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O vocalista do Capital Inicial, Dinho Ouro Preto, protagonizou o momento de maior carga política da primeira noite do Rock in Rio 2026. Antes de entoar o clássico "Que País É Este", da Legião Urbana, o músico dedicou a canção ao banqueiro Daniel Vorcaro, preso e investigado por liderar um dos maiores esquemas de fraudes financeiras do país, e cobrou publicamente explicações de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e de políticos de diferentes espectros ideológicos.
A manifestação ocorreu na noite de sexta-feira (4), durante a apresentação da banda no Palco Sunset, que fechou a programação do primeiro dia do festival. Com a presença do guitarrista Dado Villa-Lobos, ex-Legião Urbana, como convidado especial, o Capital Inicial intercalou sucessos próprios com hinos do rock nacional em uma homenagem aos 30 anos da morte de Renato Russo (1960-1996), autor da canção que se tornaria o grito de protesto da noite.
Antes de iniciar a música, Dinho Ouro Preto discursou diretamente ao público da Cidade do Rock: "Essa próxima música é para o Daniel Vorcaro. Essa música é para os ministros do STF que nos devem explicações. Essa vai para os políticos de direita, de centro, de esquerda, que nos devem explicações". Em seguida, completou com uma mensagem de esperança: "A democracia brasileira vai sobreviver a isso. Juntos, somos mais fortes".
A fala do cantor ocorreu em meio à mais recente crise que abalou o Supremo Tribunal Federal, deflagrada após o ministro André Mendonça, relator das investigações sobre o Banco Master na Corte, retirar o sigilo de relatórios da Polícia Federal. Os documentos revelaram mensagens trocadas entre o banqueiro Daniel Vorcaro e um telefone atribuído ao ministro Alexandre de Moraes, nas quais Vorcaro pedia encontros e chegou a perguntar, dois dias antes de ser preso em novembro de 2025, se deveria deixar o país. As respostas atribuídas a Moraes não constam do material porque teriam sido enviadas por recursos de visualização única.
As revelações da semana também atingiram outras autoridades e políticos:
Antes de subir ao palco, Dinho Ouro Preto já havia se referido a Renato Russo como "o maior nome do rock brasileiro". A conexão entre as duas bandas é antiga: o Capital Inicial tem entre seus fundadores o baixista Flávio Lemos, que tocou com Russo na banda Aborto Elétrico, uma fase pré-Legião. Durante o show, Dado Villa-Lobos se incorporou à formação já na terceira música do setlist, "Será", e tocou com a banda sucessos como "Geração Coca-Cola" e "Quase Sem Querer".
A apresentação do Capital Inicial no Rock in Rio ocorreu horas depois de o festival ter recebido outras atrações como NX Zero, Nova Twins e, na atração principal da noite, a banda americana Foo Fighters. A manifestação política de Dinho Ouro Preto, no entanto, roubou a cena e colocou os holofotes sobre as investigações que envolvem o Banco Master, seu antigo controlador Daniel Vorcaro e as relações do banqueiro com integrantes do Judiciário e do Legislativo.
Ao escolher "Que País É Este" — composição que Renato Russo escreveu em 1978, ainda na ditadura militar, e que se tornou um hino de questionamento à realidade política brasileira — Dinho Ouro Preto deu peso simbólico à sua dedicatória. "Sujeira para todo lado", diz um dos versos da canção, ecoando as denúncias que têm sacudido Brasília. Em suas redes sociais, o cantor definiu o momento como uma reflexão sobre a "distopia brasileira".
A declaração de Dinho ocorre em um cenário de crescente tensão política, com novas revelações sobre o caso Banco Master surgindo a cada dia. Na quarta-feira (2), o ministro André Mendonça confirmou que recebeu Daniel Vorcaro para uma reunião em março de 2025. A "guerra de vazamentos" que tomou conta da semana colocou sob suspeita não apenas o banqueiro, mas também autoridades dos Três Poderes. O Rock in Rio, palco tradicionalmente dedicado à música e ao entretenimento, tornou-se, por alguns minutos, uma tribuna de protesto e cobrança — e Dinho Ouro Preto não hesitou em ocupá-la.
Com informações de Diário do Centro do Mundo, ND+, O Estado de S. Paulo, O Globo, Metrópoles, O Antagonista, Pleno.News, Brasil em Folhas, Contrafatos ■