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O longa-metragem Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, tornou-se o centro de uma tempestade de suspeitas que envolve cifras milionárias, negociações secretas e uma mansão no Texas. Segundo documentos apresentados pela própria produtora Go Up Entertainment à Justiça, o filme consumiu cerca de R$ 75 milhões. Desse montante, a maior parte — R$ 54 milhões — foi gasta nos Estados Unidos, enquanto R$ 20,9 milhões foram usados em solo brasileiro.
Entretanto, o valor declarado pela produtora representa apenas uma fração do que foi efetivamente negociado nos bastidores da política e do cinema. Áudios e mensagens obtidos com exclusividade pelo portal The Intercept Brasil revelaram que o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pediu diretamente ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do extinto Banco Master, um total de US$ 24 milhões para bancar a produção – o equivalente a cerca de R$ 134 milhões. De acordo com as conversas, o senador chegou a cobrar parcelas atrasadas, demonstrando constrangimento, mas preocupação com o andamento das filmagens.
A discrepância entre os valores é apenas um dos aspectos nebulosos do caso. A perícia encomendada pela defesa da produtora, utilizada para rebater suspeitas de desvio de recursos públicos, afirma que os R$ 75 milhões saíram de um fundo sediado nos Estados Unidos, o Havengate, controlado por aliados do deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro. Ironia ou não, foi exatamente para esse mesmo fundo que Vorcaro transferiu cerca de US$ 10,6 milhões (R$ 61 milhões) dos recursos solicitados por Flávio. Na prática, o banqueiro do Master bancou mais de 80% dos custos totais do filme.
Diante das revelações, a bancada do Partido dos Trabalhadores protocolou uma Proposta de Fiscalização e Controle no Tribunal de Contas da União (TCU). O pedido busca investigar possíveis irregularidades na negociação e a suspeita de que "emendas Pix" tenham servido de lastro indireto para o projeto audiovisual. A estrutura de pagamentos internacionais, que envolveu a empresa Entre Investimentos e Participações (apontada como "laranja" de Vorcaro) e o fundo Havengate no Texas, levantou alertas da PF sobre possíveis crimes de lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
Paralelamente à engenharia financeira do filme, a Polícia Civil de São Paulo investiga se o contrato milionário de R$ 157 milhões firmado entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil (ICB), ONG presidida pela dona da Go Up, pode ter sido usado para financiar Dark Horse. Em 2012, o TCU já havia classificado o mesmo ICB como uma entidade "de fachada", sem capacidade operacional. O acordo, que previa a instalação de pontos de internet em comunidades vulneráveis, foi aditado em seis dias após vir a público, saltando de R$ 108 milhões para mais de R$ 157 milhões.
As investigações ganharam um novo capítulo quando foi descoberto que parte do dinheiro negociado para o filme foi parar em um imóvel de luxo no Texas. Reportagens apontam que pelo menos R$ 4 milhões foram utilizados na compra de uma mansão em Arlington, nos arredores de Dallas. A residência foi adquirida pelo Mercury Legacy Trust, um fundo administrado por Paulo Calixto, o mesmo advogado de Eduardo Bolsonaro que gere o fundo Havengate. Na prática, a estrutura montada para receber os aportes de Vorcaro e financiar a cinebiografia também serviu para abrigar interesses imobiliários da família.
O dono nominal da mansão texana é o policial militar André Porciúncula, ex-secretário de Cultura do governo Bolsonaro e aliado de Eduardo. No entanto, seu patrimônio declarado ao TSE em 2024 era de apenas R$ 164 mil, um valor incompatível com o padrão da propriedade. A disparidade entre a declaração e a realidade patrimonial levanta suspeitas de que o imóvel seja, na verdade, um ativo do clã Bolsonaro disfarçado por intermédio de laranjas.
Especialistas em cinema ouvidos pela BBC News Brasil classificaram o orçamento de R$ 134 milhões como "desproporcional" e exagerado, considerando o elenco e a equipe técnica envolvidos, que não possuem o apelo comercial de grandes produções de Hollywood. A Ancine também abriu investigação para definir se Dark Horse deve ser classificado como produção nacional ou estrangeira, já que o filme é falado em inglês e conta com profissionais americanos.
Enquanto isso, a Go Up Entertainment mantém seu discurso oficial de que o financiamento é integralmente privado e que a empresa nada deve ao poder público. O senador Flávio Bolsonaro, por sua vez, admitiu o contato com Vorcaro, mas negou ter oferecido qualquer vantagem em troca do patrocínio. Já o deputado Mário Frias (PL-SP), coprodutor do longa, chegou a afirmar que a produção "não recebeu um centavo sequer" do banqueiro.
As contradições são evidentes: a produtora afirma que o filme custou R$ 75 milhões, mas o senador pediu quase o dobro; o dinheiro foi para um fundo no Texas, e uma mansão foi erguida com valores que transitam na mesma engrenagem financeira; a ONG que ajuda a viabilizar o projeto foi classificada como "de fachada" pelo TCU há mais de uma década. Enquanto os fatos não são totalmente esclarecidos, uma certeza permanece: o caso Dark Horse é um retrato fiel de como negócios bilíngues e estruturas financeiras opacas têm desafiado a capacidade investigativa das instituições brasileiras.
Com informações de Agência Pública, Intercept Brasil, Folha de S.Paulo, O Globo, Estadão, UOL, BBC News Brasil, Brasil de Fato, Revista Fórum, Infomoney, Jornal do Comércio, Jornal Sete, TMC, PT.org.br e Fundação Perseu Abramo.