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A história se repete, mas o alvo muda. Durante anos, toda vez que a imprensa expunha fatos concretos de corrupção envolvendo partidos da oposição, a pergunta que ecoava era: “e o PT?”. Agora, com o filho do presidente Lula no centro de uma investigação da Polícia Federal, a grande mídia parece ter encontrado uma nova muleta retórica: “e o Lulinha?”.
O episódio mais recente escancara esse movimento. Na última terça-feira (4), a Polícia Federal deflagrou uma nova fase da Operação Sem Desconto, que investiga um esquema bilionário de fraudes em descontos indevidos sobre aposentadorias e pensões do INSS. As investigações apontam para uma estrutura criminosa que teria desviado até R$ 6,3 bilhões de beneficiários, envolvendo políticos, empresários e um sofisticado esquema de lavagem de dinheiro com postos de combustíveis, fazendas e aeronaves.
Entre os alvos da operação estão o senador Weverton Rocha (PDT-MA) – vice-líder do governo Lula no Senado – e o advogado Willer Tomaz, apontado pela PF como o operador de um “hub financeiro, patrimonial e logístico” posto à disposição do parlamentar. A investigação revelou movimentações financeiras atípicas da ordem de R$ 45,5 milhões atribuídas a Willer Tomaz, além de apreensões de R$ 345 mil em espécie, máquinas de contar dinheiro e quatro aviões. A PF também identificou que Samya Rocha, mulher do senador, recebeu mais de R$ 11 milhões de empresas ligadas ao advogado.
Enquanto isso, o que ocupou horas da programação da Rede Globo e de seus veículos? Um empréstimo pessoal de R$ 249 mil feito pela empresária Roberta Luchsinger, amiga de Fábio Luís Lula da Silva (o Lulinha), ao ex-chefe de gabinete da Presidência, Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola. O caso é, sim, relevante – Lulinha é alvo de três inquéritos por suspeita de tráfico de influência. Mas a desproporção na cobertura é o que salta aos olhos.
Enquanto a Operação Sem Desconto revelava um rombo bilionário que afeta diretamente a vida de milhões de aposentados e pensionistas, a cobertura da Globo se debruçou por mais de 15 horas sobre uma transação financeira de valor relativamente modesto, envolvendo uma pessoa próxima a Lulinha. A pergunta que fica é: onde estava o mesmo ímpeto investigativo quando as fraudes do INSS, com seus R$ 6,3 bilhões desviados, vieram à tona?
A resposta parece estar na velha e conhecida tática do “e o PT?”. Durante os governos petistas, a pergunta era usada para relativizar escândalos de outras legendas, como se a corrupção de um partido justificasse ou amenizasse a de outro. Agora, a mesma lógica é aplicada com o nome do filho do presidente. A cada nova revelação sobre o esquema do INSS – que envolve políticos de diferentes partidos, como Weverton Rocha (PDT) e Flávio Bolsonaro (PL), este último amigo pessoal de Willer Tomaz – a grande imprensa rapidamente desvia o holofote para o “caso Lulinha”.
A cobertura do empréstimo de R$ 249 mil, embora legítima, não pode ofuscar a gravidade do que a Operação Sem Desconto está desvendando. A PF encontrou no celular do senador Weverton Rocha uma foto que reúne políticos de diferentes legendas em um momento de descontração, incluindo Arthur Lira, Alexandre Ramagem e Juscelino Filho. A imagem, obtida pela revista Piauí, é um retrato do poder em Brasília – e de como ele opera muitas vezes à margem da fiscalização.
A lista de envolvidos no esquema do INSS é extensa e não se limita a um partido ou a uma família. Envolve:
O que está em jogo não é um empréstimo pessoal entre conhecidos, mas a drenagem de recursos públicos que deveriam garantir a dignidade de idosos e pensionistas. O desvio de R$ 6,3 bilhões do INSS é um crime de proporções gigantescas, que afeta a parcela mais vulnerável da população. A cobertura jornalística tem o dever de informar com proporção e relevância.
Ao dedicar um tempo descomunal a um caso de R$ 249 mil e relegar a um segundo plano uma investigação que expõe um esquema bilionário, a grande imprensa – e a Globo em particular – não apenas desinforma, mas também desvia o foco do que realmente importa: a proteção do dinheiro público e a punição dos responsáveis, independentemente de seus partidos ou sobrenomes.
A pergunta “e o Lulinha?” não pode ser usada como cortina de fumaça para escândalos que envolvem outras legendas. A corrupção não tem cor partidária, e a imprensa séria não pode tratá-la como se tivesse.
Com informações de G1, O Globo, Valor Econômico, CartaCapital, Correio Braziliense, Poder360, revista Piauí e Polícia Federal ■