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Crescem casos de intolerância religiosa entre menores
Estudante de candomblé é agredida por cinco colegas em colégio estadual do Rio de Janeiro; caso expõe a falência de políticas de combate ao racismo religioso nas instituições de ensino e a urgência de uma resposta que vá além da transferência de agressores
America do Sul
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■   Bernardo Cahue, 25/06/2026

O Brasil registrou 2.774 denúncias de intolerância religiosa entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, segundo dados do Disque 100, canal do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. Desse total, as religiões de matriz africana concentram os maiores números: a Umbanda soma 228 registros, o Candomblé 161, além de 47 ocorrências classificadas como ambas e 40 envolvendo outras religiosidades afro-brasileiras. O Rio de Janeiro aparece como o segundo estado com mais denúncias, com 446 casos, atrás apenas de São Paulo (667). É nesse cenário que se inscreve o caso da adolescente adepta do candomblé agredida dentro do Colégio Estadual Arnoldo Abruzzini da Fonseca, em Sepetiba, na Zona Oeste do Rio — um episódio que escancara a dimensão cotidiana e estrutural da violência contra as tradições religiosas de origem africana.

O ataque ocorreu no dia 17 de junho. Um vídeo registrou a cena: cinco estudantes agredindo a menor de idade com socos, chutes e puxões de cabelo. O exame de corpo de delito constatou lesões no braço esquerdo e na coxa esquerda por ação contundente. A agressão, no entanto, não foi um ato isolado. Em depoimento à polícia, a mãe da adolescente afirmou que a filha já havia se envolvido em discussões com colegas por causa de sua religião. Além disso, a jovem recebeu, em um grupo de WhatsApp da escola, fotos compartilhadas em que aparecia usando roupas de rituais do candomblé. A humilhação foi precedida de exposição e chacota — um padrão que se repete em inúmeros casos de racismo religioso no país.

A 43ª Delegacia Policial (Guaratiba) investiga o caso e trabalha na identificação dos envolvidos, que também são menores de idade. A Secretaria de Estado de Educação (Seeduc) abriu uma sindicância para apurar os fatos e informou que avalia a transferência das alunas envolvidas para outras unidades. Em nota, a pasta afirmou repudiar “qualquer forma de preconceito, discriminação e violência dentro e fora da escola” e disse que está em contato com a família da vítima para prestar acolhimento. A Seeduc mencionou ainda a existência da “Cartilha Contra a Intolerância Religiosa”, que tem como base o Estado laico e a liberdade de crença previstos na Constituição Federal.

O ex-deputado estadual e federal Átila Nunes, ao comentar o caso, afirmou que o preconceito religioso vem sendo estimulado no Brasil há mais de quatro décadas por aqueles que veem as religiões de matriz africana como a “personificação de todos os nossos males”. “Por ser da família do axé, ela foi ridicularizada por um grupo de adolescentes que, com certeza, são de famílias que creem que só existe uma verdade religiosa: a deles”.

Os números e a fala do ex-deputado ajudam a compreender a gravidade do que ocorreu em Sepetiba. A intolerância religiosa no Brasil não é um fenômeno marginal ou esporádico. Entre 2021 e 2025, o número de casos aumentou 366%, segundo dados do Disque 100. As religiões de matriz africana, que representam cerca de 1% da população brasileira segundo o Censo do IBGE de 2022, são alvo de 71% das denúncias em que a religião da vítima é identificada. Ou seja, um grupo minoritário sofre de forma desproporcional a violência motivada por crença — o que revela o caráter estruturalmente racista da intolerância religiosa no país.

Diante desse quadro, a resposta institucional ao caso da estudante de candomblé levanta questões profundas. A transferência das agressoras para outras unidades escolares, medida aventada pela Seeduc, é uma solução paliativa que transfere o problema, mas não o enfrenta. Ela não promove reparação à vítima, nem educação para os agressores, nem transformação da cultura escolar que permitiu que o preconceito evoluísse para a violência física. Mais do que isso, a transferência silenciosamente legitima a ideia de que o problema é de “convivência” entre alunas, e não de um crime de racismo religioso que deve ser tratado com a seriedade que a lei exige.

A existência de uma cartilha contra a intolerância religiosa, por si só, é insuficiente. O caso revela que o material não chegou às salas de aula de forma efetiva, ou que foi reduzido a um documento burocrático sem impacto real no cotidiano escolar. A violência contra a estudante não ocorreu por acaso: ela foi precedida de discussões, de exposição em grupo de WhatsApp e de uma escalada que culminou em agressão física. Isso indica falhas graves na capacidade da escola de identificar e intervir em situações de preconceito antes que se tornem violentas.

É preciso ir além das sindicâncias e das transferências. A escola precisa ser um espaço de formação para a cidadania, o que inclui o respeito à diversidade religiosa e o combate ativo ao racismo. Isso exige:

  • Formação continuada de professores e funcionários para identificar e lidar com casos de intolerância religiosa;
  • Protocolos claros de acolhimento e proteção para vítimas, com acompanhamento psicológico e suporte jurídico;
  • Medidas disciplinares que eduquem os agressores, e não apenas os removam do ambiente;
  • Parceria com comunidades de terreiro e lideranças religiosas de matriz africana para construção de projetos pedagógicos;
  • Fiscalização efetiva da aplicação das leis que criminalizam o racismo e a intolerância religiosa.

O caso da adolescente de Sepetiba é um alerta. Ele mostra que a intolerância religiosa não é um problema do passado ou de “outros” — é uma violência que ocorre todos os dias, em escolas, ruas e lares brasileiros, contra crianças e adolescentes que têm o direito de professar sua fé em paz. A resposta das autoridades não pode se limitar a mover as peças do tabuleiro. É necessário enfrentar a raiz do problema: o racismo religioso que persegue as tradições de matriz africana há séculos e que continua a ser reproduzido, inclusive por jovens que aprendem em casa que a diversidade religiosa é uma ameaça.

Enquanto o discurso oficial repetir frases de repúdio e medidas superficiais, enquanto as agressoras forem simplesmente transferidas e a vítima permanecer com suas lesões físicas e emocionais, a mensagem que se envia é a de que a vida e a fé de uma jovem candomblecista valem menos do que o conforto de uma escola que prefere não lidar com o conflito. O Estado laico e a liberdade de crença, previstos na Constituição, não podem ser meras palavras em uma cartilha. Eles precisam ser praticados dentro das salas de aula, nos corredores, nos grupos de WhatsApp e, acima de tudo, na resposta firme e exemplar a cada ato de violência.

Com informações de g1.globo.com, Gov.br (Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania), Ibase e Alma Preta ■

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