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O que o país testemunhou na última semana não foi um mero deslize editorial. Foi a demonstração cristalina de como o monopólio da TV aberta — travestido de oligopólio, mas na prática concentrado em uma única emissora de alcance nacional — opera como escudo de interesses políticos. Enquanto o advogado Willer Tomaz, amigo pessoal do senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ), amargava a prisão preventiva decretada pelo ministro André Mendonça, do STF, por comandar a logística financeira de um esquema que desviou até R$ 6,3 bilhões de aposentados e pensionistas do INSS, a TV Globo optou pelo silêncio sepulcral e pela amplificação desproporcional de um caso envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.
A cronologia é implacável. No dia 4 de agosto, a Polícia Federal deflagrou a nova fase da Operação Sem Desconto, cumprindo 18 mandados de busca e apreensão contra Tomaz e familiares do senador Weverton Rocha (PDT-MA), vice-líder do governo Lula no Senado. A PF descreve Willer Tomaz como o "hub financeiro, patrimonial e logístico" da organização criminosa. A investigação aponta que a esposa do senador, Samya Rocha, recebeu mais de R$ 11 milhões de empresas ligadas a Tomaz. O advogado mantém amizade pública com Flávio Bolsonaro, viajou com ele para a Flórida em um jatinho de luxo e atuou como defensor do ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL).
A partir da prisão preventiva de Tomaz, porém, a cobertura da Globo evaporou. O que era para ser o desdobramento natural de uma das maiores investigações contra a Previdência Social foi relegado a notas de rodapé. Enquanto isso, a emissora dedicou quase nove horas de programação a um empréstimo de R$ 249 mil feito pela empresária Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha, ao ex-chefe de gabinete da Presidência. Um valor que corresponde a menos de 0,6% das movimentações atípicas atribuídas a Willer Tomaz, estimadas em R$ 45,5 milhões.
Essa seletividade não é fruto do acaso. Ela é a expressão de um modelo estrutural: o monopólio da TV aberta. Segundo dados do projeto Media Ownership Monitor (MOM-Brasil), os quatro maiores grupos de mídia concentram mais de 70% da audiência da TV aberta no país. A TV Globo, sozinha, foi responsável por 40% de todo o consumo de vídeo no Brasil em 2025, alcançando 197 milhões de pessoas. É uma posição dominante que, na prática, equivale a um monopólio da informação em horário nobre.
A Constituição Federal de 1988, em seu artigo 220, § 5º, é clara: "Os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio". No entanto, mais de 38 anos depois, o Congresso Nacional ainda não regulamentou esse dispositivo. A ausência de uma lei que defina o que é monopólio e que estabeleça limites à concentração permite que um único grupo controle a maior fatia da audiência e, com isso, determine o que o país vê — e o que não vê.
O caso Willer Tomaz é exemplar. A PF apreendeu uma máquina de contar dinheiro em seu escritório, R$ 345 mil em espécie, quatro aviões, e bloqueou R$ 20,9 milhões de uma empresa ligada a ele. O advogado já havia sido preso em 2017 em um desdobramento da Operação Lava Jato. Sua relação com Flávio Bolsonaro é pública e documentada: em 2021, durante a CPI da Covid, o senador referiu-se a ele como "meu amigo".
Mesmo assim, a Globo preferiu transformar Flávio Bolsonaro em vítima de uma suposta filiação fraudulenta ao nanico Partido Missão — um episódio no qual o próprio TSE descartou a hipótese de ataque hacker e apontou que o registro foi feito por alguém com as credenciais da legenda. O endereço cadastrado era "Rua dos Bandidos, 666", no "Bairro Miliciano", com CPF "123.456.789-09" — dados tão grotescos que mais parecem uma provocação do que um golpe sofisticado. Ainda assim, a emissora tratou o caso com a seriedade de um escândalo de Estado.
Enquanto isso, a cobertura sobre Lulinha seguiu um roteiro já conhecido. Em 31 de julho de 2026, O Globo, a Folha de S.Paulo e o Estadão publicaram exatamente a mesma manchete sobre uma investigação envolvendo Fábio Luís Lula da Silva. O advogado de Lulinha, Marco Aurélio Carvalho, classificou a cobertura como "perseguição política e eleitoral" e afirmou que a Globo "retoma velhos métodos da Lava Jato – um período tenebroso no país".
O padrão é inequívoco:
A conta dessa seletividade é paga pelo cidadão. O direito à informação plural e diversa — garantido pela Constituição, mas não efetivado na prática — é substituído por uma narrativa única, fabricada por um punhado de famílias que controlam as concessões públicas de radiodifusão. O Grupo Globo, que completou 100 anos em 2025, é a expressão máxima desse modelo: um conglomerado que acumulou poder econômico, político e simbólico ao longo de décadas, com forte propriedade cruzada e articulações com o Estado.
O que se vê, portanto, não é apenas um viés editorial. É a operação de um sistema que camufla as falcatruas da direita — enterrando um esquema bilionário que tem como operador o melhor amigo do pré-candidato bolsonarista — e tenta criar um enredo inexistente para suspeição da esquerda — amplificando, sem provas, suspeitas contra o filho do presidente Lula.
Enquanto a regulamentação do artigo 220 da Constituição não for efetivada, enquanto as concessões forem renovadas automaticamente sem avaliação substantiva, enquanto a propriedade cruzada e a concentração de audiência não forem combatidas, o monopólio da TV aberta continuará a ser o principal instrumento de distorção do debate público no Brasil. A pergunta que fica é: até quando o interesse público será refém do interesse de meia dúzia de famílias?
Com informações de CartaCapital, O Globo, Valor Econômico, Poder360, Gazeta do Povo, UOL, Blog da Boitempo, Observatório da Imprensa, Intervozes, Revista Fórum, Imprensa Ética, Migalhas, e dados do Media Ownership Monitor (MOM-Brasil) ■