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A vitória preliminar de Espriella na Colômbia e os perigos da importação do modelo Bukele
Por trás do discurso de segurança pública, o alerta sobre uma política de perseguição a adversários, violações de direitos humanos e um quadro econômico cada vez mais sombrio
America do Sul
Foto: https://ichef.bbci.co.uk/ace/ws/640/cpsprodpb/5bb6/live/f5366dd0-6e75-11f1-982a-d14680cccce2.jpg.webp
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■   Bernardo Cahue, 23/06/2026

O candidato da direita colombiana Abelardo De la Espriella conquistou uma vitória apertada nas eleições presidenciais do último domingo (21), segundo a contagem preliminar dos votos. Com 49,66% dos votos, contra 48,7% do senador Iván Cepeda, aliado do atual presidente Gustavo Petro, o advogado e empresário de 47 anos – que se autodenomina "El Tigre" – alcançou seu primeiro cargo eletivo com um discurso antissistema e propostas de linha-dura na segurança.

De la Espriella não esconde suas inspirações. Em sua campanha, declarou admirar abertamente os governos de Nayib Bukele, em El Salvador, Javier Milei, na Argentina, e Donald Trump, nos Estados Unidos. Prometeu construir megapresídios, bombardear guerrilheiros com apoio dos EUA e de Israel, e flexibilizar o porte de armas para civis. Sua vitória representa uma guinada radical à direita na Colômbia, encerrando o parêntese de quatro anos de governo de esquerda.

No entanto, a euforia da direita latino-americana – celebrada por figuras como o senador Flávio Bolsonaro, que chamou o resultado de "triunfo das agendas de direita na América Latina" – esbarra em uma realidade incômoda: o modelo Bukele que De la Espriella promete importar tem sido alvo de investigações sérias sobre ligações com o crime organizado.

O influente diário digital salvadorenho El Faro produziu um documental que detalha supostos "pactos criminais" de Bukele com as gangues Mara Salvatrucha (MS-13) e Barrio 18, que teriam sido rompidos em 2022 para dar início à guerra antipandillas. Segundo as investigações, Bukele teria negociado com líderes do alto escalão do MS-13 em um "pacto corrupto", e as pandillas chegavam a se referir a ele pelo codinome "Batman". As denúncias incluem ainda acusações de que o governo salvadorenho congelou bens de jornalistas do El Faro em represália às investigações.

Ou seja: o combate ao crime propagandeado por Bukele e agora por De la Espriella não passa de uma fachada para prender rivais e consolidar poder, enquanto as verdadeiras conexões com o submundo do crime são mantidas em segredo. A política de "mão de ferro" – que já resultou em mais de 91 mil detidos em El Salvador, com 8 mil libertados por inocência – é, na prática, uma ferramenta de perseguição seletiva.

Paralelamente, o quadro econômico e social de El Salvador sob Bukele é desolador. Entre 2019 e 2026, o custo de vida no país aumentou 30%, empurrando 138 mil pessoas para a pobreza extrema, em meio ao desemprego e à precarização dos serviços básicos. A inflação disparou de 3,47% em 2021 para 7,2% em 2022, e organizações populares denunciam que "as condições de vida da população continuam se deteriorando". A promessa de segurança veio acompanhada de um Estado perpétuo de exceção, violações sistemáticas de direitos humanos e um regime que especialistas já equiparam a Venezuela e Nicarágua em termos de repressão.

Ao importar esse modelo para a Colômbia, De la Espriella não está prometendo segurança – está prometendo autoritarismo com fachada de ordem.

Outro aspecto que merece análise crítica é a apropriação política de símbolos nacionais, estratégia que De la Espriella herdou diretamente de Jair Bolsonaro. O presidente eleito da Colômbia desafiou uma ordem judicial que proibia o uso da camisa amarela da seleção colombiana em atos de campanha. A Justiça colombiana inicialmente proibiu o uso, concluindo que a associação da veste com um candidato "compromete a neutralidade dos símbolos nacionais", mas depois recuou em decisão controversa.

De la Espriella e seus apoiadores adotaram a camisa esportiva como símbolo político, em um movimento que lembra a estratégia adotada pela direita brasileira. A tática, porém, teve consequências práticas no Brasil. Assim como a "amarelinha" da seleção brasileira – associada ao bolsonarismo – encalhou nas prateleiras durante a Copa do Mundo, sendo relegada e substituída pela camisa azul, o mesmo fenômeno pode se repetir na Colômbia. O senador Flávio Bolsonaro, que convocou seus apoiadores a vestir a tradicional amarelinha, consolidou a politização do futebol como parte da estratégia da direita sul-americana – uma estratégia que desvirtua símbolos nacionais em benefício de projetos de poder e, no campo prático, afasta o torcedor comum, que passa a rejeitar a camisa por seu significado político.

A vitória de De la Espriella na Colômbia não é apenas uma mudança de governo – é a consolidação de um novo eixo autoritário na América Latina, que une Trump, Bukele, Milei e os Bolsonaro em torno de uma agenda comum: Estado mínimo para os pobres, mão de ferro para os adversários, e benefícios máximos para as elites. O preço desse modelo, como já se vê em El Salvador, é pago com pobreza, inflação, miséria e liberdades suprimidas.

A Colômbia, que há quatro anos ensaiou um caminho alternativo com o primeiro governo de esquerda de sua história, agora embarca em uma experiência que já se mostrou fracassada em seus próprios termos – a não ser que o objetivo real não seja o bem-estar da população, mas a concentração de poder e a impunidade para o crime organizado.

Com informações de Agência Brasil, G1, BBC News Brasil, UOL Notícias, Estadao, Swissinfo, El Faro, teleSUR, EFE, Folha de S.Paulo ■

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