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O papel de Flávio e Eduardo Bolsonaro no ataque sistemático às urnas
Enquanto Flávio tenta modular o discurso para agradar ao centro, Eduardo radicaliza nas redes e nos EUA — uma estratégia de “policial bom e policial mau” que desgasta a democracia e já rendeu condenações e investigações
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■   Bernardo Cahue, 05/09/2026

Há um velho truque nos manuais de interrogatório e nas narrativas policiais, principalmente em realização de abordagens externas — as famosas "blitz": o método do “policial bom e policial mau”. Um primeiro agente chega com violência, ameaças e tom agressivo; o outro, na sequência, aparece como o interlocutor razoável, disposto a ouvir, a negociar, a “dar um jeito”. Juntos, conseguem do sujeito o que nenhum deles obteria sozinho, seja "vantagem" ou informação. A política brasileira, nos últimos meses, tem assistido a uma versão atualizada e perversa desse expediente — protagonizada pelos irmãos Flávio e Eduardo Bolsonaro. Um atua como o policial mau, o outro como o policial bom, mas o alvo é sempre o mesmo: minar a confiança no sistema eleitoral brasileiro.

A coreografia ficou nítida na sequência de eventos envolvendo as urnas eletrônicas. Em 21 de julho de 2026, o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) reuniu-se com diplomatas estrangeiros em Brasília e afirmou que as urnas eletrônicas brasileiras teriam a mesma origem da empresa venezuelana Smartmatic, associada a suspeitas de fraudes na Venezuela. A declaração era falsa — o TSE já havia desmentido essa associação em 2017, 2020, 2022 e 2026, esclarecendo que a Smartmatic jamais forneceu urnas ou softwares para o Brasil. Dois dias depois, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL), radicado nos Estados Unidos, entrou em cena. Fez uma live com o consultor argentino Fernando Cerimedo — indiciado no inquérito do golpe — e voltou a levantar suspeitas sobre a integridade das urnas. “Pressão sobre a urna eletrônica brasileira deve aumentar”, escreveu ele no X (antigo Twitter). E, em seguida, a pergunta retórica que não buscava resposta, mas sim sugerir a fraude: “Será que no Brasil as urnas eletrônicas são realmente invioláveis?”

A estratégia é quase cirúrgica. Flávio, o “policial bom”, lança a informação falsa em um ambiente controlado — uma reunião com diplomatas —, depois recua, pede desculpas, diz que “falou errado” e promete respeitar o resultado das eleições. Eduardo, o “policial mau”, radicaliza, amplifica a desinformação nas redes, ataca o sistema eleitoral com frases de efeito e se apresenta como o porta-voz da desconfiança. Um prepara o terreno; o outro detona a bomba. Um nega ter atacado as urnas; o outro assume o papel de inquisidor. A divisão de tarefas é tão evidente que chega a ser caricata — não fosse o prejuízo real que causa à democracia.

O ministro Kássio Nunes Marques, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, não se deixou enganar pelo truque. Em decisão liminar assinada na segunda-feira (31 de agosto) e divulgada em 2 de setembro, determinou que Eduardo Bolsonaro remova as postagens em até 24 horas, sob pena de multa, e o proibiu de reiterar a associação entre a Smartmatic e as urnas brasileiras. Nunes Marques classificou o conteúdo como “enganoso” e escreveu: “Com isso, transplanta para o contexto nacional fato documentado relativo exclusivamente à Venezuela, promovendo grave descontextualização apta a instigar, no eleitorado, desconfiança quanto à integridade do processo eleitoral”. O ministro também avaliou que a pergunta retórica de Eduardo “não busca resposta, mas sugere-a, cumprindo a mesma função persuasiva da afirmação categórica”.

A decisão atendeu a um pedido da Federação Brasil da Esperança (PT, PCdoB e PV) e foi enviada às principais plataformas — Meta, X, Google, YouTube, TikTok e Rumble — para que impeçam a veiculação, o compartilhamento e o impulsionamento do conteúdo desinformativo. O plenário do TSE ainda precisará referendar a liminar, mas o recado já foi dado: a Justiça Eleitoral não tolerará a repetição de uma mentira já desmentida dezenas de vezes.

O curioso é que, enquanto Eduardo era alvo da decisão judicial, Flávio seguia em sua tentativa de se descolar do irmão incendiário. Em 28 de agosto, em entrevista ao Jornal Nacional, o senador admitiu o erro: “Falei errado, ela não fabricou as urnas. Falei equivocadamente”. E acrescentou: “Vou respeitar o processo eleitoral e o resultado das eleições”. Aparentemente, o “policial bom” estava pronto para apartar diplomaticamente a crise provocada pelo “policial mau”. Mas a montagem tem uma falha: ambos são da mesma corporação, atuam com o mesmo objetivo e compartilham o mesmo DNA político.

Não se trata de uma divergência ocasional entre irmãos. A análise dos bastidores da campanha de Flávio revela que Eduardo é visto internamente como um “obstáculo crônico que impede a estratégia de moderação política” do senador. A leitura interna é de que o ex-deputado virou “um estorvo crônico, uma engrenagem que só fabrica problemas” para um projeto político que tenta “vestir o figurino da moderação”. Mas essa “moderação” é apenas cenográfica. Enquanto Flávio tenta convencer o eleitorado de centro de que é um político ponderado, Eduardo mantém acesa a chama do radicalismo que agrada à base mais extremista — e que, convenientemente, permite que Flávio apareça como a opção “razoável” da família.

A dinâmica entre os dois irmãos, no entanto, não se limita ao campo da comunicação política. Ela também atravessa investigações criminais de alto calibre. A Polícia Federal investiga se o dinheiro pedido por Flávio Bolsonaro ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, serviu para bancar despesas de Eduardo nos Estados Unidos. Segundo apurações, os recursos teriam sido desviados para um fundo sediado no Texas ligado ao ex-deputado. A operação da PF colocou sob os holofotes os elos financeiros do senador e o obscuro financiamento do filme “Dark Horse”. Em uma análise publicada pela CNN Brasil, a jornalista Thais Herédia afirmou que Vorcaro montou um “dream team do crime”, envolvendo “de milicianos à Faria Lima, de bicheiros a parlamentares, de policiais a diretores do Banco Central”.

O sociólogo Demétrio Magnoli, em coluna na Folha de S.Paulo, foi ainda mais incisivo: “Das rachadinhas a Hollywood, Flávio percorreu um longo caminho financeiro sem sair de seu lugar ético”. Magnoli aponta que os R$ 61 milhões repassados por Vorcaro à “irmandade dos Bolsonaro” destinavam-se a comprar proteção, não a financiar um filme. E conclui: “A promessa de Flávio ao escroque configura um contrato mafioso”.

Diante desse cenário, a pergunta que fica é: até quando a estratégia do “policial bom e policial mau” vai funcionar? A decisão de Nunes Marques contra Eduardo é um sinal de que a Justiça Eleitoral começa a reagir. Mas a trama dos irmãos Bolsonaro não é apenas sobre urnas — é sobre um projeto de poder que opera na fronteira entre a desinformação, a ilegalidade e a chantagem política. Enquanto um ataca violentamente, o outro se apresenta como o interlocutor diplomático. Mas ambos estão do mesmo lado da trincheira: o lado que, para vencer, está disposto a colocar em xeque a própria credibilidade do processo democrático brasileiro.

Ao fim, o que sobra é um alerta: a dupla dinâmica da desinformação pode até render palanque e engajamento nas redes, mas o preço pago pela sociedade é alto demais. A democracia não se sustenta com perguntas retóricas que insinuam fraudes, nem com recuos calculados que simulam arrependimento. Ela se sustenta com fatos — e os fatos, no caso das urnas eletrônicas, são claros, documentados e reiteradamente confirmados pela Justiça Eleitoral. O resto é teatro policial. E o Brasil já assistiu a essa peça tempo demais.

Com informações de Agência Brasil, Bahia Notícias, BNews, CNN Brasil, Diário do Centro do Mundo, Folha de S.Paulo, O Tempo, Poder360, Revista Fórum ■

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