■