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Ridicularização, acusação cruzada e crime: os desdobramentos do caso João Victor x GH Rell
Vídeo não mostra ataque homofóbico explícito, mas expõe perseguição, deboche e ato de incitação; streamer nega preconceito, acusa ator de racismo e reclama de ataques em seu perfil
Rock in Rio
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■   Bernardo Cahue, 06/09/2026

O caso envolvendo o ator João Victor Gonçalves, intérprete de Mau Mau na novela “Quem Ama Cuida”, e o streamer GH Rell RJ ganhou novos contornos neste fim de semana. O que começou como uma abordagem hostil registrada ao vivo durante a chegada do artista ao Rock in Rio, na noite de sexta-feira (4), evoluiu para uma troca de acusações, investigação policial, banimento de plataforma e um debate acalorado sobre os limites do entretenimento nas redes sociais.

As imagens que viralizaram mostram João Victor caminhando sozinho em direção à Cidade do Rock quando é abordado por GH e outros dois jovens. O grupo o segue pelas ruas enquanto faz comentários depreciativos sobre suas roupas — “Tá horroroso”, “feio” —, entre gargalhadas. Em determinado momento, um dos integrantes ergue um saco preto que quase atinge a cabeça do artista, o que configura um ato de incitação à agressão física, ainda que não tenha havido contato direto. João Victor aparece visivelmente incomodado, acelera o passo e não reage às provocações.

O ator, que na época se dirigia ao festival para cumprir um compromisso de trabalho, relatou posteriormente em um vídeo emocionado que, no momento da abordagem, seu principal temor era ser assaltado. “Na hora me senti muito acuado. Estava sentindo uma violência, mas eu estava pensando muito na minha segurança e eu queria acelerar o passo para fugir daquela situação. Não sabia o que podia acontecer, qual era o próximo passo que aqueles garotos poderiam dar ali comigo”, desabafou. Ele também relacionou o episódio à trajetória de seu personagem Mau Mau, que enfrenta homofobia dentro da própria família, e afirmou que o caso “não vai passar em branco”.

GH pede desculpas, mas mantém críticas e acusa ator de racismo

Diante da repercussão, GH Rell RJ publicou um vídeo neste sábado (5) no qual pede desculpas pela abordagem, mas nega qualquer intenção homofóbica e acusa João Victor de racismo. O streamer questionou a declaração do ator sobre o medo de ser roubado: “Por que você estava com medo de ser roubado? Por causa da minha cor? É porque eu sou preto?”.

“Pega a visão, João: máximo respeito. Não tenho preconceito nenhum com você. O seu público está vindo me atacar de todas as formas aqui: racistas, xingando minha família e sendo preconceituosos comigo... É isso que você quer?”, disparou GH no vídeo. Em seguida, reforçou sua opinião sobre o visual do ator: “A minha opinião vai continuar sendo a mesma. Eu não gostei da sua calça. Onde eu moro, dentro de uma comunidade, é muito difícil a gente ver um estilo desses. Então, quando eu vi, fiquei perplexo, abismado, e ri mesmo. E essa vai continuar sendo a minha opinião.”

O streamer também afirmou que ele e sua família passaram a receber ataques racistas e outras manifestações preconceituosas após a viralização do vídeo. “Se eu fui homofóbico para os seus seguidores, para os meus seguidores você foi racista”, disse, cobrando uma retratação do ator.

Acusação de racismo: o que dizem os fatos

A acusação de racismo feita por GH contra João Victor, no entanto, é alvo de questionamentos. O ator, em seu relato, não atribuiu o medo de ser roubado à cor de GH — essa associação partiu da interpretação do próprio streamer. “Portanto, o que existe neste momento é uma acusação de racismo feita por GH contra João Victor, e não um fato comprovado”, destacou o Jornal de Brasília em sua cobertura.

A assessoria de João Victor classificou a acusação de racismo como “sem fundamento”, argumentando que manifestações racistas feitas posteriormente por seguidores do ator não podem ser atribuídas a ele nem alterar a análise da abordagem original. Em novo comunicado, GH afirmou que decidiu apagar a publicação em que acusava João Victor de racismo.

Plataforma Kick bane perfil de GH; Polícia e MP investigam

A plataforma Kick, onde a live foi transmitida, baniu o perfil do streamer após a repercussão das acusações de homofobia. Usuários que procuravam pela conta de GH na noite de sábado (5) se deparavam com a mensagem: “Ops, algo deu errado. Não encontramos a página que você procura”. Até o momento, a Kick não divulgou publicamente uma nota detalhando a medida ou os critérios adotados contra o streamer.

Paralelamente, a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) da Polícia Civil do Rio de Janeiro abriu investigação para apurar o episódio, mesmo sem um registro formal de boletim de ocorrência feito pelo ator. A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) também acionou o Ministério Público contra o streamer e a plataforma Kick.

O Rock in Rio, por sua vez, repudiou qualquer tipo de violência, mas informou que o assédio ocorreu fora do perímetro coberto por sua equipe de segurança privada.

Reações e debate nas redes sociais

O caso gerou forte comoção nas redes, com internautas, colegas de elenco e figuras públicas manifestando apoio a João Victor. O autor da novela “Quem Ama Cuida”, Walcyr Carrasco, também se pronunciou em defesa do ator. O influenciador Gil do Vigor classificou o episódio como crime: “Homofobia não é entretenimento, é crime”.

Ao mesmo tempo, GH reclamou publicamente das reações racistas em seu perfil, afirmando ter sido alvo de ataques após a repercussão do caso. A situação expõe a complexidade do episódio: de um lado, a violência simbólica e a ridicularização sofridas por João Victor; de outro, as acusações de racismo contra o ator e os ataques direcionados ao streamer e sua família.

O que está em jogo

O caso levanta questões fundamentais sobre os limites do entretenimento em transmissões ao vivo, o papel das plataformas de streaming na moderação de conteúdo e a banalização da violência contra pessoas LGBTQIAP+ em nome da audiência. João Victor resumiu o sentimento em seu desabafo: “Homofobia não é entretenimento”.

A investigação da Decradi e a atuação do Ministério Público deverão esclarecer se houve crime de homofobia — que, desde 2019, é equiparado ao racismo pelo Supremo Tribunal Federal — e se a conduta de GH e seus amigos se enquadra na legislação. Enquanto isso, o debate sobre responsabilidade, preconceito e ética nas redes sociais continua aberto.

Principais desdobramentos do caso:

  • Abordagem: João Victor foi seguido e ridicularizado por GH e outros dois jovens na entrada do Rock in Rio; um dos integrantes ergueu um saco preto que quase atingiu a cabeça do ator.
  • Reação do ator: João Victor desabafou emocionado, afirmou ter sentido medo de ser roubado e classificou o episódio como homofóbico.
  • Posicionamento de GH: O streamer pediu desculpas, mas negou homofobia, manteve críticas à roupa do ator e o acusou de racismo.
  • Acusação de racismo: GH questionou o medo de roubo relatado por João Victor e associou a declaração à sua cor; a acusação, porém, é uma interpretação do streamer, não um fato comprovado.
  • Banimento: A plataforma Kick baniu o perfil de GH após a repercussão.
  • Investigação: A Decradi abriu inquérito e a deputada Erika Hilton acionou o Ministério Público.
  • Ataques racistas: GH afirmou que ele e sua família receberam ataques racistas após o episódio.

Frases que marcaram o caso:

  1. “Na hora me senti muito acuado, estava sentindo ali uma violência, mas para mim eu estava pensando muito na minha segurança.” – João Victor Gonçalves
  2. “Homofobia não é entretenimento.” – João Victor Gonçalves
  3. “Isso não vai passar em branco.” – João Victor Gonçalves
  4. “Em nenhum momento eu fui homofóbico com você. E você também tem que se retratar.” – GH Rell RJ
  5. “A minha opinião vai continuar sendo a mesma. Eu não gostei da sua calça.” – GH Rell RJ
  6. “Por que você estava com medo de ser roubado? Por causa da minha cor? É porque eu sou preto?” – GH Rell RJ

A Assessoria de Comunicação do Rock in Rio emitiu uma nota sobre o assunto:

"O caso do assédio ocorrido com o ator João Victor Gonçalves aconteceu além das áreas do perímetro de segurança coberto pelo festival. A organização orienta ao público que utilize os transportes oficiais do evento, como BRT, que deixa os passageiros mais próximos das entradas. O Rock in Rio reforça que condutas de assédio são incompatíveis com os valores do festival que tem como compromisso construir um ambiente diverso, inclusivo e respeitoso para todas as pessoas dentro da Cidade do Rock.

Esse compromisso se traduz em ações permanentes de conscientização, prevenção e enfrentamento a qualquer forma de discriminação ou violência, reforçando que o respeito é um valor inegociável. A Cidade do Rock conta com uma área de Pluralidade, que atua para tornar o festival cada vez mais diverso, inclusivo, equânime e acolhedor, promovendo representatividade tanto entre seus colaboradores quanto entre o público.

Acreditamos que o Rock in Rio é um espaço de encontro, respeito e convivência. Por isso, adotamos uma série de medidas preventivas para promover um ambiente seguro, diverso e acolhedor para todas as pessoas, reforçando que qualquer forma de discriminação é incompatível com os valores do festival.

As ações incluem campanhas de conscientização e comunicação ao longo da Cidade do Rock, conteúdos educativos, treinamentos das equipes operacionais para identificação e encaminhamento de situações de discriminação, além da disponibilização de canais de acolhimento para quem sofrer ou presenciar casos de racismo, LGBTfobia, xenofobia, intolerância religiosa, capacitismo, etarismo, gordofobia ou qualquer outra forma de violência ou preconceito."

Com informações de UOL, CNN Brasil, Diário do Centro do Mundo, Jornal de Brasília, Revista Fórum, Metrópoles, Terra, Vogue Brasil, CARAS Brasil, O Tempo, Extra, Folha de S.Paulo, Diário do Nordeste, Portal R1, Midiamax, Brasil 247, Purepeople, Nsctotal e Portal Área VIP ■

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