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Crise eleitoral no Peru: contagem das urnas completa dez dias sem resultado
Atrasos logísticos, cédulas encontradas no lixo, atas contestadas e acusações de fraude travam apuração; renúncia de Piero Corvetto da ONPE agrava crise de confiança às vésperas do segundo turno
America do Sul
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■   Bernardo Cahue, 22/04/2026

A contagem dos votos das eleições gerais do Peru completou dez dias sem definição do segundo turno presidencial, mergulhando o país em uma grave crise de credibilidade institucional. Nesta terça-feira (21), o chefe do Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE), Piero Corvetto, renunciou ao cargo sob forte pressão política e na véspera de ser interrogado pelo Ministério Público por falhas operacionais que marcaram o pleito de 12 de abril.

Em carta divulgada em sua conta na rede social X, Corvetto afirmou que sua saída era “necessária e inevitável” para que a segunda volta, marcada para 7 de junho, ocorresse “em um contexto de maior confiança pública”. O agora ex-dirigente, que estava no cargo desde agosto de 2020, já havia reconhecido atrasos logísticos na distribuição de materiais eleitorais, mas sempre negou a existência de irregularidades. Horas depois de renunciar, a Procuradoria da Nação solicitou sua detenção preliminar e ele entregou os passaportes peruano e italiano às autoridades. A Junta Nacional de Justiça (JNJ) aceitou por unanimidade a renúncia, e o gerente-geral Bernardo Pachas assumiu interinamente o comando da ONPE.

As razões para a lentidão na apuração são múltiplas. O Júri Nacional de Eleições (JNE) anunciou que os resultados finais só devem ser conhecidos até 15 de maio, mais de um mês após a votação. Entre os principais fatores apontados estão:

  • Contestação de atas: Aproximadamente 5.143 atas eleitorais, representando cerca de um milhão de votos, foram impugnadas devido a inconsistências, dados incompletos ou erros de preenchimento. Cada uma dessas atas pode levar até três dias para ser reavaliada.
  • Disputa acirrada pelo segundo lugar: A ultraconservadora Keiko Fujimori já tem vaga garantida no segundo turno, com cerca de 17% dos votos. No entanto, a briga pela segunda vaga está tecnicamente empatada entre o esquerdista Roberto Sánchez (pouco mais de 12%) e o também ultraconservador Rafael López Aliaga (pouco menos de 12%), separados por uma margem que oscila entre 14 mil e 15 mil votos.
  • Estratégia de impugnação em massa: Em cenários tão apertados, partidos recorrem a contestações para alongar o processo e tentar reverter o resultado adverso. “O objetivo das impugnações em massa, inclusive em zonas onde o candidato que reclama está em desvantagem, é tirar votos do adversário e alongar todo o processo”, explicou o cientista político Fernando Tuesta à AFP.
  • Complexidade do pleito: Os peruanos votaram simultaneamente para presidente, vice-presidentes, senadores, deputados e representantes andinos, com um recorde de 35 candidatos à Presidência, o que multiplicou o volume de atas a serem processadas.

Além das questões técnicas, episódios concretos de desorganização e suspeitas de má conduta alimentaram a desconfiança popular. No dia da votação, atrasos na entrega de urnas e cédulas impediram que cerca de 50 mil pessoas votassem, forçando a extensão do pleito por 24 horas em parte do país — uma medida inédita no Peru. Dias depois, foram encontradas quatro caixas com aproximadamente 1.200 cédulas eleitorais em um contêiner de lixo no distrito de Surquillo, em Lima. O Ministério Público abriu investigação e realizou buscas nas instalações da ONPE.

Apesar das denúncias, a missão de observadores da União Europeia (UE) afirmou não ter encontrado “nenhuma evidência objetiva de fraude”, embora tenha reconhecido “graves falhas” na organização logística da votação. A declaração, no entanto, não conteve a onda de protestos. No último domingo (19), pelo menos três mil pessoas foram às ruas de Lima convocadas por López Aliaga, que chegou a pedir a anulação do primeiro turno e oferecer recompensa por provas de irregularidades.

A crise eleitoral se insere em um quadro mais amplo de instabilidade política. O Peru terá seu nono presidente em dez anos, e desde 2016 nenhum chefe de Estado conseguiu completar o mandato. Antes mesmo da votação, uma pesquisa do Instituto de Estudos Peruanos (IEP) já indicava que 68% da população tinha pouca ou nenhuma confiança nas autoridades eleitorais do país. A demora na apuração e a renúncia do principal dirigente da ONPE só aprofundam essa descrença.

Neste momento, Keiko Fujimori aguarda o desfecho da briga entre Sánchez e López Aliaga para saber quem enfrentará na segunda volta. Enquanto isso, o sistema eleitoral tenta, a conta-gotas, dar transparência a um processo que expôs todas as fragilidades da jovem democracia peruana.

Com informações de G1, Folha de S.Paulo, UOL, Poder360, Al Jazeera, Reuters, Associated Press, AFP, El País, RFI, BBC Brasil, ABC News, The New York Times, Buenos Aires Herald, Internazionale, Euronews, Expresso (Portugal), Público (Portugal), Swissinfo, Infobae, El Comercio (Peru), Andina (Peru), Tokyo Shimbun (Japão), Financial Times (edição em chinês), CCTV+ (China) e Wikipedia ■

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