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Quarta Marcha Federal Universitária exige fim do desmonte da Educação Pública por Milei
Mais de 1,5 milhão de pessoas protestam contra cortes históricos; governo de Javier Milei resiste em cumprir lei de financiamento aprovada pelo Congresso
America do Sul
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■   Bernardo Cahue, 13/05/2026

Mais de um milhão e meio de pessoas foram às ruas na terça-feira (12) em toda a Argentina para participar da quarta Marcha Federal Universitária, um protesto massivo contra os profundos cortes orçamentários na educação superior implementados pelo governo do presidente Javier Milei. Com atos concentrados na histórica Plaza de Mayo, em Buenos Aires, e replicados em cidades como Córdoba, Rosario e Mendoza, a manifestação representa o maior movimento de resistência popular à política de ajuste fiscal do governo libertário, que tem resultado no desmantelamento de um dos sistemas de ensino público mais prestigiados da América Latina.

Contexto e Causas do Movimento

Desde sua posse em dezembro de 2023, Javier Milei implementou uma severa política de austeridade fiscal que afetou drasticamente o financiamento das universidades nacionais. Dados alarmantes ilustram a situação: os gastos reais com o ensino superior caíram 29% entre 2023 e 2025, atingindo o nível mais baixo desde 2006. O orçamento destinado às universidades caiu de mais de 0,7% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2023 para pouco acima de 0,4% em 2026, o menor patamar desde 1989. Segundo o reitor da Universidade Nacional de Rosário, Franco Bartolacci, as transferências nacionais para o setor reduziram em mais de 45% desde 2023.

Essa situação de penúria financeira agravou-se ainda mais com o anúncio de novos cortes na véspera da manifestação. Horas antes da marcha, o governo oficializou um ajuste de quase 79 bilhões de pesos (cerca de R$ 78 bilhões, em valores atuais) em diversas áreas educacionais, incluindo programas de alfabetização, bolsas estudantis, salários docentes e infraestrutura universitária.

Reivindicações e Impacto nos Servidores

O principal grito de guerra da manifestação, estampado em cartazes e entoado pelos manifestantes, é claro: "Milei, cumplí la ley" (Milei, cumpra a lei). A lei em questão é a Lei de Financiamento Universitário (Lei 27.795), aprovada pelo Congresso em outubro de 2025 após a derrubada do veto presidencial. A norma obriga o governo a atualizar mensalmente as partidas orçamentárias das universidades e recompor os salários de acordo com a inflação, além de garantir recursos para bolsas estudantis. No entanto, o governo de Milei se recusa a implementar a lei, levando o caso ao Supremo Tribunal e argumentando que a medida comprometeria o superávit fiscal, pilar fundamental de seu plano econômico.

A comunidade universitária, organizada com o apoio da Federação Argentina de Universidades (FUA) e do Conselho Interuniversitário Nacional (CIN), também denuncia a deterioração catastrófica das condições de trabalho. As perdas salariais são severas:

  • Os salários dos professores perderam, em média, 33,7% do poder de compra desde a chegada de Milei ao poder.
  • Sindicatos docentes denunciam que a perda real dos salários ultrapassa os 40% no período, o que já levou centenas de professores a pedir demissão.
  • Um professor em tempo integral na Universidade Nacional de Mendoza recebe 1.500.000 pesos por mês (aproximadamente R$ 9.000), um valor que, segundo a reitora Esther Sánchez, torna "praticamente impossível sustentar uma família".

A crise não se limita aos salários. Na prestigiada Faculdade de Ciências Exatas da Universidade de Buenos Aires (UBA), as aulas estão suspensas por uma greve que já dura três meses. Os hospitais universitários, essenciais para o atendimento de milhões de argentinos, estão à beira do colapso, sem recursos para funcionar.

Reação do Governo e Crise Política

A resposta do governo à manifestação foi de confronto direto. Através de comunicados e nas redes sociais, Javier Milei classificou a marcha como um "ato opositor" e repetiu a acusação de que por trás do movimento estaria a defesa de "privilégios" ou "caixas políticas" da educação, uma estratégia narrativa que seu governo já utilizou em outros conflitos sociais.

O subsecretário de Políticas Universitárias, Alejandro Álvarez, foi enfático: "A única lei que vamos cumprir é a do orçamento". A postura do Executivo foi reforçada pela secretária-geral da Presidência, Karina Milei, que minimizou o protesto, chamando-o de uma manobra da "política" para instalar, escudando-se atrás de uma causa nobre, a falsa ideia de que o governo quer desfinanciar as universidades.

A análise política, no entanto, sugere que a imagem do governo sai ainda mais desgastada da crise. O conflito se soma ao desgaste da credibilidade oficial, em meio a investigações sobre supostos casos de corrupção e enriquecimento ilícito contra membros de alto escalão do governo, como o chefe de Gabinete, Manuel Adorni, figura central dos cartazes de protesto.

Repercussão Internacional

A quarta Marcha Federal Universitária repercutiu na imprensa mundial. Veículos como a France Presse (AFP), a Reuters, a Associated Press (AP) e a agência EFE noticiaram o protesto, destacando a defesa da universidade pública como um símbolo da identidade argentina. A Deutsche Welle (DW), em sua cobertura, lembrou que os cortes de Jair Milei, alinhado ao ex-presidente americano Donald Trump, colocam a Argentina em uma rota de colapso educacional semelhante ao dos EUA, com a diferença de que o ensino superior argentino sempre foi gratuito e de altíssimo nível para as classes populares.

Próximos Passos

O impasse sobre o futuro das universidades públicas argentinas deve se arrastar. A disputa legal sobre a Lei de Financiamento Universitário está nas mãos da Suprema Corte, que não tem prazo para decidir. Enquanto isso, a comunidade universitária promete manter a pressão, com novas paralisações e atos já sendo convocados para as próximas semanas. O reitor da UBA, Ricardo Gelpi, alertou que, sem uma solução imediata, os danos à pesquisa de ponta e à formação de profissionais serão irreversíveis.

Mariela, uma estudante de 20 anos da Faculdade de Filosofia e Letras da UBA, resume o sentimento de quem esteve nas ruas: "Não estamos pedindo um privilégio, estamos exigindo um direito. A universidade nos tirou da pobreza. Tirá-la de nós é tirar o nosso futuro".

Com informações de Agência EBC, AFP, AP, EFE, Reuters, DW, El País, RFI e Clarín ■

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